Música silenciosa
Li um livro maravilhoso de Vassili Grossman de que já aqui falei (Tudo Passa) e agora tenho em mãos uma outra preciosidade que me remeteu para esse romance, até porque o seu autor, o britânico Julian Barnes (também falei de outros romances dele aqui no blogue), parece adaptar-se ao assunto, a «Rússia soviética», e escrever um pouco à russa desta vez. Chama-se O Ruído do Tempo e trata de um tempo realmente maligno, o do estalinismo, em que as pessoas andavam caladas por causa do terror das purgas, mas o protagonista não podia manter-se silencioso pela simples razão de que fazia música. Estou a falar de Chostakovich, compositor aplaudido no mundo inteiro nesses anos 1930 e admirado pelo regime soviético até um belo dia em que uma ópera sua incomodou o líder e a sua comitiva no Teatro Bolshoi, em Moscovo, e o jornal do dia seguinte trazia na primeira página uma crítica terrível, acusando o compositor de fazer «chinfrim» em vez de música (crítica provavelmente escrita pelo próprio Estaline). O medo que a partir daí se apodera de Chostakovitch, o que ele faz para evitar os interrogatórios, a forma como se prepara para ser chamado a depor, vestido e de mala pronta para evitar a humilhação de ser levado de casa em pijama, são momentos inesquecíveis neste romance que retrata uma época em que os artistas não tinham liberdade e o poder colidia claramente com a arte. Não percam esta jóia.
Então parece-me que acertei em cheio - comprei-o ontem!
ResponderEliminarO Julian Barnes é um escritor que muito aprecio, já li vários livros dele e nunca me desiludiu.
Antonieta
Bom dia. «Tudo Passa» está na minha estante, a aguardar vez, enquanto continuo a ler, entre leituras, outra monumental obra deste autor: «Vida e Destino». Mas para quem queira saber mais acerca dos nefastos - hediondos, e sei lá que mais - efeitos dos Estalinismo e de todas as correntes comunistas que se lhe seguiram, convido à leitura das três obras, até agora publicadas em Portugal, da Prémio Nobel de 2015 - SVETLANA ALEKSIEVITCH: «A Guerra Não Tem Rosto de Mulher», «O Fim do Homem Soviético» e «Vozes de Chernobyl». É raro o conjunto de outras obras que nos digam tanto da Condição Humana.
ResponderEliminarQuanto a « O Ruído do Tempo» vou espreitar.
Da Svetlana só comprei As Vozes de Chernobyl mas ainda não o li, ainda está naquela interminável lista de livros para ler sei lá eu quando...
EliminarBoas leituras e Feliz Natal para si e família!
Antonieta
Se é para ler sobre o estalinismo e purgas, fico-me pelos maravilhosos "Vida e Destino", de Grossman, "O caso do camarada Tulaev", de Serge.
ResponderEliminarEstamos em sintonia.
EliminarAcrescentaria de Alexandre Soljenitsine: "Arquipélago de Goulag". Em boa parte autobiográfico, relata a sua experiência no gulag, do mesmo escritor há o terrível "Um dia na vida de Ivan Denisovitch; Contos de Kolimá também autobiográfico e escrito por Chalamov.
Há muito por onde ler até me virar para Barnes. Prioridades e gostos!
Concordo que é particularmente interessante conhecer aquela realidade histórica pela escrita de autores “soviéticos” como Vassili Grossman ou Vicltor Serge (aliás Kibaltchik). Mas não li “o ruído do tempo” de J. Barnes apenas como uma incursão ao estalinismo e suas purgas, nem sequer como uma biografia do compositor Chostacovich, mas mais como uma reflexão sobre a colisão entre a arte e o Poder, infelizmente sempre muito actual. E se estamos por demais familiarizados com a versão da colisão com a palavra escrita, com os livros, aqui, o inimaginável (que convém não considerar inimaginável) chega com a própria música.
EliminarJ. Barnes tece a luta de Chostakovich para preservar a sua integridade artística num clima de opressão que o impele para representar o próprio opressor, com resultados notáveis: (p.104) “A arte pertence a toda a gente e a ninguém. A arte pertence a todo o tempo e a nenhum tempo. A arte pertence àqueles que a criam e àqueles que a usufruem. A arte já não pertence ao Povo e ao Partido, tal como já deixou de pertencer à aristocracia e ao mecenas. A arte é o murmúrio da História, ouvido sobre o ruído do tempo. A arte não existe pela arte: existe pelas pessoas.”
Apetece-me recordar uma frase retida da poeta americana Adrienne Rich: “A arte é o nosso direito de nascença, o nosso mais poderoso meio de aceder à vida imaginativa e à experiência de nós próprios e dos outros. Porque redescobre e recupera continuamente a humanidade dos seres humanos, a arte é crucial para a visão democrática. Um governo, à medida que se vai afastando da democracia, verá como cada vez menos útil o encorajamento dos artistas, verá a arte como uma obscenidade ou uma fraude”
"O caso do camarada Tulaev", de Serge.
EliminarComprei há uns dias.
Do Barnes adorei "O Papagaio de Flaubert", dos outros que li dele nem tanto. Irei folhear este novo romance numa livraria, sobretudo por ser sobre um compositor que muito admiro. A minha decisão de compra ficará condicionada ao prazer que obtiver da leitura de um par de páginas.
ResponderEliminarArtur, eu também gosto de ler qualquer coisa do livro que pretendo comprar e, neste caso, agradou-me o que li nas páginas 98/99.
EliminarTambém gostei do tamanho da letra (antigamente era-me indiferente, mas agora tem mesmo de ser) e do preço - é das poucas
novidades com desconto de 20% na Bertrand - só custou 12,40€.
E como não posso comprar tudo, acho que foi uma boa opção.
Boas leituras e Feliz Natal para si e família.
Antonieta
Obrigado pelo muito útil dica: é que eu também tenho o cartão Bertrand !
EliminarMuitas e boas sugestões de leituras, até porque e apoliticamente falando, há coisas que não se podem deixar esquecer!
ResponderEliminarE a propósito, imaginem que comecei a ler... Mein kampf! Pois é... o meu filho resolveu comprá-lo na Feira do Livro, e eu que nunca o li e nem nunca tal me passara pela cabeça, espreitei e suscitou-me curiosidade pelo que resolvi meter-me à empreitada... depois darei notícias, mas aquilo é perigoso! Mesmo perigoso, e pior, está bem escrito!
Algum Extraordinário ficará chocado com esta minha confissão, mas afinal somos leitores, nós, portanto leiamos! Porque a leitura é além de uma paixão, informação e a memória dos homens pelo bem e pelo mal!
Prometo depois ler O Capital...
Saudações não-Hitlerianas cá do Bairro Ribatejano!
Tal como Artur Águas, de J. Barnes só gostei d'O Papagaio de Flaubert, mas deste gostei muito. Nesta temática desiludiu-me recentemente O Meteorologia. Por comparação acudiu-me ao espírito Os Deuses Têm Sede, ainda que este se situe no refluxo da Revolução Francesa e aquele no da Revolução Russa. Uma diferença artística abissal.
ResponderEliminarRosário, como nos aproximamos do Natal, deixe-me pedir-lhe um favor.
ResponderEliminarUma reedição de Danilo Kis pela D. Quixote.
Junto-me ao pedido.
EliminarAgora, o seu pedido pôs-me com as orelhas no ar!!!!
EliminarPeço desculpa pela expressão mas retornei à minha condição barroa... digam lá o que trata ou um pouco desse Danilo...
Saudações expectantes do Bairro Ribatejano.
Danilo Kis (Kiš ) foi um escritor Jugoslavo/Sérvio que teve como inspirações literárias Bruno Schultz, Vladimir Nabokov, Jorge Luis Borges, Ivo Andric (Andrić) e Miroslav Krleza (Krleža). Como mera leitora, penso encontrar-lhe também alguma influência/toques de Isaac Babel ( Contos e diários; Contos escolhidos) e de Varlam Chalamov ("Contos de Kolimá" - contos autobiográficos sobre o tempo que passou no gulag). As suas obras mais conhecidas são "Enciclopédia dos mortos" e "Um túmulo para Boris Davidovich". Neste último referido retrata pela via de contos o totalitarismo político e o que era feito a quem ousasse pensar de forma diferente da aprovada pelo regime.
EliminarNa "enciclopédia dos mortos", fala-se de relações humanas, paisagens, bem como a multitude de detalhes que fazem a vida humana.
São livros por vezes densos e negros, mas com bastante ironia.
Penso que deviam reeditar pelo menos o único livro que houve entre nós nos anos idos 80.
Já agora recomendo Ivo Andric, um escritor Bósnio de grande qualidade, na minha opinião. Na nossa língua tem três livros editados. "A crónica de Travnik; A ponte sobre o Drina e Pátio Maldito".
Espero tê-lo ajudado a conhecer um novo escritor.
Ana, agradeço imenso o seu comentário.
EliminarDesconhecia todos estes escritores e já fiz a minha encomenda. O de Chalamov parece-me deveras interessante e encomendei directamente à editora (Relógio D'Água), uma vez que em livrarias online está esgotado.
O de Kis foi encomendado fora de Portugal, com muita pena minha.
O caso do camarada Tularev. Um grande romance sobre as purgas estalinistas, publicado este ano pela primeira vez em Portugal.
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