Ofereça livros e afins

Enquanto a APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) faz uma publicidade na rádio e na televisão apelando à compra de livros para ajudar um sector que foi profundamente abalado com a pandemia (e que já tinha sido abalado antes duas vezes, pela crise económica do princípio da década e pela concorrência das séries de ficção da Netflix e da HBO), algumas editoras encontram maneiras de fazer chegar os livros aos leitores de forma rápida. Além da Penguin-Random House, que fez um acordo com a Glovo (sim, a mesma empresa que distribui comida de restaurantes vários), a LeYa criou o serviço LeYa Express que, com portes gratuitos, entrega livros em Lisboa e na linha de Cascais em menos de duas horas. O serviço, pensado para ser alargado a outras cidades em 2021, tem uma paticularidade bem interessante: é que os livros não têm de ser da LeYa, podem ser de qualquer editora! Mas, se quer saber mais, aqui tem o link. E, por favor, se já recebeu o ordenado e planeia ir às compras, ofereça livros como presente de Natal. Nós precisamos.


Leyaonline - LEYA EXPRESS


Se tem receio de dar livros a quem gosta muito de ler por causa dos repetidos, pode também oferecer um curso relacionado com livros, pois há cada vez mais oficinas e clubes de leitura, muitos dos quais orientados por escritores. A ECON e a BookOffice, por exemplo, têm vários à disposição, basta consultar os respectivos sites. Passe a publicidade, aí vai o link do que vou dar em Janeiro de 2021 para qum queira correr o risco:


https://euaprendoemcasa.pt/workshop-por-maria-do-rosario-pedreira-livros-e-livros-escrever-editar-e-publicar-ficcao/

Comentários

  1. eu já me inscrevi :) encontramo-nos em Janeiro!

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    1. o comentário apareceu anónimo, peço desculpa. agora vai devidamente identificado.

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  2. E, já agora, comprar livros nas pequenas livrarias que não pertencem às grandes cadeias de distribuição.

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    1. Nem mais, Artur. Acrescentava mesmo «até a todos os autores que não se revêm no actual modelo de edição, onde o autor é sempre o elo mais fraco.»
      Deixava entretanto uma reflexão sobre o que é hoje o romance na literatura: «Um dos muitos erros que penso produzirem-se na avaliação da figura do romance, feita algumas vezes por pares, outras mesmo por editores, é pensar-se num formato único e repetível.
      Na realidade, já em meados do século passado se rejeitava o conceito do romance como função singular de contar uma história - algo que ainda tantos aplaudem na sua forma mais simples, para além da eterna confusão entre romance e novela -, desprovido do acto mecânico e capacidade de exercício reflexivo, o romance delineando personagens conforme às convenções realistas do século XIX. O tempo, o espaço, a acção, a própria noção quase sagrada de verossimilhança, fazem parte de um tipo de romance que foi sendo suplantado pelo cinema e por todas as "artes" mecânicas (e sentidos do Homem contemporâneo) propiciadas pela transmissão do som e matraquear dos teclados.
      Como é público e notório, já o romancista e ensaísta Michel Butor dizia que "o romance é o laboratório da narrativa"; acrescentando mesmo que "não há espaço mais propício para se fazer novas experiências do que um laboratório." Assim, como inferiu, «uma literatura que pretende representar o mundo só o fará se acompanhar as mudanças desse mundo.» Termina, com uma conclusão óbvia: «é preciso, então, mudar a própria noção de romance». Acrescentando eu: «dando-lhe o espectro alargado que merece, muito para além dessa função singular e tantas vezes "quase infantil" de contar uma história.»
      Termino com... «saudades de Saramago!»
      Nota: teria todo o prazer em aprender com a Maria do Rosário mas, infelizmente, neste momento, só com uma bolsa ao estilo da literária. Fica o repto para que seja um dia transmitida para todos.

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    2. Caro Pedro, muito obrigado pelo seu texto, magnífico como sempre, e de uma enorme pertinência. "Mudar a essência do romance", é isso que fazem os grandes criadores literários que nos surpreendem e nos fascinam com as suas descobertas ! Sabemos que a procura da originalidade tem um preço alto a pagar. Desejo que o Pedro tenha a força para prosseguir o seu percurso literário pessoal. Abraço.

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    3. Pedro, certamente nunca me «ouviu dizer» aqui no blog que o romance tem de contar uma história. Até porque alguns dos meus romancistas favoritos não contam histórias (Marguerite Duras, por exemplo). O que mais valorizo na ficção é o «como», não «o quê». E não creio que os editores defendam esse modelo de livro que conta uma história, embora haja alguns que prefiram que assim seja e que gostem mais de narrativas desse tipo. Eu própria publico autores que não se distinguem pelas histórias que contam, mas pela forma como escrevem e estruturam a sua narrativa.

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    4. Penso que o romance fará o seu percurso natural, Pedro (a literatura de hoje pouco a nada tem a ver com a do século XIX, por muito que se goste do Eça ou do Camilo...), dentro e fora das curvas que a vida nos obriga a fazer...

      Mas com mais ou menos diferenças narrativas, eu continuo a preferir os romances que contam uma história.

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  3. António Luiz Pacheco9 de dezembro de 2020 às 05:53

    Estou a gostar da conversa, como habitualmente!
    Não vou dizer nada a respeito, pois aproveito sim para aprender, para me iluminar da luz que aqui brilha, como traça que sou.
    Porém, parece-me poder concluir da conversa, e opiniões, que a literatura está viva, evoluiu e evolui ainda, evoluirá portanto, a melhor prova de que está viva!
    Ainda bem.

    Já comprei uma quantidade de livros, logo no Sábado à tarde, pois chegando de manhãzinha fui com a minha mulher comer algo de que tinha saudades (um burger ranch, eheheh!) e aproveitei para ir à Bertrand, trouxe um carrego para juntar aos que fui recebendo por correio. Ainda vou comprar mais, e, claro que alguns serão para oferecer!

    Vivam os livros, os escritores, as editoras, as livrarias e os leitores!
    É preciso é saúde.
    Saudações entusiastas cá do Bairro Ribatejano.

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  4. Depois de longa ausência, decidi botar opinião, hoje. No mínimo, ficam (os que se lembram de mim) a saber que ainda ando por cá.

    Afirmar que um romance não presta porque conta uma história é uma ideia bastante redutora, até pode sugerir presunção.
    Saber contar uma história com nível literário e com ideias que não se esgotam na própria história é mais difícil do que escrever um mau romance "sem história".
    Há bons e maus romances com história, assim como bons e maus romances aparentemente sem história.
    Creio que a história existe sempre num romance; pode não ser segundo o conceito clássico de história, mas ela está lá, à espera que o leitor a construa.

    António Breda

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    1. Caro António Breda: a raiz desta reflexão não se prende com nenhum autor ou editor em concreto, vindo na sequência de um tipo de escrita de temática completamente banal, onde a “estória” despe-se de tudo o resto, como se uma novela se tratasse: a capacidade de elaborar, reflectir criticamente, impulsionar a trama, a quase narração ao estilo dos novos festivais de realidade e das próprias novelas televisionadas, filhas das fotonovelas do antigamente. Em boa verdade a polémica, num tempo de dificuldade de confrontar ideias sem que descambem para o campo do conflito e das trincheiras, começa à volta da escrita dos romances de José Rodrigues dos Santos.
      Entretanto, muitos queixam-se hoje da crise da literatura, parecendo não perceber a importância determinante na sua perda — por via da replicação ao infinito de outras formas de transmissão de "tramas" da vida real, como o cinema, a televisão, a rádio, a internet, etc. Uma perda que começa em meados do século passado, num século de grandes escritores intelectuais, "construídos" na leitura constante e na palavra escrita como forma de socialização. Se a história é a "ossatura" do romance literário, sem substância que a agregue e lhe dê corpo, hoje ela não resiste ao confronto com a realidade aumentada que vivemos diariamente, transmitida por tantos e diversos meios de comunicação.

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    2. Pedro, completamente esclarecido. :)
      A. B.

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  5. Ó Maria do Rosário: claro que não a ouvi dizer que o romance tem de contar uma história. Quando falo em "editores", falo em casas editoriais, em negócios que para existirem e subsistirem exigem sustentabilidade financeira (todos sabemos que entre o editor e o livro imprimido está a anuência da administração).
    Consta mesmo que a Gradiva tem como sustentáculo a obra romanceada de José Rodrigues dos Santos; e que, sem o sucesso angariado num público leitor, que não quer ouvir falar em Eduardo Lourenço, José Gil, ou, mesmo, António Lobo Antunes, já não existiria ou seria "engolida" por um dos dois grandes grupos editoriais.
    Há dias ouvi mesmo uma entrevista no "podcast à beira do abismo" ( https://open.spotify.com/episode/4Vk1dsmbNMoaB6CRBasqhN?fbclid=IwAR3b2zBE2ZBmW_FN5BIMoRNHpAGPzninjrBt7VCnjytKEk62r-uOsOpEHig ) de um ex-editor e escritor corajoso e desassombrado - qualidade rara num tempo medíocre em que tantos precisam da subserviência para simplesmente "existir" -, o João Reis.
    Que vale mesmo a pena os "Extraordinários" ouvirem, para se aperceberem de uma realidade que é em minha opinião responsável por alguma anomia na literatura nacional actual. Que do confronto de ideias, da amizade e respeito, nasça a luz, Maria do Rosário.

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