Revistas
Agora, que os jornais têm cada vez menos espaço para a cultura e, certamente por isso, divulgam todos aproximadamente os mesmos livros e autores, torna-se mais importante ler revistas literárias, incluindo, claro, as antigas, através de cuja consulta podemos tomar contacto com nomes pouco falados habitualmente, com excertos de obras que desconhecemos, com escolhas de poemas, com artigos e entrevistas sempre interessantes. Sem querer fazer publicidade – porque, na verdade, também se trata de uma forma de negócio, e sobretudo para coleccionadores e gente com muito dinheiro no bolso –, não posso deixar de aconselhar a quem se interessa por estas relíquias um blogue que dá justamente pelo nome de Revistas à portuguesa e disponibiliza colecções inteirinhas de revistas literárias raras e difíceis de encontrar e que fizeram, em alguns casos, história – no fundo, uma espécie de alfarrabista de publicações periódicas de qualidade. Bem sei que cada uma destas colecções é bem capaz de custar um salário mensal, mas o que importa não será tanto comprar os lotes ali anunciados como passar os olhos pelos índices e ver a diversidade de títulos e conteúdos. Depois de estimulada a curiosidade, podemos então procurar a obra de algum autor que nos passou despercebido e ir acompanhando também as revistas literárias novas, a preços substancialmente mais adequados às nossas possibilidades. O endereço do blogue é:
Fui lá espreitar e vi que os Cadernos de Serrúbia 1, 2 e 3 custam 120€; eu também tenho o 4/5 e não sabia que valiam tanto.
ResponderEliminarMas o meu tesouro é mesmo a antologia "Poesia", edição da Fundação em 2000, autografado pelo Eugénio numa tarde maravilhosa que lá passei e em que ele estava muito bem disposto, o que nem sempre acontecia...
Falámos muito de gatos e foi graças a eles que o Eugénio permitiu que me vendessem a antologia, pois já só havia poucos números e apenas para ofertas especiais.
Aproveito para desejar à Maria do Rosário e a todos os Extraordinários um Feliz Natal, cheiinho de amor e livros.
Embora tenha comentado pouco ultimamente, todos os dias úteis venho picar o ponto e não perco pitada do que aqui se passa.
:-)
Antonieta
Tenho seis números da Sílex e muitos do Sol XXI. E exemplares da Letras & Letras, que não está no catálogo.
ResponderEliminarABC
Visitei este endereçoe constatei... Poderia alguém escrever involuntariamente?
ResponderEliminar"Extra Persona" assim identifica colaboradores; (portugueses abram olhos).
A memória está a preservar-se mas, atitude é virtude.
Para todos os que gostam de Cesário, e para os outros também, deixo aqui as primeiras três estrofes do mais recente poema do meu colega Alexandre Graça:
ResponderEliminarGONÇALIDADES
Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar as vozes mais banais.
Incrível! Já rasguei ao todo três jornais
Enfurecidamente.
Dói-me a cabeça. Arranco dela alguns cabelos:
Que bem se diz do mau professor de ginástica!
Aclamam-lhe os enredos e a dicção fantástica.
Quanto a enganos, nem vê-los!
Sentei-me à secretária… Ali defronte engoma
A camisa ao marido, não deixando um vinco,
Uma esposa esmerada já com netos cinco.
Tem hoje um hematoma…
(...)
O poema completo pode ser lido em:
http://www.sed5contra.blogspot.pt/2014/12/ad-hominem-2-goncalidades.html#more
Ora bem: fui ler as dezassete estrofes.
EliminarPois bem: tantas estrofes quantas as de Cesário, rimas certinhas, tudo à maneira.
Mas: tão elaboradas dezassete contrariedades porque, não obstante ser traduzido até para chinês, “o Gonçalo não gosta de advérbios de modo”…?
Hum!... Deixa cá ver... Já lá dizia o contrariado Cesário que:
“Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie ;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.”
Isto depois de ter confessado que:
“Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.”
Alto! Cá temos um advérbio de modo.
E este aqui também tem: já rasgou “ao todo três jornais, enfurecidamente.”
Bem… quer dizer: nem um nem outro repudiam os advérbios de modo.
Hum! Hum! ... É caso para pensar, digo eu, que este Gonçalo tem muito que se lhe diga…
Caro Joaquim, tem a certeza de ter lido as dezassete estrofes? É que não parece ter percebido quem é este Gonçalo. Nem o Cesário nem, pelos vistos, o Alexandre, repudiam os advérbios de modo. Por isso, não consigo perceber bem o teor do seu comentário...
EliminarÓ Francisco! Desculpe-me alguma coisa que, imprudentemente, não tenha deixado devidamente clara.
EliminarA ter realmente acontecido, tal fica a dever-se ao adiantado da hora – e, compreensivelmente, a outros adiantados…
O caso é que, efectivamente, li todas as estrofes: não simplesmente as exemplarmente adaptadas dezassete de Alexandre, mas, complementarmente, também as classicamente consagradas dezassete das “Contrariedades” de Cesário Verde.
Matematicamente são, ao todo, nada menos que trinta e quatro.
Ora, compreensivelmente, isto não é para qualquer um.
Ainda assim, garantidamente, li todas atentamente.
E, não obstante os adiantados – ou até talvez, casualmente, graças a eles – ainda li também algures isto: «Gonçalo Aime Tavares – l’ élégant et exclusive restaurant de Lisbonne».
Forçosamente, pois, deduzi que aquele Gonçalo que Alexandre, subtilmente, nos refere como “o que não gosta de advérbios de modo” é muito capaz de ser – quem sabe, indesmentivelmente? -- estoutro Gonçalo que, naturalmente, “Aime Tavares”.
Estarei, casualmente, enganado?
Terei sido, desgraçadamente, induzido em erro?
É que, depois de tardiamente – e cam-ba-le-an-te-men-te… -- me ter ido deitar, fiquei ali de tal modo sonolentamente com isto dos advérbios de modo a circular agitadamente na minha cabeça que...
…Olhe: não dormi adequadamente, nem sei como explicar convenientemente.
Certo é que hoje acordei tarde, já proximamente da hora do almoço, e, como habitualmente, não pude reiniciar a regularidade da vida sem previamente ir, como regularmente, levar o meu cão maior -- de seu nome, com as mesmas letras, Mário -- a dar um passeio ao ar livre, suavemente.
E foi aí que, inesperadamente, se me fez luz na minha pobre e atormentada mente.
… …
Sustive o Mário, olhei-o nos olhos e, acentuando as palavras com um insistente movimento do dedo indicador, comentei-lhe o seguinte:
«Isto, hoje em dia, pá, sem advérbios de modo um gajo não se safa!»
… …
Tristemente, verifico agora que o cão não entendeu patavina.
Pudera! Aqueles dois últimos parágrafos não têm nenhum advérbio de modo!
Ainda se, ao menos, eu lhe tivesse dito: «”Gonçalo Aime tellement Tavares” que isto, hoje em dia, pá, sem advérbios de modo um gajo não se safa!»…
Mas, infelizmente, dado o adiantado…
… …
Consegue agora, caro Francisco, perceber detalhadamente o teor do meu comentário?
Ou acha que eu estava, excepcionalmente, a falar a sério?
É que eu não sou lá muito dado a falar irrefutavelmente, isto é: a sério.
A sério que não sou.
Diz-me a experiência que, falando meio a brincar, um gajo fica sempre com margem para, confortavelmente, corrigir as ideias graças aos contributos dos outros que também não se apresentam ostensivamente como detentores da verdade absoluta.
O caraças é que, a brincar, a brincar, apenas para lhe escrever isto já fumei mais de vinte cigarros, consecutivamente.
Agora, se me dá licença, enquanto aguardo a sua resposta vou acender a lareira, que o Mário já me está insistentemente a chamar a atenção para essa necessidade. E, se ele me deixar, aproveito para dormir confortavelmente uma soneca até à hora de jantar.
Fraternalmente – não apenasmente, mas também porque é este o espírito convencionado da época – envio-lhe um abraço.
Não está enganado, não. Tinha ficado com a impressão de que achava que quem não gostava de advérbios de modo e quem os usava no poema era a mesma pessoa. Afinal, eu é que estava enganado.
EliminarOk, Francisco.
EliminarSendo assim, posso ir dormir descansadamente, sem me preocupar mais com os advérbios de modo.
É que – digo-lhe quanto é franco (para evitar o “francamente”) – hoje em dia não se pode dizer nada terminado em “ente”, que um gajo é logo suspeito de abusar dos advérbios de modo…
Ora, francamente!!
(Isto é uma mera exclamação, não é bem um advérbio, atenção, faz a sua diferença, a língua portuguesa tem as suas subtilezas que, por vezes…)
Que aconteceu ao comentário de Francisco Lacerda ao meu comentário? Ainda há bocado aqui estava, claramente...
ResponderEliminarDesapareceu inopinadamente, porquê?
Estive a tarde inteira, aplicadamente, a escrever-lhe uma resposta.
Deu-me gosto escrever. Ele ia, provavelmente, gostar.
Tenho aqui tudo pronto... e agora, inesperadamente, não tenho a que responder?!
Imploro encarecidamente: que faço?
Ah!! Ok!
EliminarIsto, já lá dizia o outro: não há nada como realmente.
O Francisco reapareceu.
A resposta vai aí acima.