Um editor com pronúncia inglesa
Em Portugal, onde não existe muita tradição de editing (ao contrário do que se passa no mundo literário anglo-saxónico), fundem-se frequentemente na mesma pessoa as funções de publisher e editor. Este último é, porém, alguém que «fixa» o texto, o corrige, anota, sugere alterações, e não apenas o que selecciona os títulos para publicação (e que às vezes nem os lê). Passei os olhos por um interessante artigo sobre a matéria, escrito por um editor (à inglesa) experimentado, que teve de servir de anjo-da-guarda e psicólogo a autores que tinham perdido o amor-próprio e a fé no que escreviam com outros editors, ao que parece sem as necessárias qualificações para a função e que, entre outras coisas, tinham pura e simplesmente ignorado que eles tinham um estilo... Pois bem, o artigo refere, afinal, quem deve e não deve ser editor, e num título destacado descubro, afinal, o principal: O livro é seu, não meu. Mas leio também que um bom profissional de editing deve ter uma obsessão pela gramática e corrigir a par e passo a ortografia e a pontuação, e que ajuda muito tratar-se de um leitor voraz com empatia pela escrita (pode ser um jornalista, um blogger, ou até um escritor). O bom senso parece também fundamental, bem como a capacidade de se exprimir com objectividade e poder de síntese; deve saber sempre manter a voz do autor e nunca deixar a sua própria pegada no texto; ter olho para o detalhe e ser especialmente sensível às inconsistências; e, por fim, ser brutalmente honesto sem nunca perder o respeito pela obra e o autor com quem está a lidar. Gostei destas dicas e concordei com todas. Segui-las-ei no meu trabalho (se é que não as sigo já).
Há de facto sempre coisas novas para descobrir, mesmo no âmbito daquilo que é a nossa paixão, e creio até que é a forma de ela se manter e mesmo crescer!
ResponderEliminarA leitura, os livros, são uma das minhas paixões mais antigas e maiores!
No entanto, só há menos de meia-dúzia de anos é que dei atenção a este pequeno grande detalhe que a Nossa Extraordinária Anfitriã agora nos trouxe: o Editor!
Antes, ligava mais à Casa Editora, pois tendia a ligar os assuntos que mais me interessavam ou os livros preferidos a esta ou aquela chancela... e por ignorância pura, desconhecia ou nunca liguei ao facto de haver uma profissão "editor".
No meu caso, não de escritor mas de articulista, quem me chateava com os prazos, com o tamanho dos textos (sou um reconhecido e assumido pesadelo para qualquer paginador!), me sugeria ou até encomendava artigos e quem os corrigia gramaticalmente, até os arrumava, era sempre alguém da redacção das revistas onde publiquei.
Mantive-me por isso nesse total desconhecimento!
Até ao dia em que publiquei um romance que resolvi escrever... pois foi, mas só depois de publicado é que percebi que "aí é que a porca troce o rabo!".
Depois do trabalho feito, das críticas e da minha análise e comparação, percebi de facto a falta que faz esse Editor! E passei assim a dar valor a mais uma vertente até então desconhecida do Mundo dos livros...
Esta a minha história... e talvez a de outros dos Extraordinários que se tenham aventurado pelos caminhos da edição, ainda que em parceria.
Faço por isso um grande Bem-Haja aos Editores e manifesto ainda o interesse diário em vir aqui para aprender ou confirmar tanta coisa interessante sobre leitura e livros, escritores e claro, sobre a edição!!!
Saudações editadas cá da Cidade Morena!
Dizem-me que as segue. Já agora: onde existem (mais) editores assim em Portugal?
ResponderEliminarJá agora... uma dúvida!
ResponderEliminarO Editor trabalha sempre associado ou engajado numa editora, certo? Não há Editores por conta própria?
Ou seja, se eu escrever um romance, e precisar do trabalho de um Editor, só o consigo se a editora se dignar entregar o trabalho a um dos seus Editores, certo? Ou sejam arrisco-me a nunca ter oportunidade de submeter o meu projecto de livro a um Editor...
Daí a pergunta: Há Editores por conta própria, que aceitem fazer esse trabalho como descreve?
Saudações curiosas, da Cidade Morena
Presumo que haverá pessoas que façam esse trabalho, sim, fora das editoras. Porque na verdade o que é preciso é ter lido muito e ter experiência, bom gosto e bom senso. Creio que alguns escritores dão os seus livros a confrades antes de os entregar nas editoras para que sejam «editados». Agora saber o nome dessas pessoas já é mais complicado... Mas talvez na Internet descubra algumas.
EliminarHá quem faça isso, sim. Uns que sabem qualquer coisa do ofício, outros que se aventuram e ainda um ou outro que, pela experiência, ganhou qualidade.
EliminarE há autores que (como abaixo diz MRP) entregam os seus originais a alguém (por vezes um grupo razoavelmente alargado) que funciona como um "conselho de leitura". Ao chegar ao editor/"publisher", a obra já está depurada.
O importante neste trabalho, além do rigor em todas as "faces" da obra, é "manter a voz de autor", com refere MRP.
Cumprimentos,
CSC
https://www.facebook.com/pages/Editor-Fantasma/1464331790553054
Eliminar:)
http://publishingperspectives.com/2013/11/how-do-you-spot-a-good-editor-and-avoid-the-amateurs/
ResponderEliminarSeria este artigo? :)
É esse mesmo.
Eliminarnão tinha noção de que o editor se "intrometia" tanto no trabalho do escritor, que tinha uma função tão "extensa".
ResponderEliminara parte do "fixar" o texto deixou-me confuso.
gostava que a Rosário me esclarecesse qual o seu verdadeiro significado num livro.
Em Portugal, não é comum. Mas em Inglaterra, por exemplo, há editores que reescrevem partes do texto dos autores, «fixando» o texto final. Em Portugal, por exemplo, quando um autor morre e deixa manuscritos, muitas vezes o editor/organizador fixa o texto com o que lhe parece ser a intenção do autor.
Eliminargrato pelo esclarecimento, Rosário.
EliminarUm assunto sempre interessante para debater e aprender. Um editor, para mim que sou leiga na matéria, tem de ser a voz off do escritor. Aquela que traz as incongruências e as distrações aos olhos cegos de quem escreve. Sim, porque um escritor, por mais imparcial que seja quanto ao que escreve, tem sempre uma ou outra remela no canto do olho. Felizmente que existem profissionais a quem devemos deixar passar a compressa de soro fisiológico.
ResponderEliminarUm abraço aos escritores, aos leitores e, sem esquecer, aos editores.
Carla Pais
A Maria do Rosário tem o conhecimento, a experiência, o bom gosto e o olhar crítico que permitem melhorar uma obra, além disso ofereceu-mos com paciência e empatia, sem me constranger com a sua autoridade mesmo quando teve de lidar com a minha ignorância atrevida. Sobretudo não esqueço a generosidade, pois sempre que trabalha como editora a Maria do Rosário abdica de escrever poesia e põe as suas capacidades ao serviço dos outros. Não tenho dúvidas de que o editor que menciona podia aprender umas coisas consigo.
ResponderEliminarEste é o "drama" maior de qualquer autor, que procura esse limite infinito com inscrição escritor e que auto publica... o encontrar um bom editor que seja capaz de enfrentar o seu original de forma assertiva.
ResponderEliminarA obsessão pela gramática, a correcção da ortografia e pontuação podem obviamente estar nas mãos de um revisor «Mas não me parece que seja a mesma coisa!»... e Deus sabe na minha "arrogância imaginativa de libertino da escrita" :) como precisava ser muitas vezes domado... (de preferência com festas e não chicote!)
Se há algo que sinto falta ao publicar (para além do drama, já não de agradar, de encontrar o meu leitor, mas tão só de chegar ao leitor) não é de fixação, da tal pegada que não desejaria (o que não significa que enjeitaria alguma vez conselhos ou opiniões), mas do olhar crítico, honesto, analítico do editor, nem que fosse para... manter quase tudo na mesma.
Claro que algumas dúvidas (em dia de tirar dúvidas se a Rosário estiver para nos, me, aturar) que tenho relativamente ao Editor são:
1)como é que o editor consegue ele próprio eximir-se à sua própria individualidade como autor?
2)Não será o Editor ele próprio (e sempre) um Autor?
3)Como consegue o Editor evitar "apontar" aquilo que pode ser um estilo próprio do Autor, ou apenas uma questão do seu próprio Gosto?
4) Fará "isso" parte do rol das características de um bom Editor?
Termino dizendo que, num país de muitos desempregados, há sempre nichos de mercado por preencher: o de mais e bons Editores! Ficamos a aguardar pacientemente!
Tentando responder:
Eliminar1) Essa parte é difícil, claro, mas se calhar é apenas porque prefere ser leitor a autor.
2) Acho que não: que será um leitor acima de tudo.
3) Um editor com experiência sabe distinguir o que é estilo do que não é. Mas separar o seu gosto pessoal da apreciação é que é tramado. Em todo o caso, se o editor não gosta mesmo de um livro, como o defenderia se o publicasse. Talvez outro editor goste dele e o possa defender.
4) O rol é sobretudo experiência e leitura, todos os dias mais um bocado.
Obg. Rosário, mais clara do que foi não podia ter sido.
EliminarDe tal maneira que reformulo a minha frase: mais clara não podia ter sido.
E obviamente a tenho no rol do "bom editor". A frustração maior de um autor que aspira a esse caminho infinito de se sentir escritor como é facilmente perceptível, é sentir que muitas das suas obras terão de passar pela via sacra da auto edição , podendo arrastar muitas das suas obras por isto: It’s pretty clear that the difference between a compelling novel and a mediocre one is often decided at the editing stage ».
Se é um editor à inglesa, devia passar a ser um editor global, do mundo:) Como é esfera a que não pertenço julgava ser assim mesmo que todos os editores procediam.
ResponderEliminarNão, Beatriz. Desde que a edição se tornou uma insdústria, há editores que apenas compram livros estrangeiros que fazem sucesso internacionalmente e nem sequer os lêem. Conheci alguns que faziam apenas produtos, e não livros, e que nem assim se deixavam de chamar editores. Uma pessoa que por exemplo encomendasse agora a Bárbara Guimarães um livro sobre a sua alegada história de violência doméstica e a publicasse, não tinha necessariamente de saber de gramática, poderia socorrer-se apenas de um bom ghost-writer e de um bom revisor e, se calhar, já tinha o ano feito em matéria de resultados financeiros...
EliminarUm editor à inglesa (moda inglesa) porque respeita o protocolo estaria a ser editor global; bem, se este tem interesse ou não, é outra argumentação, haja vista a sociedade estractificada em veículos de comunicação na vez globalizada (inclui-se livros na web) diverte-se a ler novos ou antigos livros com ou sem tradição, independente da qualidade (aí o estão a quatro cantos, quanto a bons tradutores onde estão?) dever-se-ía pagá-los bem, pois de outra forma a educação ou seja, a formação e critério independente de nacionalidade (no modelo acima citado por d. Beatriz Santos a leitura global) manja este novo conceito, assim está a humanidade e a humildade é o povo; enfim a com relação a este assunto bons escritores tem direito a sentirem-se na ofensa? Sim. Porque a cultura geral que inunda a publicar os "top teen" e por vezes está a depreciar sérias iniciativas comerciais e nem só de boa literatura, donde a diversidade preza disputar interesses a arraia-miuda.
EliminarDefendo-os.
Ó deuses do Olimpo, quem me dera entender a Cláudia na íntegra!
EliminarOs pés de barro da humanidade são cada vez maiores.
EliminarArtigo Acadêmico
EliminarPoetics - Volume 38, Issue 4, August 2010, page 419-439
Globalização ano Cultural divertir in the book market: the case of literary translations in the US and France
Gisele Sapiro director Centre nacional de la recherche scientifique (CNRS), and director off the Centre européen de sociology et science politique (Paris).
the author of "La Guerre des écrivains, 1940-1953 (1999)"
É o mais misterioso dos ofícios. Ler profissionalmente? Ui…
ResponderEliminarAo conhecer as dicas da Rosário, lembrei-me de uma história que se passou comigo há uns anos. Estava numa aula de Projeto, do curso de Arquitetura, a aguardar numa fila pela minha vez de mostrar ao professor (um catedrático reputadíssimo) o trabalho que tinha produzido ao longo do 1.º semestre. Cada um de nós tinha em mãos uma proposta para a ocupação de um lote na Rua do Alecrim, em Lisboa, vazio havia anos por causa dos obstáculos colocados pelo antigo IPPAR (que queria – e muito bem – preservar o troço da muralha Fernandina ali existente). A verdade é que, a certa altura, reparei nos esquiços que o colega que estava imediatamente à minha frente se preparava para apresentar. Talvez influenciado pelo Ricardo Bofill, um arquiteto espanhol muito discutido na época, os seus desenhos eram autênticos hinos pós-modernos (os mais antigos lembrar-se-ão que o pós-modernismo na Arquitetura era, então, jocosamente apelidado de “taveirada”). Conhecendo a linguagem arquitetónica (e o temperamento) do professor em causa, temi o pior. Acontece que, para espanto generalizado, este mostrou-se muito recetivo, limitando as suas objeções aos erros de conceção do projeto.
Foi uma lição e tanto!
Afinal, o grande Mestre mostrava ser capaz de descobrir valor noutras linguagens (e há pós-modernismo primoroso), mesmo que opostas aos princípios estéticos e funcionais a que sempre se vinculara.
Vem isto a propósito do trabalho do editor.
Será que não tem preferências por este ou aquele género literário? É claro que sim, até porque, antes de tudo, estamos a falar de um leitor. Então, eu acrescentaria como característica essa rara capacidade – muito mais cultural que genética – de mergulhar em águas estranhas e saber quando vale a pena.
O caso da Rosário ainda é mais insondável. É que, além de leitora, é escritora (muito provavelmente, já vendeu mais livros do que todos os seus autores, o que a torna, no mínimo, um caso raro). Fica a dúvida: sendo uma criativa, em que lugar de si mesma encontra o fôlego para participar nos livros dos outros? Ainda se poderia pensar que é por um daqueles pragmatismos da vida, mas não, não o faria tão bem.
É claro que isto não é uma pergunta, pelo menos não é dirigida à Rosário. Primeiro, porque ninguém, sem ser a própria, terá alguma coisa a ver com isso; depois, reconheço, fascinante é continuar a imaginar.