Peixes grandes e peixes pequenos

Já se sabe que, no mar, os peixes grandes comem os peixes pequenos, mas em terra, e nos negócios, isso é também cada vez mais verdadeiro. Quando saí de uma editora pequena para um grupo grande, fi-lo porque em pouco tempo perdi vários autores que queriam e precisavam de dinheiro, marketing, espaço em livraria e promoção a sério, coisas que as editoras pequenas não podiam dar; e nem sequer me queixei de falta de lealdade porque as pessoas precisam de viver do que fazem e os escritores não são excepção. Admito que foi um choque para várias pessoas, mas era a única forma de poder continuar a publicar novos autores portugueses. Choque foi também para muitos o que se passou recentemente com a publicação em Espanha da obra da Prémio Nobel da Literatura Louise Glück. Lançada pela Pre-Textos, uma fantástica editora de poesia de Valencia, saíram, quase sem apoios, sete dos seus onze livros; ao que se sabe, nada venderam, mas isso nunca fez o editor vacilar na edição. Mas eis que a poetisa ganha o Nobel, e o seu agente literário, um senhor conhecido no meio por «Chacal», em lugar de recompensar a pequena editora que apostou ao longo de catorze anos sem quaquer retorno, agora não lhe renova os contratos e anda a propor a poetisa aos grandes grupos, que evidentemente podem pagar muito mais. Peixes grandes comendo os pequenos...

Comentários

  1. Como é que dizia o outro? "É a economia, estúpido".
    Enfim, passe a expressão, mas no fundo tudo se resume a isso pura e simplesmente.
    A ética, a honradez, o dever... são das coisas mais maleáveis que há.
    Como bem diz, não podemos criticar pois é a vida e a subsistência das pessoas, logo também a sobrevivência das obras que serão produzidas à custa disso.
    Um custo pesado, mas afinal é leve a vida?

    Ontem andava por aí a circular algo que reza assim:

    Só existe uma explicação para tudo que está a acontecer em 2020.
    O Mundo acabou em 2019, e, nós somos os tipos que não foram para o Céu!

    Acho que vale a pena partilhar , com os votos de um bom fim de semana, dentro do possível e com leituras, cá desde a Cidade Morena.
    É preciso é saúde!

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  2. Pois é, Rosário, por muitas histórias da carochinha que nos contem, a verdade é que os tubarões vencem sempre.
    Neste caso foi o Chacal...
    Notícia triste a fechar a semana.
    E ainda vêm aí notícias bem mais tristes... :-(
    Que o fds seja o melhor possível para todos.

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  3. Bom dia com alegria e pandemia

    Pandemia, ou talvez pandemónio. Talvez assim também se possa classificar esta tendência para a aglutinação, o crescimento, a concentração que se verificam transversalmente, em diferentes sectores de actividade económica.

    Os livros não são excepção, antes a regra.

    Chegados aqui o que podemos nós, consumidores, leitores, fazer?

    Não aderir ao preço, ao desconto, á promoção, só possível para empresas com músculo financeiro, com o fito de, num futuro próximo, ganhar quota de mercado e "limpar" a concorrência.

    O "average-Joe" escolhe hoje pagar menos e fica todo contente. Amanhã, fruto duma posição dominante, a mesma empresa pode subir preços, deixar cair a promoção. E sem concorrência, sem alternativa, o pagode lá há-de ir bater á sua porta.

    Por mim, é simples; livros compram-se em livrarias independentes.

    Em estações do correio levanto encomendas. No supermercado mercearias. Nas estações de serviço gasolina.

    (Aliás, o panorama "literário" numa grande superfície é .. confrangedor. De fugir.)

    Definição:um cínico é alguém que sabe o preço de tudo e o valor de nada.

    Deixemos pois de ser cínicos e teremos um mundo certamente melhor, com a necessária diversidade e liberdade de escolha.

    Boas leituras, bom confinamento, bom fds e boa pandemia a todos
    Saúde
    cp

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    Respostas
    1. Que posso eu dizer mais depois desta excelente definição: um cínico é alguém que sabe o preço de tudo e o valor de nada.
      Obrigado cp

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  4. Caminhamos cada vez mais para a "desumanização" da sociedade, com o nosso habitual abanar de ombros.

    E com uma ajuda grande do jornalismo-espectáculo, cada vez mais tóxico e poderoso, especialmente nas televisões.

    O que alguns amigos meus mais antigos dizem, é que os ricos de outros tempos tinham mais vergonha na cara (ou então fingiam...).

    O normal é um dia qualquer assistirmos à revolta dos "peixinhos pequenos", se entretanto não forem todos comidos pelos "peixes grandes".

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