Casos raros

A nossa literatura foi, ao longo de décadas, contida e envergonhada em matéria de sexo e corpo. Até recentemente, os nossos escritores eram incapazes de reproduzir por escrito uma cena de sexo com naturalidade, tornando às vezes ridículo e nada visual o que descreviam nos seus livros, ou simplesmente contando que aquilo se tinha passado, e pronto, estava dito que os protagonistas tinham tido relações sexuais. Já houve, aliás, quem fizesse um levantamento de «pérolas» literárias contemplando o relacionamento íntimo de personagens, trazendo à luz algumas metáforas bastante risíveis ou até de mau gosto. Lembro-me da lufada de ar fresco que foi para mim ler há muitos anos Estação das Chuvas, de José Eduardo Agualusa, que, talvez pela sua parte africana e quente, descrevia como ninguém uma cena de amor físico. Mas parece que, com a geração mais nova (que vive, e ainda bem, uma sexualidade mais descomprometida e sem tabus), a literatura ganhou nesse sentido, e agora fala-se muito do romance O Meu Amante de Domingo, da jornalista e escritora Alexandra Lucas Coelho, vencedora com a sua obra anterior do Grande Prémio de Romance e Novela da APE. A protagonista, revisora de texto, resolve vingar-se de um homem que podia ter amado escrevendo um romance sobre um suposto amante, mecânico de profissão, com violência e até, ao que leio numa entrevista, palavrões... É caso raro e fico curiosa, não por causa do sexo, claro, mas por causa do que é novo na literatura portuguesa.

Comentários

  1. acho que o sexo é das coisas mais difíceis de descrever.

    temos de fugir a várias coisas: ao vulgar, ao fantasioso e até ao ordinário.

    também estou curioso em relação ao novo livro da Alexandra (já o pedi ao "pai natal").

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  2. Claudia da Silva Tomazi11 de dezembro de 2014 às 02:02

    Raro?

    Afonso Henriques - Cristina Torrão, editora Ésquilo 2008

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    1. Cláudia, agradeço a menção ao meu livro, mas não vão os leitores e comentadores deste blogue pensar que está cheio de cenas de sexo quentes ;)
      Na verdade, acho-as bastante inofensivas. Tive muitas dificuldades. Como descrever a vida amorosa/sexual de D. Afonso Henriques? Decidi-me por essa opção "inofensiva", longe de trazer algo de novo à literatura portuguesa.

      Mas, se gostou, fico muito satisfeita, obrigada :)

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    2. Claudia da Silva Tomazi11 de dezembro de 2014 às 03:59

      Raro significa apreço, Cristina.

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  3. Logo à partidas distinguimos entre escritoras e escritores. Acho que pegando numa cena de sexo onde chegamos aos limites em termos de linguagem, tenho a impressão que reagimos de maneira diferente se fôr homem ou mulher quem a escreve. A minha mulher desistiu de ler o "Mulheres" do Charles Bukowski, não sei se pela descrição das cenas ou pela foto do escritor que as escreveu.

    Li "A noite roda" da Alexandra Lucas Coelho e as cenas estavam muito bem descritas e nota-se o à vontade com que escreve de uma maneira mais físca. Neste último romance deve ter ido ainda mais longe.

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  4. Sinceramente, não me parece que seja algo que (me) faça falta na nossa literatura, muito menos palavrões ordinários. Para isso temos (ao vivo) todos as noites, a Casa das Putas administrada pela rainha Mr.ED -.

    Nota: para quem não sabe o MrED foi uma série da TV nos anos sessenta Mr.ED O CAVALO QUE FALA.

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    1. "a Casa das Putas administrada pela rainha Mr.ED". Desculpe, mas isso é lindo. LOLLL

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  5. Vou ser muito atrasada e retrógrada: não morro de amores por cenas com palavrões, ainda que lhes reconheça, de acordo com as personagens criadas, um lugar. Existem na vida, portanto...a ficção, pelo menos a que reproduz tipos de pessoas ou determinadas situações, há-de usá-los.

    Quanto a cenas de sexo, e sem falso pudor, tb dependem do contexto. Há textos que as não exigem, apenas as sugerem e fica bem, é bom que assim seja - embora existam os eufemismos menos gratos e acredito que até grosseiros. Quanto à descrição explícita, vale o que vale.Quem não experimentou, não aprende. Quem experimentou acha sempre que não é bem assim. E tem razão, nunca nada do que é sentido é passível de descrição integral - até por ser memória e as palavras terem uma fidelidade dúbia.

    O realismo das obras actuais, de autores mais jovens, aborda o sexo, sem mais pejo que em outros temas. E por vezes me aparece tudo tão dessacralizado que me lembra quase a mesa do bloco operatório, onde tudo se expõe à claridade para melhor cortar.

    Por vezes, quando leio os clássicos da literatura, pergunto-me se tão pouco descreviam o amor físico pelo peso da época, ou se porque encontravam que aquilo que pretendiam dar a ver era outra coisa. E não sei a resposta.

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    1. Claudia da Silva Tomazi11 de dezembro de 2014 às 04:08

      Não sabe?! Então, dê mais atencão aos Clássicos senhora Beatriz.

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    2. Ó Beatriz mas não gostar de ouvir palavrões e ordinarices é sinónimo de se ser atrasada e retrógrada? bem, efectivamente as coisas agora parecem funcionar todas ao contrário, daí...

      Como me dói quando oiço no autocarro miúdos e, sobretudo, miúdas de 14/15 anos a abrirem a boca e a dizerem só caralhadas e foda-se em cada frase que vomitam, sem olhar para o lado não se importando que ali possam estar a sua mãe ou o seu pai. Sinceramente, palavrões e ordinarices não são sinónimos de beleza, são sim sinónimos de falta de educação, má formação, falta de integridade, enfim sinónimo de escumalha e gente sem princípios nem sensibilidade.

      No entanto, poderá ser sinónimo de arte e até de beleza se tal acontecer em su sítio. Por exemplo, Marlon Brando é absolutamente sublime no seu extraordinário desempenho no filme "O ÚLTIMO TANGO EM PARIS", porque, repito, tudo tem de acontecer em su sítio.

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    3. Tem razão Cláudia, devia lê-los mais porque na verdade gosto dos que conheço e desconheço demasiado. Mas, quem sabe, a Cláudia que tanto sabe e diz - ainda que bastas vezes eu a não entenda - possa aqui dar-me uns conselhos. A gente aprende sempre dos outros.

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    4. O último tango em Paris é filme que ainda não despertou a minha curiosidade cinéfila:). Concordo com a ideia do sítio. No entanto há palavras que me repugnam demais e já é tarde para me entrarem no léxico. Quem queira que as use, elas estão aí e, como diz, banalizaram de tal forma que o tabu se perdeu. O que nem sempre é um bem.

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    5. Não é propriamente o filme em si mas a divinal interpretação do melhor actor de cinema que vi até hoje - MARLON BRANDO-!

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    6. Acredito. Por acaso gosto bastante do actor. Não sei se é o melhor, não vi todos:)) mas admito que seja o preferido de muita gente.

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  6. Continua a ser um tema onde cair no ridículo é demasiado fácil (ironicamente à semelhança do acto em si).

    Que o diga o senhor que vende muito e apresenta o Telejornal que num dos seus devaneios até fazia sopa de peixe com o leite dos peitos da menina.

    Era meio luxúria meio culinária, portanto.

    Um mimo.

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  7. Acho que compreendo e concordo com a Nossa Extraordinária Anfitriã.

    É, ou foi, pouco corrente na nossa literatura o uso de linguagem forte e desbragada, como de descrições cruas de sexo e até de outras como pormenores de morte violenta por exemplo.

    Pode ter a ver com a nossa educação ou se assim quiserem com a repressão moral e religiosa? Mas também com uma costelasita da nossa celebrada hipocrisia que faz parte das idiossincrasias do povo que somos.

    Os palavrões não me chocam, se proferidos no seu contexto por uma saloia no pavilhão 3 do MARL ou por uma peixeira na Docapesca... até se bem aplicado por uma amiga daquelas com uma graça especial e sensibilidade para o dizer na altura certa... pode até fazer rir! Porque oportuno e criar uma situação cómica, jamais por ordinarice.

    Com o sexo é o mesmo... do mesmo modo que me não choca um corpo (mesmo feio) nú, na praia do Meco porque é o sítio para ele, ou um acto sexual explícito num filme onde se justifique... já o que dizer de uma pseudo-representação teatral constante de uma data de gente a urinar para cima de jornais, no meio da assistência? Mau-gosto puro e simples!

    Imagina alguém ler Pedro Juan Gutiérres sem as suas descrições de sexo? Ou até Jorge Amado? Nem o Tom Sharpe lhes escapa...
    Não os leio por causa disso, mas acho que conseguem que faça parte da narrativa, da acção e de uma forma absolutamente natural, não forçada! Sendo gratuito, pois é mera pornografia.

    E, lá está, acho que nem todos os escritores tenham o domínio dessa técnica e menos a sensibilidade ou inspiração para isso. Por outro lado parece-me que há obras que o dispensam em absoluto, não precisam dessas cenas, mesmo que o tema o sugira. Não valem mais nem menos, creio eu, é uma questão da inspiração do autor!

    Saudações nada chocadas do Bairro Ribatejano!

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  8. Oi!
    Laura Santos indicou teu blogue no blogue dela.
    Sim, na Literatura Portuguesa há essa contensão do erótico, que parece-me mais difícil ainda do que a comédia.

    abraço
    Marcos

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