Geografia da ausência

Ontem ao fim da tarde (desculpem não ter avisado, mas quase de certeza que a sessão foi gravada) houve um lançamento virtual do mais recente livro de Mia Couto, O Mapeador de Ausências, que pôde ser visto nos murais do Facebook de uma série de bibliotecas, teatros e centros culturais por esse País fora. O autor é o mais conceituado escritor moçambicano contemporâneo, detentor, entre outros, dos prémios Vergílio Ferreira, União Latina de Literaturas Românicas, Eduardo Lourenço e Camões, tendo também sido finalista do Man Booker International e o primeiro autor de língua portuguesa a integrar a final deste importante prémio internacional. O romance fala de um prestigiado intelectual moçambicano branco, professor na Universidade de Maputo, que regressa à terra onde nasceu, na Beira, ao fim de muitos anos de ausência, para ser homenageado nas vésperas do ciclone que assolou aquela região em 2019; e a história oscila entre as suas recordações de infância (quando Moçambique era ainda uma colónia), os episódios que se seguiram à independência (como, por exemplo, o facto de um criado da casa se ter transformado num dirigente da FRELIMO) e uma história de amor na actualidade. São 416 páginas de deleite para os muitos fãs de Mia Couto desfrutarem nestes dias em que têm de ficar em casa. Não há desculpas com a falta de tempo, hã?


 

Comentários

  1. Boa notícia, sim senhora!
    Mia Couto é um escritor de quem eu gosto, no geral, pois às vezes perde-se demasiado em divagações pelo meio da narrativa, e, torna-se chato! Digo isto, justamente porque gosto da sua escrita, pelo que me sinto à vontade para o fazer.

    Tenho uma boa ligação a Moçambique, desde os anos 90 quando pela facilidade de ter lá amigos, com barco e tudo, comecei a ir pela pesca submarina. O então embaixador Manuel Nobre da Costa era meu conhecido da caça, e curiosamente o actual cônsul de Portugal em Benguela é desse tempo, aqui o reencontrei e já o levei a ver as baleias lá no Sombreiro. Fiz belas reportagens nessas ocasiões, que me valeram ir depois patrocinado pelo grupo editorial de revistas com que colaborava. No final da década de 90 e início do século XXI, uns amigos instalaram-se em Cabo Delgado, com uma empresa de safaris e por várias ocasiões aí estive, convidado a companhar a instalação de uma "fazenda do bravio" , em pleno mato. Participei no contrôle a animais problemáticos em colaboração com o governo da província e apoiei como consultor o desenvolver da actividade do turismo cinegético, de que fiz também divulgação com reportagens em várias revistas incluindo espanholas e francesas. Mais tarde colaborei na formação e desenvolvimento de uma empresa de hortofrutícolas de um outro amigo e antigo fornecedor do meu tempo na Distribuição.

    Mia Couto, começou por ganhar notoriedade com os seus artigos nos jornais, tanto em Maputo como em Portugal. Era conhecido de conhecidos meus, e assim o descobri, vão-me perdoar a prosápia, mas vale a pena falar nele!
    O primeiro livro de que me lembro, de contos, foi "Cada homem é uma raça". Extraordinário! É aquilo em que ele é melhor, contar histórias de pessoas, pois tem uma sensibilidade única para "caçar" os tipos e descrevê-los, usando-os como peças na construção de histórias que nem por isso são ficcionadas, mas sim em boa parte da sua observação, que me parece qualidade maior num escritor - por isso gosto dele!
    Terra sonâmbula, outro... onde cultiva outra das suas características também notável, o realismo mágico! Não sei se não será o seu melhor livro.
    O último vôo do flamingo, é outra obra notável pelo uso dos tais personagens que ele "apanha na rua" e pelo uso da linguagem popular.
    A varanda do fragipani, talvez um dos mais conhecidos... é algo hermético mas muito bonito e muitíssimo bem escrito, precioso!
    Talvez o mais conhecido seja A confissão da leoa... um livro que não é nada fácil de ler, e menos de compreender a quem não tenha entendimento africano bastante, mas é um dos melhores livros que li! Aconteceu estar na zona e assistir na época aos acontecimentos que lhe deram origem. Participei com o Manuel Carona (PH) na perseguição aos leões devoradores de homens e no controle de elefantes, numa zona hoje infelizmente em destaque por razões bem piores, que têm sido os massacres daquelas pobres gentes. Publiquei uma série de reportagens sobre isso, a que dei o nome "Entre corais e leões" numa alusão ao famoso livro de Hans Hass "Entre corais e tubarões". Mia Couto inspirou-se depois na figura do nosso comum amigo Sérgio Veiga, que deu corpo ao caçador do seu romance, porém existe, é moçambicano, caçador e escritor também, além de pintor.
    AInda não consegui ler a trilogia sobre o reino de Gaza (sim, do Gungunhana) , está na fila...
    Há muitos mais livros, não conheço todos, infelizmente.
    E muito mais haveria para falar deste escritor rico, profíquo, humano mas virado para fora, africanista e sobretudo étnicamente informado, antropólogamente correcto, de quem muito gosto!

    Alonguei-me, me perdoem o entusiasmo mas também hoje aqui é feriado.

    Saudações africanas cá da Cidade Morena, onde da minha varanda alcanço os fragipanis que plantei no quintal!

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    1. MIA COUTO-um dos maiores escritores da língua portuguesa!

      "Venenos de Deus, remédios do Diabo" - não deixes de ler.

      Mia Couto Prémio Nobel da Literatura (andam distraídos, daí o Jorge Palma americano - Bob Dylan-).

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  2. Magnifico elenco Extraordinário Pacheco. Esse escritor ainda há de ser Nobel, tenho esperança nisso.

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    1. E somos dois, Extraordinário Amalivros!
      Tenho quase a certeza, pelo seu percurso e pela sua dedicação à causa das pessoas e do ambiente, de modo integrado e esclarecido, que terá de ser fatalmente nobelizado e pelas melhores razões.
      Espero que o saibam valorizar! É um escritor tranquilo mas atento e que sabe agitar sem escândalo nem protagonismo. E, afinal, é lusófono, o que para nós deve ser motivo de grande orgulho.

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    2. A quem eventualmente interesse o tema Mia Couto e sua escrita, um escrito meu já antigo mas actual...

      “A CONFISSÃO DA LEOA” (Mia Couto)
      O mais recente livro do escritor moçambicano Mia Couto, “A confissão da Leoa” (Caminho), mais do que romance é sobretudo um testemunho rico e interessantíssimo da condição humana e modo de vida das gentes remotas daquele país do Índico, que ele trata muito bem como romancista e como o observador das pessoas que é, para lá da sua formação científica. Será espantoso para os modernistas, a constatação do facto de que em pleno século XXI, nos nossos dias, ainda ocorrem aquelas coisas, e se calhar ainda bem, acrescento eu! Pois talvez seja prova de que apesar da dureza e crueldade que isso implica, o ser humano ainda não se libertou completamente nem das ligações à Mãe-Natureza (que como se devia saber não dá presentes) nem da sua condição mais simples e isso seja sinal de que apesar de tudo ainda há lugar para aqueles que escolhendo-a ou não, vivem aquela condição ancestral que não pode ser olvidada!
      É dali, daqueles lugares, daquelas sociedades e formas de vida que nós vimos e onde e como nos originámos!
      Mia Couto, para mim, consegue desta vez e de forma magistral, reunir as suas duas condições ao tratar no modo de romance um verdadeiro caderno de campo de antropologia que permite ao leitor ter perspectivas diversas, quer se interesse pela ciência humana, tenha curiosidade pelos costumes, ou simplesmente pela história que se vai desenvolvendo e revelando uns e outros. Ninguém lhe pode ficar indiferente, seja qual for a razão da leitura ou o interesse pessoal do leitor.
      Construído em volta de acontecimentos verídicos passados com leões na longínqua província de Cabo Delgado, no NE de Moçambique, tem como uma das personagens principais, o caçador, inspirada no seu amigo Sérgio Veiga, caçador e pescador submarino moçambicano, também pintor e escritor que conheço há muitos anos e actualmente colabora com o meu amigo Manuel Carona na sua nova organização, Majune Safaris. O Sérgio, personalidade carismática e multifacetada, bem conhecida em Maputo é uma daquelas pessoas que parecem ficção, digno de um romance! Como o herói da ficção, também ele é filho de um caçador português, o sr. Mário Veiga que ainda conheci nas minhas andanças por lá, quem ostentava no corpo as marcas de uma contenda mal resolvida com um leão!
      (continua)

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    3. (continuação)

      Não me espanta que Mia Couto com a sua natural sensibilidade e capacidade de sentir e interpretar essa África profunda e bravia, mesmo rude, dos homens todavia simples e da Natureza cruel que nos marca e se instala para sempre, usasse este tema que aliás tão bem trata e consegue expôr, na sua linguagem própria e em imagens descritas por quem mais do que as sente, assiste!
      A história é fiel às pessoas, ao seu viver e pensar, com a grande virtude de sómente as expôr e não ajuizar. Mia Couto apenas relata com mestria, sabendo interpretar e pôr-se na pele dos seus personagens que nos apresenta exactamente como sei que são… e cada um que faça os seus juízos! Creio que o faz por respeito profundo às pessoas, e lhe fica bem enquanto ser humano e escritor!
      Muitos leitores, presumidos intelectuais, gente de pose sofisticada e cultura julgada global, moderna, que se extasiem com os seus jogos de palavras, o estilo e a verve, todavia nunca conseguirão ver e menos perceber o que estão a ler! Incapazes de ver caras pintadas de branco, panos garridos, pés descalços, pátios de terra, casas de telhado de colmo ou chapa ondulada (um luxo!) cobrindo paredes de barro amassado sobre caniços. Que não imaginam ouvir o vento sussurrar no palmar, e menos identificar os aromas que ele trás ao longo do dia e noite fora como as badaladas de um relógio. Que nunca escutaram o cantar do leão entrar por janelas sem vidros, nem tremeram ouvindo o elefante saquear a sua reserva de mandioca, paredes-meias na despensa! Gente urbana que nunca conheceu esta África verdadeira e dela faz uma idéia errada, tanto por idílica como por dura, como a faz da forma como homem e Natureza interagem ali.
      Afastados da realidade vivida no mato não conseguirão sentir pelo meio da intriga toda a crueza e intensidade daquele que é o paradigma de África onde o belo e o horror convivem e onde não há meios-termos, ou se ama ou se odeia!
      É um bom livro, e mais se conseguirmos lê-lo para além das palavras do autor e realizarmos que se passa neste século! Que ainda há homens que são homens e bichos que são leões, por muito romanceados que sejam! Esta a mensagem que convém lembrar, importa mais que o mensageiro…

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    4. Apreciei muito - como aliás é habitual - estes seus comentários, António Luiz Pacheco. Temos, em comum, a admiração por Mia Couto, a nostalgia por Moçambique (estudei dois anos em Nampula) e um gosto especial pelo mar, embora eu seja mais nadador de superfície.
      Fez bem em colocar este seu escrito, porque traz aragem africana, a experiência de quem sabe viver e conviver e tudo o mais inerente aos que não se quedam em viajar pelo escritório sobre a cadeira de rodados.
      Mas um aviso lhe deixo, caro amigo: esteja preparado para algum comentário crítico que venha causticar o caso de utilizar esta caixa de comentadores para falar da sua obra ou das suas experiências pessoais, tal como aconteceu comigo há uns meses atrás.

      Este livro recomendado pela MRP interessa-me. Será a próxima aquisição, após terminar este comentário. E nem preciso de me levantar da secretária - só tenho de receber a encomenda à porta, em breve.

      Um grande abraço virtual desde a cidade do Planalto até à Cidade Morena.

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    5. Desculpem regressar para corrigir um erro meu de linguagem: "há uns meses atrás". Embora tenha seguido a fórmula oral comum, para intensificar a ideia de passado, não é correcto fazê-lo na escrita, porquanto o "atrás" está a mais.

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  3. Sobre Mia Couto um dia ser Nobel, esperança que percebi alguns extraordinários acalentarem, deixo aqui uma dúvida minha: será que aquelas maravilhas que ele consegue com a linguagem, em especial as palavras maravilhosas que cria, não ficam "lost in translation" (o inglesismo foi de propósito, não resisti), em especial para Sueco?

    Rui Miguel Almeida

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    1. Tem muita razão no seu assisado comentário, Extraordinário Rui Miguel!
      Porém, e olhando à génese do prémio como a outros anteriores laureados, o que conta ou devia contar, é a sua profunda alma, e não a quantidade de leitores que lhe acedem... Mia Couto é um escritor de e da alma africana, talvez prejudicado pela côr e cabelo liso, mas é profundamente africano!
      Grande abraço cá deste pseudo-africano!

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  4. Geografia da ausência - só o nome é apaixonante e faz-me lembrar um feliz episódio da minha vida. Até ao presente dia, fui uma única vez a Moçambique, em trabalho, tendo a sorte de disfrutar da beleza da cidade da Beira, no ano em que o meu filho nasceu, três anos antes do terrível ciclone. Bebi uma Laurentina no Clube Naútico, com o Oceano Indico como pano de fundo. Estava sozinho a pensar na minha mulher e no meu filho, que ainda não tinha nascido, a olhar para o Oceano que via pela primeira vez. Estando sozinho, acho que nunca me tinha sentido tão acompanhado.

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  5. Vocês, Extraordinários, vão-me crucificar mas nunca li nada do Mia Couto, exceto, talvez, uma ou outra crónica no JL....
    Eu sou uma leitora de histórias e sempre tive a sensação de que o Mia Couto era um escritor da língua, se é que me faço entender.
    Assim, para me iniciar na sua obra, talvez alguém me pudesse recomendar uma narrativa menos , digamos, rebuscada. Valeu?
    Obrigada a todos!
    E saudações da Cidade Branca!

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    1. O facto de Mia Couto ser também um escritor da língua não quer dizer que não seja um escritor das histórias. Eu aconselharia A Varanda do Frangipani.

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    2. Obrigada, Maria do Rosário! Vou comprar e ler.

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    3. Nem nada... até porque acho que Mia Couto é um leitor de culto e não de largo espectro, portanto não me espanta que nunca o tenha lido, ou mesmo sido tentada a isso.
      Aliás é precisamente isso que nos atrai aqui a este espaço de luz, divulgar, discutir, aprender e falar de livros e seus autores, ou estarei enganado neste meu esvoaçar constante por aqui? Isto na minha opinião de traça dos livros!
      Mia Couto, como eu disse (e o Rui Miguel apontou bem), não é fácil de ler... é muito africano, até algo hermético. Ele escreve com uma africanidade pesada para muitas pessoas, e, conheço quem não goste ou nem seja capaz de o ler porque de facto pode ser algo denso, mas sobressai dos seus escritos uma humanidade imensa, além de uma capacidade de observação fabulosa, resumindo eu diria que os seus quadros são intensos mas pintados com enorme maestria, digamos que é como um Jackson Pollock da literatura!
      Note que eu sou amante da pintura naturalista e dos impressionistas, mas simplesmente adoro Pollock, não sei porquê! Creio que Mia Couto exerce esse efeito sobre os leitores que não sejam africanizados.
      A varanda do fragipani penso que é exactamente assim como diz, "de língua" ... portanto hermético e pode não ser fácil de entrar nele.
      "Cada homem é uma raça", um livro de contos e um dos primeiros do autor, é capaz de cumprir melhor a função de lhe abrir a porta, "O último vôo do flamingo", idem.

      Boas leituras, cá desde a Cidade Morena!

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    4. Obrigada Extraordinário Pacheco!

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