Um humor insubstituível

Agora, que já consigo falar dele sem me virem as lágrimas aos olhos (custou a sua morte), queria dizer que não conheci mais nenhum intelectual do seu gabarito em Portugal com tanta graça e tão pouca vaidade. Sim, refiro-me ao enorme Eduardo Lourenço, uma pessoa que não tinha peneiras nenhumas e estava cheio de razões para as ter. Era mesmo muito engraçado. Um dia, nas Correntes d'Escritas, eu estava sentada num pequeno sofá junto à recepção do hotel a ler o Diário de Notícias; o DN, nessa altura, tinha um caderno central de publicidade a cores, pejadinho de anúncios eróticos a massagens e saunas, com rabos e maminhas a transbordarem de lingerie de renda, e eu tinha pousado essas páginas centrais ao meu lado enquanto lia o resto. Pois bem: o professor agarrou no caderno, sentou-se ao meu lado e só depois olhou para o que tinha na mão. Abriu-o, folheou e depois olhou para mim a sorrir e disse: «Aqui está o maior bordel portátil da Europa.» Genial, como sempre. Cheio de um humor que não tem equivalente em mais nenhum dos nossos pensadores ou ensaístas, todos demasiado sérios. Teremos saudades também da sua graça.

Comentários

  1. Foi um homem excelente.

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  2. Ou não fosse um ex-aluno do CM... pois... eu sei... vão contrapor com o humor do Chicão :)

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  3. António Luiz Pacheco7 de dezembro de 2020 às 03:18

    O humor nas situações simples e corriqueiras, como essa, expontâneo portanto, é sinal de uma inteligência viva, que está presente e é constante. Nem todos a possuem.
    Humor, inteligência e outras qualidades Humanas, para mim é como usar uma cartucheira onde coloco cartuchos de diferentes cargas para fins diversos que podem ocorrer na jornada. A cartucheira é carácter, onde colocamos os cartuchos que usaremos na jornada da vida.
    Não tive o privilégio de o conhecer, mas é notório que tinha uma cartucheira bem recheada!

    Saudações cinegéticas, cá do Bairro Ribatejano, com frio, lareira acesa e tudo aquilo de que trazia imensa saudade após um ano inteiro fora... só ainda não encontrei a água-pé, vou hoje tratar disso!
    Nota: apraz-me dizer que regressando na TAP, a reencontrei no seu melhor! Que descansem os viajantes: serviço, comida, acolhimento e, pasme-se: horários cumpridos! Só lamento a falta da celebrada revista de bordo, como já foi aqui mencionado.

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    1. convenhamos que logo o termo "cartucheira ", por si só e sem metafora, indicia um belicismo, que imaginamos os pensadores condenam, alias combatem, porque imaginamos os pensadores a cuidarem do Homem e do que o rodeia.

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  4. Boa tarde Maria do Rosário.
    É com prazer que leio 2º texto mais bem escrito sobre Livros, dos publicados na sua página e refiro que os leio sempre.
    Tenho inclusive alguns arquivados, que um dia gostaria de escrever sobre eles.
    Este sobre o Dr. Eduardo Lourenço.
    O 1º foi a quando do falecimento do Dr. Rogério Mendes de Moura, de quem fui colaborador durante muitos anos.
    Cumprimentos
    José Gonçalves Calixto

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    1. Obrigada. E que saudades também do queridíssimo Rogério de Moura.

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  5. Li O Labirinto da Saudade nos fins dos anos 70, gostei imenso e marcou-me. À data terei pensado que seria a "explicação de ser português" não fora firmar-se apenas em três autores e todos literários, ainda que da 1.ª linha - Camões, Antero e Pessoa.

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  6. O sentido de humor é dos que sabem ver a vida com inteligência e sem pretensão de ser o melhor, mesmo quando o são, como foi e será sempre Eduardo Lourenço.
    Partiu para ficar com aqueles que o admiram, comigo, com quem tanto aprendi, e formiguinha sou.
    Até sempre

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  7. justamente...
    Diz que apesar de grande, tinha humor, era do povo.

    Em contraponto com outros, os outros, demasiado serios.

    Mas tambem se corre o risco de o humor ofuscar ou mesmo descredibilizar a ciencia propria, ou nao ?

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