Recessão literária

Depois de um presidente como Obama, que representou seguramente uma mudança de paradigma na presidência dos EUA, é difícil aceitar que um dos candidatos seja agora alguém muito próximo de uma caricatura ou de um personagem de BD. Mas a explicação para a ascensão de Donald Trump à posição de poder assumir os destinos da nação mais importante do mundo pode talvez explicar-se por um certo grau de ignorância arrogante de quem o apoia (Richard Zimler contou-me que «intelectual» na América é para muitos um insulto), ignorância que quiçá  se prende com uma queda vertiginosa dos índices de leitura dos americanos. Leio num pequeno artigo que existe uma «recessão literária» (gosto deste termo) nos Estados Unidos (eu diria que não é só lá) e que os números de leitores de literatura (mesmo que na categoria se incluam livros como As Cinquenta Sombras de Grey), que tinham aumentado entre 2002 e 2008, têm vindo a cair desde esse ano até níveis bastante inesperados... Só 36% dos homens lêem contos, romances, poemas ou teatro, enquanto 50% das mulheres os consomem; os que têm formação superior compram duas vezes mais livros do que os que apenas acabaram o Secundário. Não há uma diferença significativa entre leitores jovens ou mais velhos, lendo todos mais ou menos o mesmo número de títulos. A principal razão apontada pelos autores da investigação para este decréscimo é o tempo gasto com as apps do iPhone e as séries de TV... Uma época demasiado rápida, na qual é difícil conseguir tempo e concentração para ler literatura.

Comentários

  1. Segundo um estudo da Universidade de Yale (EUA) as pessoas que passam mais de três horas e meia por semana lendo livros de ficção ou de não-ficção correm um risco de morte 23% menos do que aquelas que não lêem nada. Os investigadores norte-americanos analisaram informação sobre a saúde e hábitos de leitura de 3.635 pessoas com pelo menos 50 anos de idade. Segundo o blogger brasileiro que dava a notícia:"É isso. A fórmula mágica para viver mais existe, é antiga e bem conhecida. Não está á venda em farmácias ou drogarias, mas em alfarrabistas, livrarias e bibliotecas. Estas oferecem amostras grátis. Viva Gutenberg!" Já dizia Goethe: "O tempo rende muito quando é bem aproveitado". E acrescento eu, como a vida é curta não vale a pena perder tempo com livros "chatos" que os há.

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    1. Caro Albertino Ferreira — livros chatos — ora aqui poderá estar um tema para horas extraordinárias.

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  2. Emílio Gouveia Miranda6 de outubro de 2016 às 02:51

    Relativamente a esta recessão literária, tão falada e, às vezes, com um certo tom de «lamechice»; perdoe-se-me a expressão, julgo que muito se deve à troca - por muitas das Editoras do paradigma da qualidade pelo da quantidade. Por se editarem «coisas», que é mais fácil ler nos ipaids e ipods, etc., do que num livro a cheirar a tinta e a papel, por se buscarem cada vez mais leitores onde apenas podem existir ledores de coisas... Enfim... Julgo que cabe a quem oferece o «produto literário» saber escolher os melhores caminhos, em oposição aos mais fáceis.
    Mas, claro, dirão: Este não é um tema fácil. Pois não. E depois? O problema é fugir ao difícil em detrimento do fácil. Digam não ao lixo literário. Óbvio e transparente. Não me refiro ao que pode vir a ser um fracasso, mas ao que claramente é um lixo literário. Querem editar opiniões, pontos de vista, façam-no numa «revista» de ler e deitar fora; não lhe chamem livro. Não confundam o público leitor chamando livro a uma «mera publicação» de ocasião.
    Há mercado para tudo e para todos; agora não misturem alhos com bugalhos.
    Tenho dito e, claro, nada disse.
    PS: Perdoe-me o meu tom agastado. Bom dia para todos.

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    1. Não teria dito melhor.

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    2. António Luiz Pacheco6 de outubro de 2016 às 07:00

      Concordo!
      Goste-se ou não, parece-me uma análise lúcida e realista.

      Abraço cá da Cidade Morena

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  3. Digamos que a leitura não exige apenas tempo. Exige que o leitor mergulhe no livro. Mais que o tempo falta a atitude. E, por mais que hoje haja milhões de amigos e em cada conta de facebook ou similar pulule um sem número deles sempre pronto a condolências ou parabéns, a aplausos ou incentivos sem sair de casa ou mover mais que os dedos, digo que leitura e amizade têm algo próximo: exigem-nos em cabeça tronco e membros. Não são bens da superfície, medram em águas profundas. Ora andamos a ensinar outras coisas: mais fáceis e imediatas, que conquistam à primeira, estamos a propiciar a aventura amorosa e a perder o caso sério. Mas, quem sabe, um dia a inteligência emocional que também possuímos nos leva ao caminho e à mescla das duas ocupações no tempo certo.

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    1. Emílio Gouveia Miranda6 de outubro de 2016 às 05:22

      O que vale a pena sempre distinguirá a alma grande da pequena - diria, por outras palavras, o poeta. Pois bem. Se a alma é grande, grandes são as coisas que ela busca, melhores as iguarias com que se deleita. Saber a diferença entre preço e valor; entre tamanho e dimensão; entre aparentar e ser... é o que distingue um bom negócio de uma boa escolha...

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    2. António Luiz Pacheco6 de outubro de 2016 às 07:01

      Aplaudo!
      Mesmo que seja desagradável é outra opinião lúcida e realista!

      Mais um abraço cá da Cidade Morena.

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    3. Ora aqui está:
      Mais que o tempo falta a atitude

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  4. Ler hoje em dia tornou-se uma forma de resistência!
    " Não lamento os homens, os homens refazem-se, não lamento o ouro destes tesouros, os tesouros voltam a encher-se, mas quem restituirá a estes povos os anos que vão passando?"
    Diderot

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    1. António Luiz Pacheco6 de outubro de 2016 às 07:05

      Hum... não vou por aí Extraordinário Puck.
      Não me parece que se insira no caso que discutimos aqui como uma forma de resistência - noutros sem dúvida! Porém, no presente parece-me que ler é mais e sobretudo uma forma de diferenciação e uma presunção de atitude!
      Não estamosproibidos nem impedidos de ler... apenas não é moda, digo eu!

      Abraço cá da Morena Cidade e dos seus parentes kazumbis!

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    2. Sabe Pacheco, a história repete-se com demasiada frequência.
      Sobretudo para mim, que tenho a robusta idade dos duendes.
      Quanto ao não se estar impedido de ler ou proibido, depende como sempre do ponto de vista.
      Nesta nossa sociedade economicista, o facto de se trabalhar tantas horas, retira a muito ser, a vontade de ir mais além e como tal de ler.
      O bombardeamento dos bens de consumo rápido, sejam eles quais forem, retira qualquer apetência pelo “cogitare”.
      Também ele transformado num bem de consumo rápido, como os açúcares e afins.
      Até a propriedade intelectual ( e permitam a livre comparação), não é propriedade dos autores, mas dos donos deles. Ou seja, aqueles grandes grupos económicos que engolem tudo e regurgitam a seu belo prazer, numa manipulação desenfreada de gostos e tendências, mas sempre no intuito de esvaziar.
      Basta ver os filmes que andam para aí, os “tops” dos livros mais vendidos(tudo muito bem documentado pelos media)- que pertencem a quem?
      É certo que por altura da”Encyclopédie”, não haveria tantos livros, mas o obscurantismo parece-me o mesmo, só que o actual não vem do desconhecimento, mas sim da perigosa alienação.
      Por isso, citei Diderot.
      Os que não leem porque não querem ou porque não podem, no final acabam todos como escravos de um autocratazeco, que bem pode ser o Trump ou outro qualquer,
      mas com o apelido de cidadão.
      Por isso mantenho, Há que resistir!
      Saudações

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    3. António Luiz Pacheco7 de outubro de 2016 às 01:23

      Concordo com a sua argumentação, evidentemente e até porque é coincidente com a minha própria percepção - mesmo sendo muito mais novo, eheheh!

      O excesso de informação é tão prejudicial quanto a sua escassez... e hoje sem dúvida que assistimos a um excesso dela, que não faz as pessoas mais esclarecidas mas em minha opinião lhes causa antes duas situações e que são confundi-las por um lado e convencê-las de que sabem das coisas por outro.
      Julgar que se sabe é profundamente negativo. Acho eu.

      Daí o que refiro como a grande mistura que se faz quanto ao que é cultura, saber, esclarecimento, gosto pessoal... e que pode ser um sério constrangimento ao nosso desenvolvimento, digamos intelectual.

      Quanto ao resistir, nós a espécie humana somos uma espécie resistente, talvez a mais resistente de toda a criação, ainda que tal custe a assumir aos ecologistas, animalistas e similares.

      Dentre a espécie humana, os leitores são uma classe Extraordinária e das mais resistentes, por definição e porque lêem... diria eu.

      Um abraço cá da Cidade Morena

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  5. Pertencendo ao grupo dos 36% e sem ler o género das sombras de Grey, passo um tempo significativo na internet e apps do smartphone, onde até também já leio ebooks , pelo que desconfio que estejamos numa época demasiado rápida... talvez estejamos sim numa época onde cultura seja um insulto se não for algo intelectualmente medíocre e muito comercial e talvez os motores da sociedade tenham mesmo promovido este lamaçal vendável.

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    1. António Luiz Pacheco6 de outubro de 2016 às 10:48

      Mas... e o que diabo é "cultura" ?
      Alguém me sabe dizer?
      A cultura da batata (Alberto Gardé) é uma ...
      A cultura "san" ... é outra.
      A cultura, sei lá, hitita, clássica, taurina, beat, underground...
      Mas afinal o que é cultura?
      Ah... confunde-se cultura com "saber", com ter conhecimentos, mas mesmo assim ainda é confuso:
      - Um médico pode ser um sábio na sua área e não saber mais nada sobre coisíssima nenhuma! É um homem inculto?
      - Um barbeiro que lê bastante, pode saber muitas generalidades sobre quase tudo... é um homem culto?

      Pois... mas cultura significa para alguns "bom-gosto" no sentido de cultivar aquilo que se pensa e gosta, mesmo sendo limitante.... porque quem seja culto e aprecie música clássica não pode deliciar-se com um bom rock and roll, fica mal... não é "culto".
      Normalmente diz-se que fulano é culto porque ouve música e o máximo se é apreciador de ópera, porque lê coisa profundas, conhece pintura, frequenta teatro onde vê peças incompreensíveis e assiste a bailados em que se contorcem corpos... eventualmente viaja para ir ver museus e edifícios, finalmente ainda debita umas opiniões pseudo-filosóficas! Eis o que é uma pessoa culta... dentro do que conheço e do que oiço dizer.
      Será isto um insulto?
      Bom, talvez seja mais pedantismo que insulto, creio eu.

      A Balbina cabo-verdiana que trabalha a dias, não lê, nem viaja, mas sabe fazer cachupa muito bem, canta que é uma regalo, conhece a vida dos artistas da novela, cusca com as comadres e sabe o que se passa no prédio e no bairro, vai à igreja ao Domingo, bebe umas cervejas com as amigas no vão da escada do prédio com amendoins... tem cultura?
      Claro que tem, a própria, a dela, sem pedantismos nem preocupações sobre o assunto e nem tem de parecer culta, basta-lhe saber ler os rótulos e as legendas, as caixas das revistas...

      Ora bem, onde quero chegar?
      A cultura muda porque é viva - altera-se.
      O que é hoje cultura amanhã não será e ontem não era, seguramente... quem podia imaginar que cultura fosse usar tatuagens e piercings, calças descaídas, t-shirt e barba por fazer num aspecto geral de fugitivo da cadeia? Que não comer carne fosse indício de ser culto?
      Daí, penso eu que também me presumo culto (vanitas vanitatum... até cito os clássicos), que não podemos nem espartilhar nem limitar a cultura ao que somos, fazemos, pensamos.

      Hoje há outras formas de viver, de fazer, de pensar. E cada vez há mais e se divulgam em menos tempo como mais depressa passam!

      Creio que é isso!
      Eu, leio porque gosto de ler e sempre gostei! No papel porque foi ao que me habituei, mas já vou lendo no ecrã e vou ao Google e à net em geral.
      Continuarei a ler. Não para ser culto ou porque sou culto, mas porque gosto de ler quase tudo o que seja livro sobre quase tudo.

      Afinal por um lado querem acabar com algumas coisas porque se acha que não fazem sentido e falam e argumentam com modernidade e evolução, mas esquecem que a modernidade e a evolução, o progresso, também acaba com coisas que não parecendo obsoletas todavia assim se tornam.
      É o preço!
      Isto o progresso e a evolução não são selectivos e ao bel-prazer de cada um, é como uma onda que passa e leva tudo por arrasto!

      Saudações contrariadas cá da Cidade Morena!

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    2. Uau que testamento.... pois para mim cultura tanto pode ir da culinária, à música rock,erudita inclusive ópera, pintura naif ou fruto de tratado académico e muito mais, desde que sirva para elevar o formar quem a faz e quem a consome só não apenas para alienar e degradar a mente.
      Leio porque gosto, mas não é por ler Musil que seria culto, mas algo o distingue muito como Mann, Saramago, Amado, Llosa e até Júlio Dinis e um inteligente e polémico Luiz Pacheco entre outros das histórias de Corin Tellado ou a última obra de José António Saraiva.
      Alguém pode ser livre de gostar da mediocridade em qualquer area, a sociedade até a pode promover (como promove), mas a alienação degradante das capacidades cerebrais de ser humano não é o que caracteriza a cultura e quando alguém, por contestação, tende a não distinguir as águas e promove a degradação só para questionar a cultura e a sociedade vai na onda, não admira que se admirem tristes caricaturas como peças de qualidade como Trump. Tal como o desespero nos cultos pode ter os mesmos efeitos e foi daí que teve oportunidade de florir um certo Adolf no passado.

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    3. - Um médico pode ser um sábio na sua área e não saber mais nada sobre coisíssima nenhuma! É um homem inculto?

      Ó Pacheco, aqui há tempos li, uma frase da Drª. Teresa Guimarães, médica oncologista: No primeiro dia de faculdade, no curso de Medicina, li, uma singular inscrição, no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar: " Um médico que só sabe Medicina nem Medicina sabe" .

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