Balanço egoísta

Quando olho para trás, tenho a tentação de dizer que este foi o ano das selfies. A palavra entrou no nosso vocabulário à velocidade da luz e, suponho, já não sairá. Todos os famosos fizeram selfies, mesmo na cerimónia dos Óscares, e a moda pegou de tal maneira que dei comigo a perguntar se não é mais um sintoma da falta de atenção que damos ao outro e da egolatria da actualidade. Até porque descubro uma notícia de arrepiar os cabelos sobre uma holandesa que inventou um brinquedo para bebés de berço que, quando estes lhe tocam, lhes permite tirar selfies ou filmar pequenos vídeos que são automaticamente reproduzidos nas redes sociais. O New Born Fame – assim se chama a coisa – foi desenvolvido por uma holandesa, está disfarçado de peluche, mas é na verdade um brinquedo tecnológico com a forma do logo do Facebook e do passarinho do Twitter (ai, meus Deus!). Parece que 62 por cento das mães de crianças menores de três anos têm conta no Facebook e que, dessas, mais de 90 por cento publicam as fotografias dos seus rebentos; mesmo assim, parece-me uma tolice de todo o tamanho esta forma de captar imagens e ainda mais tolo meter a fama no nome do brinquedo. Enfim, não quero ser bota-de-elástico, mas às vezes penso que o mundo está mesmo perdido.

Comentários

  1. também penso quase isso.

    ainda hoje de manhã, ao ouvir uma notícia sobre os adolescentes que vivem "fechados" no quarto, em "namoro" permanente com o computador, acabei por escrever sobre isso, mas também sobre os adultos que observo em quase todo o lado, com o olhar preso aos telemóveis, distantes dos lugares onde estão...

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  2. Que engraçado! Pensava precisamente nisso hoje de manhã: quem vive em sociedade tem de aprender a respeitar e considerar os outros. E a ter sempre presente que estamos condicionados pelo seu espaço de liberdade. Quem não consegue compenetrar-se disto, dificilmente passará de triste eremita. Boa quarta-feira!

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  3. Não sei olhar o mundo com olhos adolescentes, mas o tlm tornou-se-me imprescindível e, num rompante, deitou abaixo os relógios que nunca gostei de usar, tal como o mail substituiu quase integralmente as cartas que me esquecia de colocar no marco. Maldade que não faria a mim mesma era tirar uma selfie. Não morro de amores por me captar a mim em momentos diversos; prefiro, se acaso me marcam, escrevê-los, torná-los em letra. Deixar que perpassem sentimentos, emoções, coisas que me apoquentam veramente, zonas de luz e sombra, e, se possível, capturar um bocadinho do infinito que nos governa. E isto assim, as selfies não dão.

    Conheci uma garota de uns quinze anos, aluna insignificante, calada e tímida, sem amigos e com um verdadeiro problema nas aulas de educação física, mais propriamente no balneário onde recusava tomar banho com as colegas. Não se pintava, usava óculos e ninguém lhe conheceu mais que um penteado. Pois um dia alguém descobriu - ou terá sido a própria a divulgar - a sua página no Face. E parece que estava irreconhecível, maquilhada, penteada e em poses insinuantes. Tudo aturado trabalho das selfies. Claro que estava cheia de amigos.

    Penso muito nessa garota.

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  4. Há selfies para tudo (pós sex ; before sex , etc. etc. etc.)...é o mundo que temos, é a gente que temos, quer queiramos quer não, ele está sempre em mudança.

    Obviamente que não é este o meu mundo nem "vivo" nele, mas tenho de conviver com ele, não gosto dele, nem o adapto a mim, mas também sei que o não posso parar, nem ao mundo nem à mudança nem aos ventos que sopram...só é pena que a mudança vá neste sentido (que interessa sobremaneira e é fomentado por alguns). E eu que tanto sonhei mudar o mundo...

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  5. Lanço um apelo a todos os pais, que sejam conscienciosos e que ensinem as coisas certas aos filhos! E, acima de tudo, que sejam exemplo! (Não vale de nada pregar valores e atropelá-los a todo o momento).

    O mundo está perdido? O mundo sempre esteve perdido. E sempre houve pessoas solitárias, egoístas e com hábitos estranhos. Há mais hoje do que antigamente? Talvez não, apenas nos damos conta de mais, as comunicações estão mais fáceis. Mas talvez sim, quem sabe...

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  6. Claudia da Silva Tomazi19 de novembro de 2014 às 04:35

    Claro que há quem merece um balanço (egoísta); convenhamos vale à pena?

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  7. Por vezes tenho alguma dificuldade, não em acompanhar a evolução do mundo e das suas tecnologias, mas o comportamento das sociedades face a essa mesma evolução. Tenho um amigo, cuja esposa e filhos reclamam diariamente a atenção em casa, mas quem o vir ou ler no facebook pensará que aquela família é um jardim com rosas esplêndidas. Tem a amabilidade de estar em casa, de frente para o filho, e ao invés de lhe dizer, olhos nos olhos, que o ama; não: publica no mural as palavras mais enternecedoras. Deixei de colocar gosto, deixei de ler, deixei de aceitar... Não posso compreender um disparate tão grande. A atenção são as pessoas, de carne e osso, que nos dão, os virtuais estão do outro lado a cumprir papéis.
    Pois, por me aborrecer, e muito, esta hipocrisia, este cinismo, este flagrante e crescente desapego, em minha casa, durante as refeições não há TV, nem telemóveis nem porcarias que nos distraiam do essencial: a família que se senta à mesa tem de conversar, rir ou até chorar, mas tem de o fazer ali, frente a frente para que não se quebrem as linhas que cosem as emoções. Também me incomoda, e por isso faço logo valer o meu desagrado, estar em grupo e os telemóveis fazerem parte disso.
    Não sei o que nos tornou tão inseguros, tão carentes, tão egocêntricos, tão simulados e por aí afora, mas de uma coisa estou certa: isto não vai acabar bem! Isso não vai. O mundo não poderá sobreviver ao abrigo de relações tão frias, sem gente dentro.

    Uma necessidade cósmica de puxar para o umbigo o centro do mundo. E depois a terra abana, o mundo definha e as pessoas já não serão pessoas, mas sim, prisioneiros da seu próprio individualismo.

    Um abraço virtual caros extraordinários.
    Carla Pais

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  8. Durante o fim-de-semana, no parque, dois bancos de jardim estavam preenchidos com jovens, cada um com seu telemóvel que todos olhavam e operavam concentradamente. No banco seguinte um casal de idosos dispusera um carrinho de bebé com o rosto do menino virado para si. A sua atenção dividia-se entre o bebé e as pessoas que se ocupavam das hortas. Fiquei na expetativa de os ver fazer selfies com o rosto do bebé. Nada.

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  9. O mundo sempre esteve perdido; a dúvida era se chegaria ao fim com dignidade ou cobrido de ridículo. Os anos mais recentes deixaram bem claro como é que ele vai acabar.

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  10. O narcisismo patológico é a perturbação mais comum do nosso aparelho mental. Quando esse narcisismo descontrolado passa à ação, "o mundo está mesmo perdido".

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  11. alguém dizia que a privacidade não ia ser um privilégio do séc XXI.

    tese-antítese-síntese

    um dia haverá o Despertar
    neste caos umbilical em que vivemos
    vai doer
    quando esse Despertar abanar furiosamente os frutos de uma geração confusa e sem ideais

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  12. Pois é... por isso mesmo, lá na Quinta de Santo António do Graínho, em pleno Bairro Ribatejano, casa-mãe da família Abreu Pacheco e seus satélites, Pacheco Branco Correia, Pacheco Coimbra, Amaral de Freitas e também Velhinho e Diáz, impera a ditadura mais negra e retrógada que se possa imaginar!

    1- Animais são permitidos, até na casa de jantar desde que se comportem!
    2- Crianças, animais e inúteis em geral (inclui o meu cunhado Adolfo) estão proibidos na cozinha à hora da função, e até existe uma pérola da sabedoria menos cinzenta do salazarismo, gravada num quadro sobre a porta: "Nada mais prejudicial a quem trabalha do que aqueles que nada fazem!"
    3- Interdição absoluta da utilização de termos ou expressões modernas e pós-modernas, de mitra ou afro, na conversação, como seja "tipo", "bué", etc.
    Por exemplo e para exemplificar a elevação do português corrente nestas ocasiões, as ordens dadas ao meu filho desde a mais tenra idade, em datas festivas e de comezaina espalhada pela casa, era:
    "Pedro! Procede à localização, captura e encerramento do felino doméstico!", que é como quem diz - vai fechar a gata na garrafeira!
    O facto é que toda a jovem crocodilagem se expressa e fala que é um mimo!!!!
    4 - Banida a TV durante as refeições!
    5 - Proibição de posse e utilização de meios de comunicação portáteis, à mesa!
    6 - Restrições ao uso da net, que inclui haver horas para tal, e desligo mesmo o ruter! Se algum infractor é apanhado a usar uma pen-drive com net portátil é severamente punido com multa em sobremesas ou outras coisas boas... como queijo!
    (Normalmente a prevaricadora principal é a minha irmã Gui ou a sobrinha Margarida, tal mãe tal filha! E a desculpa de ter o marido em Miami ou o namorado em Macedo de Cavaleiros, não constitui atenuante!)

    Com estas medidas draconianas e medievas, conseguimos um elevado nível de conversação e disparate quando reunidos em família!

    Saudações comunicativas da Cidade Morena!

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