VGM

Com o tempo, os intelectuais portugueses foram-se transformando – e hoje faltam-nos aqueles que eram realmente intelectuais completos. Falo por exemplo de Eduardo Prado Coelho, que podia escrever com a mesma profundidade sobre livros, dança e comida, ou do recentemente desaparecido Vasco Graça Moura que, além de poeta e romancista, era um homem cultíssimo em muitas artes (um melómano confesso, de resto) e um interessante opinion-maker, mesmo que não concordássemos sempre com as suas opiniões. Mas a sociedade Estoril-Sol, que é já conhecida pelo lançamento de dois Prémios Literários (Revelação Agustina Bessa-Luís e Fernando Namora, ambos atribuídos anualmente) e também pela publicação da revista Egoísta, não esqueceu o grande Vasco Graça Moura e resolveu homenageá-lo, tornando-o patrono de mais um prémio. Desta feita, o galardão contemplará a Cidadania Cultural e, digo eu, não podia calhar melhor.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco24 de outubro de 2014 às 01:51

    Cidadania Cultural?
    Ou seja, premiar quem faça pela cultura, pela sua divulgação e elevação, é isso?

    Parece uma boa e excelente iniciativa...

    Saudações culturais desde a Cidade Morena.

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    1. Ó Pacheco, bom dia

      Cidade Morena? será que me poderás esclarecer - é que a Vila Morena já eu conheço e o porquê, mas Cidade Morena é que não conheço nem o porquê? e gostava de saber, sinceramente. Obrigado

      Saudações Literárias

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    2. António Luiz Pacheco24 de outubro de 2014 às 05:02

      Não tens de quê ó Severino!

      Benguela é conhecida como "a Cidade Morena", históricamente povoada de mulatos, onde existem das mais bonitas mulheres do Mundo (as cabritas, filha de branco e mulato).

      As mulatas de Benguela são célebres e uma presença constante em tanta obra literária ou poesia.

      Estas as razões que gosto de invocar... eheheh!
      Razões poéticas... pode dizer-se...

      Um abraço moreno - é que já apanhei Sol!!!!

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    3. António Luiz Pacheco24 de outubro de 2014 às 05:16

      Vou-te responder usando um excerto de uma obra extremamente fidedigna, que me parece adequada à tua curiosidade e esclarecimento:

      Ainda no início de Setembro, embarcaram num vapor de guerra, acampando a tropa no convés, o muito equipamento enchendo os porões, aliás abafados. A viagem foi calma, num mar de estanho, sem vento e tempo agradável. O Zé do Telhado aproveitando para lhes falar do pouco que conhecia: ”Benguela é uma cidade miserável, um porto e pouco mais, com umas casinhotas e muitas febres! Brancos quase que não há! A bem dizer só pardos, Benguela é a cidade dos mulatos! E podem crer que são normalmente de muito melhor carácter do que os brancos, e as mulatas então… as de Benguela são as mais bonitas do Mundo conhecido!” E de facto as mulheres de Benguela seriam sempre conhecidas pela sua beleza e garridice, num cruzamento feliz do europeu com as lindas mulheres de algumas etnias do Sul, gentis de corpo, de finas feições e grandes olhos negros. As mulatas novamente casadas com brancos originavam um tipo ainda mais bonito, as chamadas “cabritas”, que tanta cabeça fizeram perder. Aliás, nisso o português foi mestre! Em apreciar as coisas boas dos territórios colonizados, sobretudo as mulheres, e dizia o velho ditado africano: Deus fez o branco e o preto, o português fez o mulato! “Vamos lá provavelmente encontrar Silva Porto. Ouvi que anda a preparar uma grande viagem ao interior! Soube que estava ali a aviar-se, pois antes de nós saiu um navio que levava uma grande carga para ele”.


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    4. António Luiz Pacheco24 de outubro de 2014 às 05:17

      Mais um pouco de história e de razões...


      A 10 de Setembro de 1863, chegaram os nossos expedicionários a Benguela, capital do reino, fundada em 1617. Era o equivalente a Luanda mas ainda mais débil, miserável e insalubre, devendo-se a sua importância ao escoamento do marfim vindo dos reinos ovimbundos e da África Central de que era o terceiro corredor para Zanzibar, além do de Luanda e do de Moçambique. Vivia apenas para o comércio e sobrevivia por ter governador mas sobretudo uma alfândega muito lucrativa! A fortaleza de S. Filipe, em adobe que se desfazia com as chuvadas mais fortes e tinha de ser reconstruída, pouco respeito impunha ao espírito de independência dos africanos, ali bem mais acentuado. Tinha apenas uma pequena guarnição de soldados de Iª Linha e nenhuns de IIª Linha, em caso de conflito sério havia que recorrer à dita guerra preta, sempre de duvidosa lealdade mas eficiente, e ainda com a vantagem de manter acesas as quezílias internas entre africanos, que preferiam aliar-se aos portugueses e guerrear uns contra os outros que fazer causa comum! Com a entrada do tráfico negreiro na clandestinidade, Benguela teve prejuízos consideráveis pois deixou de contar com esse movimento de pessoas e com o dízimo. A cidade, descrita na época como uma aldeia portuária arruinada tinha no entanto uma escola primária e Misericórdia (hospital). O apoio militar era feito pela marinha e a presença de vasos de guerra impunham o necessário respeito, não raro sendo necessário o desembarque de forças de marinheiros para combate em terra! Só em 1861 se estabelecera a autoridade fiscal e militar que impediria o tráfico de escravos mas na verdade apenas o empurrara para outros locais improvisados. A mortalidade era grande, pela proximidade da zona pantanosa do rio Cavaco e das febres, já se havia tentado a sua transferência para o Lobito, o que no entanto não resultou pois o Lobito era uma simples dependência da Catumbela, na verdade a mais importante de todas as localidades a S de Luanda, para onde confluíam as caravanas. Por isso a população branca era escassa e não renovada, ali havendo sobretudo mulatos, filhos dos antigos colonos e que tinham no comércio a sua actividade quase exclusiva, apoiados por algumas hortas e um pouco de gado no rio Cavaco, fundamentais para o abastecimento das caravanas. Outro detalhe importante eram as salinas, donde saía aquele importantíssimo produto para trocas e que permitia ainda outra actividade vital com as chamadas “pescarias”, nas grandes baías, calmas e abrigadas, que faziam da costa um porto natural e seguro, onde se começava a instalar a actividade da pesca, salga e seca de peixe, com grande importância económica.

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    5. hummm...já percebi onde é que o Chico Buarque foi buscar a inspiração

      http://www.youtube.com/watch?v=BwAg5hLCClE

      morena de Angola

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    6. António Luiz Pacheco25 de outubro de 2014 às 11:33

      Há uma peça declamada por Vilaret que também tem por tema uma mulata que teria sido levada para a corte de um governador algures e andava dando volta à cabeça de muita gente e a perturbar as senhoras havendo muitas queixas... lembro-me disto assim mais ou menos, culminando na sentença do governador:

      .... eu aqui em (?) faço lei como em Lisboa!
      Não digam que a mulata é má,
      pois decreto que ela é boa!

      Saudações mulatas da Cidade Morena!

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    7. Fixe! Ser boa por decreto é que dá:))

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  2. Claro que não podia calhar melhor a VGM ser o patrono da Cidadania Cultural no Estoril.

    Se não, vejamos:

    «Um Domingo Estoril

    de passarem navios, petroleiros.
    de passarem às vezes cruzadores.
    de passarem as nuvens e os veleiros.
    de cansarem o olhar os pescadores.

    de passarem atletas e mulheres.
    de passarem os cães e os namorados.
    e, em seus óculos grandes como halteres.
    inglesas lambiscando os seus gelados.

    de passarem as ruivas do casino.
    sardentas e lascivas, e o ginasta
    que em frente dos banhistas faz o pino.
    de passar o comboio que se afasta.
    de passar repassar a multidão
    de um domingo estoril no paredão.»

    Vasco Graça Moura (1942–2014)

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    1. tão bonito deixar coisas destas, sôfregas dos olhos de qualquer! É como se o poeta deixe as mãos abertas ao mundo que nelas se deita de quando em vez. Tão bonito!

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  3. Um tema muito interessante sobre o qual penso haver nesta área uma enorme responsabilidade das casas editoras. Uma escolha muitas vezes incompreensível... pela falta de mundo... ao jogarem todos os dados em qualquer pequeno critério que cheire a mediatismo. Obviamente que falando em VGM ou Eduardo Prado Coelho falamos em homens estritamente de letras, mas poderiam estes intelectuais ter uma visão holística em outras áreas como o Direito, a Economia, a Sociologia, a Gestão...? A intelectualidade como abastracção colide hoje com um mundo dinâmico cada vez mais integrado e holístico, em que carece de competência quem não interpenetra as diferentes áresa dos saberes. Esquecer isto é teimar numa fórmula de certo modo errada e repetitiva sem conformação ou confirmação...

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    1. áresa... Áreas em linguagem espacial?! :)

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    2. António Luiz Pacheco24 de outubro de 2014 às 04:52

      HUm... intelectualidade/intelectual, creio que se refere aos que usam o intelecto, os pensadores portanto.
      Não aos filósofos, isso é outra coisa embora estejam ligadas claro...

      Para mim o intelectual é quem pensa, em tudo ou apenas numa área, mas que pensa!
      As coisas antes de serem realizadas têm de ser pensadas, não é?

      Portanto, o prémio da intelectualidade será dado a quem pense, penso eu... e VGM era deveras um pensador, e há mais ainda vivos, poucos mas ainda há... não têm de ser homens de letras e nem escritores... terão sim é de através do seu pensar divulgar e elevar a cultura.

      Não sei se me consegui explicar?

      Saudações pensantes, da Cidade Morena!

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    3. Conseguiu, pois! E até ficámos todos nós um pouco com a ilusão de que seremos assim uns embriões de pensadores:)). O que já não é mau:).

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  4. Sem dúvida António Luiz. Nessa medida, lastimo, mas não estou totalmente de acordo com a afirmação da Rosário sobre completude, como se só no passado houvesse homens que pensavam a sociedade através da literatura, onde se cruzavam potencialmente a literatura com a história, com a psicologia, eventualmente com a psicologia e quase sempre com a filosofia. Não há falta de intelectuais em Portugal. Houve, sim, uma alteração da sua visibilidade por factores relacionados com a exigência dos mercados. Um novo herói foi criado. Um herói comestível, rápido, o mais possível higienizado e com as orelhas do Ken e da Barbie. O mercado hoje, pensam eles, quer o imediato e o histriónico em vez do ponderado e do equilibrado. Quer o que comunga em vez do que diverge e se diferencia. Quer o que reflecte, mas só se essa reflexão não for contra o padrão estabelecido e abrir as portas ao comodismo da facilitação. Hoje confundem-se textos escorreitos com textos com pouco conteúdo. As causas e consequências são quase sempre superficiais e ficam quase sempre sob o olhar arguto do EU. Um EU cada vez mais vicioso, incapaz de fugir a um modelo cada vez mais indigesto para quem quer que os olhos se iluminem também na nuca. A massificação trouxe o ajuste com a diferença. Mesmo que se arvore a diferença como o valor e o padrão da afirmação de novo valor, realidade que na literatura carece cada vez mais de prova. Estou com uma curiosidade quase mórbida de folhear o novo enxuto, mas imberbe Ken das letras. Para quem gostar de reflectir de como esses EUS nos têm vindo a assaltar nos últimos anos, é ler o meu MOOLB, O REVERSO :), um tipo cada vez mais sofrido na sua dialéctica e independência.

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    1. Peço que a Rosário me desculpe mas a vida não é vida sem sal e pimenta. E houve aqui uma mãozinha de má génio, de anti-inocência, que resolveu lançar umas achas para a fogueira. Uma fogueira onde ardem desconfianças, ressentimentos, vaidades, ilusões, preferências, réplicas, até um índex muito parecido com a maior fraude nacional digna de um Gil Vicente: a de que os antigos são trapos!

      O ANÚNCIO DA MORTE DOS INTELECTUAIS COMPLETOS

      Não estou totalmente de acordo com a afirmação da Rosário Pedreira sobre completude.
      Como se só no passado houvesse homens que pensavam a sociedade através da literatura, onde se cruzavam potencialmente a literatura com a história, com a psicologia, eventualmente com a psicologia e quase sempre com a filosofia.
      (...)
      Mesmo que se arvore a diferença como o valor e o padrão da afirmação de novo valor, realidade que na literatura carece cada vez mais de prova.
      Estou com uma curiosidade quase mórbida de folhear o novo enxuto, mas imberbe Ken das letras. O puto será a "translineação", a reencarnação de Eça ou, será a sua costela de Eça apenas a peça que o mercado sempre apara e nunca enjeita?
      (...)

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    2. António Luiz Pacheco24 de outubro de 2014 às 06:53

      Concordo!!!!

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    3. Ah, ah, ah...quem será o novo enxuto e imberbe Ken das letras????!

      Não me diga que é o familiar do Eça...pareceu-me lindo. E acredito em génios precoces. Quem sabe sai ao antepassado...Manuel Alegre quase ajoelhou perante...

      o curioso - mas pode mesmo ser erro meu que vejo pouca TV - é que teve honra de telejornal. Ora bem.

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  5. Excelente iniciativa !
    José Pacheco Pereira vai ganhar a 1ª edição.

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    1. Tão?! Que é isso de andar aqui a destapar mistérios?...

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    2. Tem razão. Nada como não falar de nomes.

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  6. Falta-nos o Sr. Professor Agostinho da Silva... a sua inteligência, a sua sabedoria e a sua simplicidade. A mesma simplicidade que «amaciou» a arrogância de Miguel Esteves Cardoso numa entrevista televisiva nos anos 90.
    E que o Sr. Professor Adriano Moreira ainda dure muitos anos, Portugal precisa de Homens com «H grande».
    Fernanda

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  7. Apoiado. Os estímulos nunca são demais num mundo tão solitário e exigente como o da escrita. E Vasco Graça Moura merece.

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