Com o rei na barriga
Nesta profissão que escolhi – e que, em boa parte, está ligada ao talento alheio – encontrei pessoas de todos os géneros e feitios. Com algumas, foi muito fácil trabalhar – e nem se pode dizer que eram mais humildes (não, o ego estava lá), mas eram seguramente mais abertas e inteligentes; noutros casos, o trabalho foi sempre acidentado, com curvas apertadas e lombas permanentes, obrigando frequentemente a frustração, cedência e, uma vez ou outra, mau génio ou tristeza da minha parte. Aqui e ali, sobressaiu um desejo cego de se ser admirado pelo público, não um desejo normal que deve ser comum a todos os criadores, mas uma vontade quase doentia de reconhecimento (poucas vezes, claro, mas inesquecíveis). Eu, que sou principalmente leitora, nunca me prestei muita atenção como escritora. Claro que me magoo com certas reacções, mas sou, acho eu, bastante discreta quanto à minha obra (há até quem diga que não a levo a sério, mas não é verdade). A minha mãe, por exemplo, ofende-se quando não a previno de uma entrevista que fui dar à televisão, entrevista essa que apanhou por acaso e já a meio. Pois há uns dias, num desses momentos em que estava irritada com alguma coisa e não me conseguia concentrar em mais nada, pus-me a jogar uma daquelas paciências com cartas de jogar no computador e, quando terminei o primeiro jogo, saltou um quadrado a meio do ecrã a dar-me os parabéns por ter cumprido, a dizer-me qual era a minha pontuação e a oferecer-me uma estranha possibilidade: Tell friends. Contar aos amigos que fiz uma paciência? Para quê? E de repente lembrei-me de algumas pessoas que no passado se cruzaram comigo nesta profissão e que dariam tudo para «tell friends» qualquer merdilhice de que fossem capazes... Enfim, cada um é como cada qual.
De contrário (for) entender-se-ía o rei agasalho.
ResponderEliminarNão serão entusiasmos de principiantes? :-)
ResponderEliminarMal comparado : Quanta gente com ares de importante, vaidosa e sabichona tenho contactado e para quem, por vezes, faço de parvo e (os asnos) assim me julgam...
ResponderEliminarUm assunto fascinante, essa experiência que vai reunindo. E toca num ponto essencial: é verdade que o "tamanho" do ego nem sempre está ligado à capacidade, ou não, de abertura a novas ideias e à inteligência. Debaixo de uma humildade exagerada, na minha opinião, encontra-se sempre essa «vontade quase doentia de reconhecimento». É ela que exige o disfarce. Eu, pelo menos, desconfio sempre de quem seja excessivamente humilde.
ResponderEliminarTambém há pessoas que, perante qualquer crítica, se servem da inveja, do tipo: ah, eu sou talentoso/a, tenho sucesso e tal, por isso, sou alvo da inveja dos outros. É claro que acontece frequentemente. Mas será bom abusar do subterfúgio?
Enfim, a psique é muito complexa...
Inteiramente de acordo!!!!
Eliminara maioria das pessoas sofre de falta de humildade. Seres excessivamente humildes desconheço. Quando Lobo Antunes disse em entrevista recente que olha para as filas extensas de pessoas que pedem autógrafos a outros escritores que não ele e fica a pensar no mistério que terão as suas palavras que aglomeram gente, e à questão da jornalista sobre si mesmo desviou de novo o assunto para os outros escribas, estava sendo excessivamente humilde? É que ele, se está na Feira a assinar, tem de longe a fila mais interminável. E no entanto, como toda a gente sabe, reconhece o que vale (refere na mesma entrevista que, se não o soubesse, era parvo).
EliminarA humildade é hoje um lugar difícil e pouco apreciado, entendida quase como uma deficiência na aprendizagem, um qualquer coisa que falta. Prefere-se uma frontalidade agressiva, quase mal educada a um ser humilde que não bate o pé nem ergue o eu como se seja a estátua da liberdade.
E com tudo isto o reino dos céus cabe aos humildes, sai-lhe na rifa. Ora esta. É ainda pior que o governo português a querer dar Audis topo de gama a quem não tem dinheiro para a gasolina. E depois, onde é que os humildes vão pôr um reino inteiro?! Não se sabe.
Peço desculpa pelo arrazoado. Sorry (as desculpas em duplicado serão excesso de humildade:) vontade do eu nos píncaros; paciência).
Beatriz, acho que muita gente tem uma ideia errada de humildade, ou seja, deixam-se usar pelos outros, aguentam tudo e mais alguma coisa, na esperança de serem elogiados e/ou amados. É apenas com esse fito, não se interessam minimamente pelo bem-estar de terceiros.
EliminarUm artista demasiado humilde, para mim, é aquele que insiste em que, no fundo, não vale nada, que não merece o destaque que lhe dão, que até nem liga a essas coisas, blá, blá, blá. Um pouco de amor próprio é bonito de se ver, acho eu. Não tenho nada contra egos um pouco inchados, desde que não prejudiquem ninguém, nem mintam.
Quem não bate o pé, não chega a lado nenhum, é verdade! Mas também sou contra a agressividade, principalmente, quando é gratuita. Agora, bater o pé, quando nos sentimos injustiçados ou incompreendidos, acho muito bem! Infelizmente, o mundo está cheio de gente que se aproveita dos outros. Não bater o pé é consentir que o façam.
Um pouco de amor próprio toda a gente tem, salvo talvez casos muito patológicos. Bater o pé também me parece normal havendo razão para isso e ainda que admita a existência de pessoas a quem custa fazê-lo pelo protagonismo que exige. Mas quem faz tudo para ser amado ou elogiado não se lhe pode pedir outro sentimento em relação a terceiros, está virado para si mesmo, as relações, a existirem, têm um único foco. Parece-me um jogo um bocado sujo e não humildade.
EliminarPrecisamente! E há quem disfarce muito bem.
EliminarTendo apenas um príncipe pequenino de baixo perfil na barriga, que nunca gostaria de ver coroado, não há nada melhor do que a nossa liberdade plena. Não tendo qualquer desejo doentio de reconhecimento percebo, assim, muita dessa necessidade de afirmação.
ResponderEliminarPor esse desejo ser tantas vezes uma compensação e uma motivação mínima acrescida. E num mundo onde o esforço, o mérito ou o talento não é condição de quase nada, consegue-se até perceber através dos dramas e vidas de grandes escritores, a quem faltou na sua vida um afecto, um carinho, um sentido de resposta, um reconhecimento, por um trabalho de entrega na construção de um mundo melhor, não sujeito ao cada vez maior peso do aleatório e do discricionário pela condição dos grandes números.
Além disso o Tell Friends, hoje, tem a ver com a percepção de que todas as mensagens merecem uma oportunidade à sua divulgação.
A profissão de Editor não é fácil como nos apercebemos: mexe com percepções, empatias, gestão de expectativas, afectos, até motivação para sofrer um pouco menos. E quem não gosta de afectos, ou quem não gosta de contribuir um pouco para um mundo melhor?
O ego, tal como a humildade, tem de ser equilibrado, tem de estar numa certa medida para que a balança não desequilibre e derrame mesquinhez. Ainda que se escreva muito bem, tem de haver ali uma mão aberta aos reparos, às críticas; um espaço, como um estômago saudável, onde se possam digerir as mais diversas opiniões sem azia.
ResponderEliminarEsta coisa cega do reconhecimento, muito antes do crescimento enquanto escritor ou autor, é a mesma coisa que ambicionar uma enorme vivenda e, com a pressa e o medo dos temporais, começa-la pelo telhado.
Um escritor que será Escritor não pode limpar os beiços à vaidade pela obra que escreveu, deve sim, ter a consciência de que a obra que escreveu , mesmo que o público não a reconheça no imediato, é somente um dos alicerces que lhe construirão a tal vivenda. É claro que há por aí gente que, de peito inchado, não chegará à primeira placa... Somos sempre pequeninos enquanto escrevemos, sabe-se lá para quem.
Eu, que gosto muito de escrever, quanto mais leio, mais tenho a certeza de que nem às fundações ainda cheguei quanto mais ao resto! E atenção que isto não é humildade em demasia, é apenas a constatação de uma realidade que me garante os pés assentes no chão.
Um abraço a estes extraordinários leitores.
Carla Pais
Muito bem, Carla. A obra anterior é sempre um rascunho da seguinte! Um escritor deve ser um atleta de competição sempre à procura da sua melhor prestação.
EliminarMinha querida editora, pela minha parte diria apenas que aprender consigo a crescer neste universo de histórias que ganham papel para viver e se expandir foi a mais imprevisível fortuna com que algum deus distraído resolveu presentear-me. E fico agora mais descansado, pois algumas das paciências que jogo enquanto espero que acabe o treino do meu filho ficam também guardadas no baú das minhas proezas particulares de significado momentâneo e não merecedoras de divulgação.
ResponderEliminarSobre os escritores:
ResponderEliminarSe não tiverem a desmesura de acreditar que são os melhores escritores do mundo, então não valeria a pena (ou não conseguiriam sequer) escrever [o último a afirmar este princípio mil vezes repetido foi o António Lobo Antunes]. Não havendo que dar desculpas para a arrogância e a má educação, a desmesura da escolha da escrita como profissão poderá justificar a nossa complacência com alguns comportamentos desmesurados.
Sobre as paciências:
A este propósito, lembro-me sempre duma cena genial do filme "José e Pilar" em que o Saramago é observado a trabalhar ao computador e a dizer "vamos lá a ver", e nós pensamos que ele foi apanhado num momento de criação mas, quando a câmara roda, vemos que está a resolver uma paciência no computador. Saramago justifica-se dizendo que lhe asseguraram que o exercício afasta o Alzheimer. Memorável !
Sem dúvida, Artur Águas. Não é o acreditar ser-se o melhor escritor do mundo. É o acreditar poder ser-se um autor pelo menos "decente" do mundo, com o (nosso) infinito como palco.
EliminarNão é o que existe, é o que fazemos por existir.
Quando lancei o meu último, MOOBL , o Reverso", tinha pelo menos a consciência de ser um filho que beneficiou dos seus antecessores dados à luz.
E tinha a quase certeza que muitos já terminados e que ainda não viram a luz, colocados numa incubadora, só a verão depois de confrontados com estes dois últimos, postos perante a seguinte pergunta: meus filhos, serão vocês melhores filhos do que os vossos irmãos?
Ainda não tinha lido essa do Alzheimer. Bem razão me "parece" ter Saramago. Não faço paciências, mas pelo-me por jogos de estratégia: exercita-nos o xadrez da vida e da escrita e vai exigindo às sinapses que não se quebrem!
EliminarEstranho que ninguém tenha comentado nada sobre este mundo das redes sociais, em que tanta gente está viciada, de tal forma que nada faz na vida real sem o partilhar no seu blogue ou no facebook, mesmo que não sejam vitórias, e muitas vezes são intimidades que poderiam ser contadas aos amigos, mas não ao mundo, digo eu. O que procuram? Reconhecimento? Partilha? Uma vida mais cheia, ainda que virtual?
ResponderEliminarNaquilo que nos define como seres humanos, e que nos garante bem-estar, há uma parte que tem a ver com as expetativas/sonhos e o reconhecimento/aceitação dos pares, mas apenas quando as bases da sobrevivência já estão asseguradas.
Por outro lado, suponho que mesmo que digam que escrevem para si próprios, os escritores querem saber se são lidos, entendidos e valorizados. E, sendo geralmente pessoas que leem, tendo lido bons livros, se ainda assim se atrevem a escrever é porque acham que podem contar alguma coisa nunca contada, ou contar de outra forma o que outros não souberam contar tão bem. Ou será que sentem um chamamento? Se assim, for, então é natural que haja grandes egos, difíceis de domar, mesmo para quem os carrega.
Divagando mais um pouco: alguém gostará de ouvir uma crítica? Não preferimos todos um elogio? Então por que razão damos tantas vezes mais atenção às críticas?
Enfim, há muito que não vinha aqui e apeteceu-me comentar. Foi com gosto que verifiquei que os extraordinários habituais cá continuam. Um abraço a todos!