Ler ou escrever

Dizem que não é possível escrever sem ter lido e que as duas actividades são indissociáveis. Concordo, evidentemente. Calcula-se também que os escritores sejam as pessoas que mais lêem – e é verdade, basta ouvir Lobo Antunes a citar de cor tantos poetas e romancistas de cada vez que fala do que é escrever. E, porém, um dia, numa sessão dedicada à literatura em que participavam três ou quatro escritores, o moderador perguntou-lhes o que estavam a ler nesse momento e uma das intervenientes hesitou tanto que o público percebeu imediatamente que não estava a ler coisa nenhuma e, como dizem os brasileiros, «pintou um mau clima»; emendar a mão e oferecer dois ou três títulos estranhos – e franceses! – não ajudou ninguém a mudar de opinião... Muitos escritores dizem que, quando estão mergulhados num romance novo, simplesmente não lêem: estão tão colados às suas personagens que não conseguem estar com as dos outros – e não há mal nenhum nisso, até porque confessá-lo abertamente evitaria alguns incómodos como o que referi. Ouvi alguém dizer que Cardoso Pires, por exemplo, só lia revistas e literatura barata quando estava a escrever um romance – e se calhar os seus romances beneficiaram dessa atitude. Mas... deixar de ler? Temer as influências? Viver apenas com o próprio texto? Haverá coisa mais inspiradora para quem escreve do que a escrita alheia? Eu teria uma enorme dificuldade em agarrar-me ao meu texto e deixar o dos outros de fora, ou em não ler durante meses se estivesse a escrever um romance. Mas também sou preguiçosa para a escrita e prefiro a leitura. Nunca poderia ser uma escritora a sério, em suma. Bom fim-de-semana.

Comentários

  1. Se estou a ler, anseio escrever; se estou a escrever, invejo os que só leem; se não leio nem escrevo, é uma tormenta; se concilio as duas coisas, logo me lembro do verso do Pessoa: "O Sol doira sem literatura".
    Entre o sol e a literatura converso com personagens reais e fictícias, sou autor de vidas e personagem da minha própria vida.

    ABC

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    1. Emílio Gouveia Miranda11 de novembro de 2016 às 02:00

      Ler e escrever: as duas faces de uma mesma moeda... Partilho o sentimento. Algo é violentado em nós - acredito - quando em função de uma das práticas nos impomos abstermos-nos da outra...

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  2. Emílio Gouveia Miranda11 de novembro de 2016 às 01:55

    Ler e escrever: duas formas de respirar o significado da vida, através dos nossos e de pulmões alheios.
    Quanto a mim, escrevo melhor lendo outros, mesmo que no mesmo registo literário. Não vejo nenhum mal nisso, porque o acto de criação é também beber de outras fontes a líquida e inspiradora palavra.

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    1. Completamente de acordo: somos o que vivemos mas também (e muito) aquilo que lemos.
      Ando agora a ler A Biblioteca à Noite, do Alberto Manguel, e na página 37 ele escreve assim:
      «Tal como os bibliotecários de Alexandria talvez tenham descoberto, qualquer momento literário pressupõe necessariamente todos os outros.»
      Mas cada caso é um caso...
      :-) Antonieta

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    2. Emílio Gouveia Miranda11 de novembro de 2016 às 07:31

      Adquiri recentemente este livro. Aguarda a hora de ser lido, como muitos outros... Lá está: a ânsia de ler, sempre, apesar de tudo, aquém da ânsia de comprar mais um livro... e mais outro... e mais outro... Livros acerca de livros são inspiradores. Vou querer ler, em breve. Obrigado pelo seu comentário... Assim vivemos, lendo e querendo ler mais. Bom fim-de-semana.

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  3. Quando estou a escrever algum livro, não sinto necessidade de ler.

    Antes e depois, sim. Adoro ler livros que me enchem de ideias (mesmo que acabe por não as usar...). O giro da coisa é que muitos deles nem são grandes romances.

    Como também sou muito influenciado pelo cinema (dão-me muitas ideias...) , acredito que possa haver quem escreva sem ter como principal "motor" os livros.

    Segundo as minhas estatísticas pessoais, leio muito mais na Primavera e no Verão, que no Outono e no Inverno (nos dias cinzentos demoro mais tempo a acabar de ler um livro...).

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  4. Imagino que para um escritor, ter lido e ler seja como lembrar-se de que não esteve nem está só no incredível, ele vê pegadas, que apontam em todas as direções do real, do irreal, quero dizer.

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  5. Tenho tantas, mas tantas, saudades de ter tempo para ler só porque sim...

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  6. Já ouvi várias entrevistas de escritores com obra firmada e quase todos afirmam que é nos intervalos da escrita que lêem - entre livros. Penso que se entende, a escrita é uma imersão, uma transcendência e, tratando-se de um romance, exige bastante do escritor. Depois há os que, como João Tordo trabalham com horário e a partir dele dão folga a si mesmos, tornam-se pessoas igualinhas às outras. A criatividade diverge bastante na forma como se exprime e no tempo e espaço de que precisa para isso.

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  7. E por falar em romance, o primeiro livro que li da Maria do Rosário foi o "Alguns Homens, Duas Mulheres e Eu". Só a conhecia como editora e descobridora de talentos (Peixoto, Tordo, Mãe, etc.) - só mais tarde cheguei à poesia e, muito mais tarde ainda, ao blog e às letras de fados e canções.
    Estava à espera de um novo romance, mas parece que não vai ser para os próximos tempos...
    :-) Antonieta

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    1. Ainda aqui volto para dizer que hoje estou triste porque morreu um Poeta que, por acaso, também era cantor.

      «If you are the dealer
      I'm out of the game
      If you are the healer
      I'm broken and lame
      If thine is the glory
      Then mine must be the shame
      You want it darker
      We kill the flame

      Hineni Hineni
      I'm ready, my Lord.»

      E Leonard Cohen, tal como David Bowie, sabia que o fim estava próximo...

      Bolas, estou mesmo farta do 2016!
      E estou triste.
      :-( Antonieta

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    2. Que pena perdermos Cohen. Mas ele era velho, teve uma vida longa e por certo cheia de gente, de coisas boas e menos boas. E deixou obra. Que mais pode um homem pedir?! Mas a notícia deixa-me triste. Devo-lhe alguns bons momentos.

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  8. Se as Horas Extraordinárias são "as horas que passamos a ler", que designação dar às horas que passamos a escrever?

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  9. .... horas pré-extraordinárias dos que hão de ler ....

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  10. Eu vou lendo sempre e sempre, esteja ou não a escrever os meus livros.
    Para mim, a leitura não interfere com o que escrevo na altura. E estou sempre ou a ler ou a escrever.

    É assim. E estou de acordo contigo, Rosário, quando dizes acima ...«Eu teria uma enorme dificuldade em agarrar-me ao meu texto e deixar o dos outros de fora, ou em não ler durante meses se estivesse a escrever um romance»

    Para mim, não faz o menor sentido. Pelo contrário.

    Cristina Carvalho

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  11. Não escrevo por prazer, só profissionalmente.
    Leio por prazer e profissionalmente.
    Quanto mais leio por prazer, melhor escrevo profissionalmente.
    Profissionalmente exerço funções aduaneiras.

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  12. Efectivamente as duas actividades são indissociáveis, contudo, penso que não são consequência de...

    Outrossim, continuo a ficar pasmado como é que, por mais que tenham lido, conseguem escrever tão bem, pessoas como John Fante, Carson McCullers, Philip Roth, Flannagan O'Connor, Steinbeck, T.Capote, J.C.Oates, Saramago, Vergílio Ferreira (só para citar alguns de que mais gosto)—por mais que eu leia não consigo escrever três linhas que possa dar a ler a alguém.
    Isto não se aprende —por mais que se leia.
    Creio que é um dom, já nasce com a pessoa pois, tal como o dom de jogar futebol, este dom de escrever (bem) também não se aprende, nasce!!!!

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  13. Só "escritores" por aqui...
    é-se o que se pensa ser, não é?!

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    1. Olhe que não, caro Anónimo, olhe que não...
      Anónima da Silva

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    2. Olhe que sim, olhe que sim, cara Anónima da Silva.
      E ainda há coragem para falar sobre tantos livros publicados e tratas do género.
      Ninguém falou sobre António Lobo Antunes, que é o supra sumo do exemplo. Todos se concentram em si mesmo. Os autores que nunca serão escritores.

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    3. Pior do que um autor que nunca será escritor, só um anónimo que nunca será autor. A frustração é uma secreção venenosa.
      ABC

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