A família de Eça
Leio num dos jornais de fim-de-semana que o filme Os Maias, de João Botelho – cineasta que é chegado à literatura e também já nos deu o Desassossego de Bernardo Soares, entre outras obras –, já foi visto por mais de 70 000 espectadores em Portugal. Parece, pois, que os portugueses perderam finalmente o medo do cinema português (melhor dizendo, o preconceito), ou então são os pais dos alunos que vão ter de ler a obra de Eça de Queirós durante este ano que os levam para que fiquem já com uma ideia da história e, se não chegarem a passar-lhe os olhos, possam mesmo assim debitar alguma coisa nos testes. A verdade é que também eu estava curiosa em relação a este Os Maias, e fui vê-lo, mas sem adolescentes. Gostei bastante dos cenários pintados e da interpretação dos actores, já menos da ligação dos episódios com voz off – que na maioria dos casos nem me pareceu necessária – e do final um pouco chocho, sem a graça que, na minha memória, tem no livro essa corrida para o americano. E apreciei obviamente o Eça, dito ali com todas as palavras que estão escritas por quem teve de as decorar ipsis verbis (opção do realizador que, digo eu, deve admirar o escritor) mas que antevejo de muito difícil compreensão para jovens de 15 anos que não leram a obra, sem hipótese de rebobinarem e voltarem a ouvir certos diálogos ou de irem ao caderninho de significados ver o que querem dizer determinadas palavras. Na sala onde vi o filme, a bem dizer, era tudo gente da minha idade. Mas talvez seja melhor assim. Sem terem visto o filme, alguns alunos sentir-se-ão obrigados a ler o romance, e isso é que é importante.
Gosto muito dos "Maias", gostei muito do Filme (com cenários pintados e a já criticada voz off) e julgo que foi uma adaptação absolutamente feliz.
ResponderEliminarOs actores fizeram um grande trabalho. O João da Ega, então... Fabuloso, era mesmo aquela a imagem que criei na cabeça quando li e reli os Maias.
E já nem me lembrava do Saldanha... mesmo no ponto. Conheço dois ou três Saldanhas na minha vida. É caso para dizer: eles existem mesmo!
EliminarHei-de ver o filme ... não tenho pressa!
ResponderEliminarMas ainda bem que foi um sucesso, e quem sabe se não haverá mesmo esse espaço para realizarem filmes com outros autores portugueses, sejam eles os clássicos ou não.
Acho que já há por aí quem pudesse atrever-se a fazer bons filmes, que o público visse!
Vi Linhas de Wellington e gostei... e mais um ou outro que passou na TV, nos canais TV Cine. Um até muito à Tarantino, com o Nicolau Breyner a fazer de mordomo num palacete onde andava tudo aos tiros para roubar um quadro... desse gostei!
Saudações cinéfilas da cidade morena!
Ainda não vi o filme, mas tenho de reconhecer que estou hesitante em fazê-lo. A minha relação com Os Maias é tão especial, que receio desapontar-me. Por outras palavras, posso dizer que as imagens com que o Eça me povoou a cabeça são exatamente aquelas que eu quero manter. Acho que é isso que nos dão os escritores excecionais. Não me levem a mal a comparação, mas passou-se o mesmo com o Tintim. Vi o filme do Spielberg sabendo que me ia arrepender; e arrependi. O Tintim a falar inglês? Um farsante... Além disso, ouvi na rádio umas passagens de Os Maias e, com franqueza, não gostei. Portugal tem um problema muito sério com a direção de atores. Não é preconceito, é uma opinião.
ResponderEliminarAlguém se lembra das palavras com que o Eça descreve o desapontamento do Cruges?
"O break parara, todos o olhavam suspensos; e, no vasto silêncio da charneca, sob a paz do luar, Cruges, sucumbido, exclamou:
- Esqueceram-me as queijadas!"
Ai de quem me estrague esta imagem.
O Tintim do Spielberg pode ser um interessante exercício cinematográfico, mas realmente não tem nada a ver com o Tintim de Hergé. Passa-se o mesmo com os filmes do Astérix, tanto nas versões animadas, como nas do Gérard Dépardieux, das quais, com a vossa licença, não havia mesmo "nexexidade".
EliminarQuanto ao Eça:
«- Esqueceram-me as queijadas!»
e
«- Ainda o apanhamos!»
Dois excelentes momentos, sim :)
Desculpem, mas não resisto a contar uma história acerca das últimas linhas de Os Maias (publicada no meu blogue há mais de três anos):
ResponderEliminarEu tinha 13 ou 14 anos, frequentava o 8º ou 9º ano. A professora de Educação Visual disse-nos que desenhássemos uma cena de um livro que tivéssemos lido e gostado. Eu já não sei se tinha lido Os Maias completo, ou só partes. Não era propriamente leitura para a minha idade, ainda deparava com as chamadas "partes chatas". De qualquer maneira, fiquei fascinada com a última página, aquela maneira de acabar um romance, dois homens a correr atrás de um americano, a gritar: "Ainda o apanhámos!"
De certeza que mais ninguém teria aquela ideia! Uma boa maneira de impressionar a stôra, ainda nem estávamos na altura da leitura obrigatória de Os Maias, salvo erro, no 11º ano. Pus-me a desenhar o Carlos da Maia e o João da Ega a correr atrás da carruagem. Num balão, a sair das suas bocas, o grito: "Ainda o apanhamos".
Deu-me bom trabalho, nunca tive grande jeito para o desenho. Mas fiquei satisfeita com o resultado e fui mostrá-lo orgulhosa à stôra.
A stôra não entendeu nada daquilo. Olhou-me como se eu não fosse boa da cabeça. Senti-me envergonhada, será que tinha feito um disparate? E perguntei-me: "Uma professora de liceu não conhecerá Os Maias?"
Ela perguntou-me o que significava aquilo e eu expliquei-lhe. Olhou-me ainda mais desconfiada do que da primeira vez. Fiquei com a sensação de que ela pensava que eu estava a inventar. Devolveu-me o desenho, desdenhosa (estaria despeitada, por eu saber mais do que ela?), lançando um seco: "Está bem."
Tenho pena de já não ter esse desenho. E de já não saber como se chamava a stôra, para desancar nela, agora, aqui. Forte e feio!
Ahahah! Se calhar não sabia o que era o amaricano!!!!!
EliminarPois, deve ter sido mesmo isso...
EliminarQue engraçado, em 2000, por alturas do centenário da morte de Eça também representei essa cena final. Com tanta coisa que abunda nos Maias, foi a que se me ofereceu. Ou seria a mais fácil de conseguir. Julgo que fui presa da contradição.
EliminarQuando vi a cena fiquei a imaginar o que pensarão os garotos que a representaram então. E creio que se chama nostalgia a esta consciência do passado:)
Grande filme ! Adorei a colagem do Botelho à palavra escrita do Eça, a originalidade de ter optado por cenários pintados, escolha que podia ter sido um flop e funcionou, gostei de um guião que nos dá uma história bem contada e com ritmo, mesmo para quem não tinha lido "Os Maias".
ResponderEliminarComo todos os que viram a interpretação de Pedro Inês, o Ega rouba o filme. E é justo que assim seja, porque o Ega do Botelho é o Eça, e o Eça é o autor. O ator escolhido pelo Botelho para Ega é franzino, de nariz aquilino e Botelho põe-lhe um monóculo para não nos deixar qualquer dúvida. O Ega do Botelho é um autorretrato distorcido do Eça, ou seja, é um Eça que se ri de si próprio e que nos confessa que ele próprio esteve muito próximo ser um intelectual boémio e inconsequente como o Ega. E isso acho genial (no Eça e no Botelho). Chama-nos a atenção da linha fina que nos portugueses separa um intelectual culto, engraçado, de olhar crítico e criativo que tem apenas fantasias de escrita daquele outro intelectual, igualmente engraçado, de olhar igualmente crítico e criativo mas que produz obras primas de literatura. Tão próximos um do outro e no entanto tão distantes nas heranças deixadas. Mistérios dos humanos e dos lusitanos em particular.
O que falha no filme? O par romântico. Botelho não deu espessura psicológica ao Carlos Eduardo e à Maria Eduarda. O Carlos Eduardo não é apenas aquela figura simpática e neutra. É um pedante que se vangloria das suas conquistas de macho, que se ri dos pobres, que diz baboseiras abissais, um menino rico ocioso, um narciso estúpido. A Maria Eduarda merecia ser representada por uma atriz brasileira cuja sensualidade nos fizesse compreender a atração irresistível dos homens por ela.
A moral final do Eça foi cortada: a Maria Eduarda reconstrói a sua vida pessoal e familiar (em contraste com a vida vazia do Carlos Eduardo).
Para terminar como comecei, com enormes elogios ao filme, está conseguidíssima a cena em que Carlos Eduardo conscientemente não resiste aos prazeres do sexo incestuoso. M
as não há filme que ultrapasse o prazer de reler os Maias.
Que conseguida recensão, Artur Águas. Fiquei cheia de vontade de ver o filme e é, certamente, o que vou fazer. O Botelho deve-lhe um bilhete :). Obrigada.
EliminarCara Extraordinária Ana,
EliminarObrigado pelas suas palavras. Espere que goste tanto do filme quanto eu !
Também adorei esta sua análise!
EliminarGostei bastante de Maria Eduarda. Acho a actriz sensual que baste. Gostos e opiniões. Tem razão, em Carlos da Maia faltam as idiossincrasias que Eça deu e me parecem mais realistas. Creio que o cineasta optou pelo par romântico no seu mais tradicional
EliminarÉ de ver em sala, sem reservas: ainda o apanham! Confesso que me assustei nos primeiros diálogos, mas logo me adaptei. Ega fenomenal, e o Alencar!... Carlos Eduardo é o cabotino simpático que imaginei, mas à Maria Eduarda imaginava-a, tal como Águas referiu, algo diferente. Já agora, o outro filme que por aí anda, o dos Gatos, também merece bem a pena.
ResponderEliminarAinda ontem ouvi o brilhante Fernando Alves, da TSF, no seu comentário diário à imprensa, dizer que o filme tem provocado uma corrida ao livro. Não decorei em que jornal vinha essa notícia. Parece-me muito positivo. Eu tive uma relação interessante com "Os Maias". No ano em que fazia parte do programa não o li de fio a pavio porque não tive tempo. Li na diagonal para poder fazer o trabalho que me foi destinado, Análise do espaço físico, psicológico e social da obra. Uns anos depois, numas férias da faculdade, achei por bem pegar no livro e lê-lo como deve de ser. Obviamente, fiquei apaixonada pelo livro e profundamente arrependida de não o ter lido correctamente no 11° ano. Não sei se me apetece ver o filme mas, de tanto se falar n' "Os Maias" até estou com vontade de procurar o meu exemplar, com mais de 20 anos, e relê-lo.
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