Reconhecimento tardio
Peguei há dias num romance que foi publicado originalmente nos anos 1960, mas passou despercebido – ou não teve, pelo menos, o reconhecimento que merecia. Parece, no entanto, que há relativamente pouco tempo foi redescoberto e elogiado pela romancista francesa Anna Gavalda e que, desde então, tem sido traduzido em todo o lado e recebido os maiores encómios. Aliás, a sua capa está cheia deles, vindos de respeitabilíssimas personalidades do mundo das letras de várias gerações, desde Ruth Rendell a Breat Easton Ellis, passando por Julian Barnes ou Ian McEwan. Não é, de resto, estranho que McEwan afirme que não percebe como passou Stoner, de John Williams, praticamente incógnito tantos anos – embora se trate de um romance americano (e não sei dizer exactamente porquê, mas vê-se que é americano assim que se começa a ler), ele tem claros laços de afinidade com, por exemplo, A Praia de Chesil, do próprio McEwan. Mas, à parte a convergência, Stoner atravessa a vida de William Stoner, um rapaz do campo, criado por uma família trabalhadora e pouco afectuosa, que se torna, quase por artes mágicas, professor universitário de Literatura pouco depois da Primeira Guerra Mundial e se casa nos anos 1920 com uma estranha rapariga que, apesar de fria e capaz das mais inesperadas atitudes em relação ao marido e à filha, tem alguma coisa da histeria dramática que sobressai em O Monte dos Vendavais, o que é bom. Mas Stoner é um homem enfeitiçado pelo texto literário que, até certo ponto, constituirá sempre a sua salvação. Nem que fosse só por gostarmos também nós de literatura, já valeria a pena deitar a mão a este excelente romance. Mas ele é muito mais do que isso.
Livro a ler, claro.
ResponderEliminarMas a capa, ai a capa ! É necessário um marketing tão intenso que nos agrida os olhos? Comprem ! Comprem ! Comprem !
Pelo que presumo do belo texto da MRP, o mercado de leitores para este livro não será feito por quem compra best-sellers de aeroporto.
Confesso que sinto um sentimento de instintiva repulsa ao olhar para uma capa deste género. Um pouco de subtileza e elegância no seu design gráfico seria mais eficaz para atrair este tipo de leitores. Como sempre, posso estar errado. Certo, certo é que estou velho e a estética desta capa confirma-o...
Completamente de acordo. É como se nos pusessem uma faca ao peito e nos dissessem: ou compras isto ou és estúpido!
EliminarCurioso - Acho esta capa absolutamente espectacular e duma grande imaginação!
EliminarTambém gosto bastante da capa, sem as promoções obviamente. Quanto ao miolo, já o tinha referido por aqui há uns tempos, é mesmo de saborear e chorar por mais. Que são, julgo eu, somente mais 3 livros.
EliminarJá em 2013 The Guardian afirmava ser um livro obrigatório.
ResponderEliminarConsidero " Butcher's crossing" igualmente bom.
Concordo, a capa não é nada elegante, mas felizmente a Dom Quixote e Leya não primam pelas capas.
Bom fim de semana
O "The Guardian" institucionalizado Patrícia?
Eliminar*infelizmente, como é óbvio
ResponderEliminar"Best-sellers-de-aeroporto"! Ahahah! Boa definição esta... tal como há a "literatura-de-praia", e por aí fora... eheheh! A diversidade, e o humor no seu melhor!
ResponderEliminarCreio que vivemos na era da comunicação, na era da publicidade e do merchandising! Os livros teriam fatalmente de o referir... vi anteontem (obrigado pela minha mulher, mas ainda bem!) "A rapariga que roubava livros - grande filme vos digo, Extraordinários, eu que sou pouco cinéfilo! Bom, há uma cena em que a miúda entra numa biblioteca de um figurão qualquer (a coisa passa-se na II Guerra)... tudo encadernado a cabedal!
São a minha perdição as encadernações antigas, a couro e cartão lavrado, com letras em relevo, douradas ou de outras cores...
Tirando estas, confesso que sou pouco sensível às capas, e até desconfio de algumas de tão artísticas... mas creio que são ainda o ganha-pão de uma qualidade de profissionais? Certo?
Pena é, que encareçam tanto os livros... penso eu.
Saudações e votos de um Extraordinário fim-de-semana de leituras!
Como estou com uma valente carraspana, creio que vai ser o que farei, pois não tenho condições para ir às perdizes ao Torrão, onde saudaria o fantasma de Miguel Torga que às vezes entrevejo pelo meio das azinheiras ou nalguma encosta pelo meio das estevas... depois das visitas à FNAC e Bertrand tenho munição bastante, e lenha!
"A RAPARIGA QUE ROUBAVA LIVROS" - grande filme/GRANDE LIVRO!
EliminarNão li o livro, o filme era um pastelão... Desculpem-me a discórdia de gosto.
EliminarOra essa! Extraordinário Artur... também não li o livro, mas confesso que gostei bastante do filme, se bem que concorde com o epíteto de "empastelado"... mas gostei bastante dos personagens e do enredo, o lado humano, onde convive o pior e o melhor.
EliminarJá agora... algum Extraordinário leu o livro? Que acharam?
Saudações curiosas e naso-congestionadas, do Bairro Ribatejano.
Como já referi gostei do filme.
EliminarLi o livro e gostei imenso, consta da minha lista dos melhores 100 livros que li.
As capas que até hoje mais gostei foram as da poesia de Sophia Mello Beyner: todas iguais. Brancas por inteiro, só a metade superior com letras de bom gosto e um pequeno relevo sempre o mesmo que há-de ter um significado. Parecem-me lindas. Mas hoje já são outras.
EliminarSempre que penso neste escritor, começa a soar-me aos ouvidos a música da Guerra das Estrelas.
ResponderEliminarDe forma distante, e um pouco indiferente, tenho andado a acompanhar a ascensão de John Williams nos últimos anos na blogosfera americana. Scott Esposito , do Conversational reading , é um fervoroso paladino do livro. Só gostaria de fazer alguns reparos: o livro foi reeditado em 2006 pelo NYRB ; Anna Gavalda leu essa edição e traduziu o romance para francês. Só menciono isto porque os editores americanos também merecem crédito pelo renascimento do autor.
Quanto ao esquecimento do autor, ignorante como eu sou do livro e baseando-me apenas no que li sobre ele, em particular o tão mencionado estilo simples e o realismo, parece-me que ele teve o azar de publicar um romance "à antiga" numa era - 1965 - que estava a testemunhar um radicalismo e inovação formal nas letras americanas que seriam ditada, durante as próximas décadas pela meta-ficção e pós-modernismo de John Barth, Robert Coover, John Hawkes, Ishmael Reed, William Gaddis, William Gass, Thomas Pynchon, Don DeLillo, David Foster Wallace e Joseph McElroy.
Nota-se, porém, um pouco por todo o mundo, que se está a regressar a uma estética mais despojada, realista, um pouco currente calamo, em que se inclui a italiana Elena Ferrante ou o norueguês Karl Ove Knausgaard, para não falar de João Tordo; e pode-se até dizer que os dois últimos recipientes do Nobel - Alice Munro e Patrick Modiano - são como que o avalizar dessa estética que provavelmente se tornará dominante nas próximas décadas. Nesse sentido, a renascença de Williams faz todo o sentido.
Fã do pós-modernismo como eu sou, e algo avesso à literatura realista, isto entristece-me um pouco, mas será interessante acompanhar o desenvolvimento disto tudo.
A sua análise e em particular um comentário, despertaram uma vez mais o meu interesse, Extraordinário Miguel!
EliminarTenho aqui ainda uma chance de ser esclarecido , se quiser dar-se a esse incómodo e não me levar a mal, mas creio que não!
O pós-modernismo pode ser então considerado como sendo não-realista? Mas pode ser considerado surrealista? É isso?
Sou capaz de estar a dizer tolices, mas é assim que aprendo.
Saudações expectantes (e expecturantes, bolas estou cá com uma catarreira!) do Bairro Ribatejano.
Gosto muito das suas intervenções, caríssimo Miguel.
EliminarPLFF
António, eu sou apenas um leigo que tenta organizar as peças de um vasto puzzle.
EliminarO pós-modernismo não rejeita o realismo e há muitos livros considerados pós-modernistas que não violam os limites do possível: Ulisses, The Recognitions , The Sot-Weed Factor, Draconville's Cat . O pós-modernismo é tanta coisa. Mas convém ver tudo isto num sentido cronológico. O surrealismo surge em 1924 dos escombros de Dada, que surgira em 1916 como reacção aos horrores da I Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, em 1922, surgia Ulisses. Em 1924 Franz Kafka também morre e em breve os seus romances são publicados, influenciando milhares poucas décadas depois, em especial os sul-americanos (Gabriel García Márquez lê A Metamorfose em tradução de Borges), que irão influenciar os europeus e norte-americanos nos anos 60. Ao mesmo tempo, a Europa, através de escritores como Italo Calvino, vai desenvolvendo o seu próprio realismo mágico. O pós-modernismo é tudo isto, o fruto desta confluência de movimentos, ideias e factores que surgiram uns a seguir aos outros nas primeiras décadas do século XX.
Acho que o pós-modernismo é sobretudo uma forma de encarar a realidade: a ironia; o niilismo; a impossibilidade do trágico; um sentido de absurdo; a desconfiança dos factos, da ciência e da própria linguagem; a descrença em valores absolutos; e a visão da história como uma narrativa que pode ser recriada (entre nós temos o caso de Saramago, que escreve sob a história não oficial, dando voz aos anónimos). Com estes ingredientes, tanto se faz ficção realista como não realista.
Não sei se isto faz tanto sentido quanto eu desejava.
Faz sim senhor, e fico-lhe grato pelo tempo que me dedica!
EliminarEsclareceu e instruiu, sobretudo por organizando cronológicamente a sua resposta me fazer algumas ligações que me faltavam!
Sabe que a minha área é outra... eheheh! Mas interesso-me profundamente pela literatura, não só na vertente da leitura (isso esteve sempre comigo) mas no aspecto de saber sobre ela, pois me fascina, e mais desde alguns anos a esta parte em que talvez por atingida alguma maturidade me despertei para essa vertente do saber.
Quem sabe ainda vou ingressar nalguma Universidade Sénior para estudar literatura?
De qualquer modo agradeço e louvo uma vez mais a paciência e o bom-acolhimento que tenho tido neste blog, onde continuo diáriamente a aprender, e que deveria ser considerado serviço público como meio de promover e divulgar a literatura!
Bem haja a Nossa Extraordinária Anfitriã e os Extraordinários que partilham das suas opiniões, sensibilidades e saber!
Saudações encatarradas do Bairro Ribatejano e bom fim-de-semana!
Já cá canta. :)
ResponderEliminarDesconhecia este autor mas não resisti às citações de tão respeitáveis escritores.
A capa, não sendo muito bonita (já vi bem pior...) , é eficaz, portanto. eheheheh
Quando leio sobre casos como este, fico sempre com uma grande pena que o reconhecimento e o entusiasmo não tenham acontecido enquanto o autor viveu.
ResponderEliminarNa Wikipedia, encontrei algo muito interessante (e parece ser verdade, pois cita uma fonte, com link): «In a 1985 interview he was asked, "And literature is written to be entertaining?" to which he replied emphatically, "Absolutely. My God, to read without joy is stupid."
É maravilhoso, sem dúvida :)
ResponderEliminarNão li mas cá em casa andam a ler.
ResponderEliminarGrato pelo seu empenho.
Saudações
Terminei-o ontem. Como é possível uma vida à partida tal sem história ser contada com tanta mestria e transformada numa grande vida?
ResponderEliminarQuanto à capa: acho-a fantástica, e retirar-lhe-ia apenas as citações. Aliás, retrata na perfeição a vida de Stoner, um monte de livros até ao final.