Esclarecido? Não

Já aqui disse mais de uma vez que gosto de dicionários – e o mesmo é dizer que as palavras me fascinam, o que não é de estranhar em alguém que passa o dia à volta delas. Consulto muitos dicionários – online e em papel – e, normalmente, basta-me abrir na página certa para ficar esclarecida. Mas um dia destes não aconteceu… Por causa de um ensaio sobre o pecado, da autoria de Miguel Real, que publicarei em 2017, precisei de me informar melhor sobre o conceito de «heteronomia» (e tudo vinha a propósito de Kant, claro). Algo precipitada, resolvi consultar um simples dicionário de língua portuguesa, mas a primeira definição de «heteronomia» pareceu-me mesmo estranha (digam-me se sou só eu a pensá-lo): «Conjunto de leis da natureza cuja violência se exerce nas necessidades e paixões.» Esclarecidos? Pois eu cá senti-me muito estúpida, acabando por desistir do dicionário e por ir àquela enciclopédia que, mesmo que nem sempre fiável, é uma boa bengala. Aí, li: «Heteronomia (do grego heteros, “diversos” + nomos, “regras”) é um conceito criado por Kant para denominar a sujeição do indivíduo à vontade de terceiros ou de uma colectividade.» Esclarecida? Agora, sim. Mas continuo a ler a definição do dicionário sem perceber patavina...

Comentários

  1. Percebi perfeitamente: A natureza tem tipo um conjunto de leis violentas, para aí umas quinze, que se exerce, isto é, que coiso nas necessidades ou então nas paixões, dela ou do que está à volta.

    Bem... talvez tudo o que haja a saber sobre heteronomia esteja com cada Fernando, Álvaro, Ricardo, etc.

    A excelente noticia que nos dá é a de Miguel Real ter novo livro.


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    1. Desculpem. Erro meu, a princípio. Agora, como bem reparam, já não penso he-te-ro-no-ma-men-te.

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  2. Realmente a primeira definição é muito complexa...

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  3. Ah, claro! " situação daquele que recebe passivamente de outrem a lei que o governa"

    Começa a fazer sentido. Miguel Real é bem capaz de querer falar-nos desta necessidade/paixão lusitana.



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  4. Emílio Gouveia Miranda9 de dezembro de 2016 às 01:28

    Nada esclarecido.

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  5. Concordo que a escolha do dicionário é muito importante. Neste caso penso que um dicionário de Filosofia será a melhor opção.

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  6. António Luiz Pacheco9 de dezembro de 2016 às 04:01

    Nem por isso, mas depois de se ler a segunda definição, talvez se entenda a segunda...
    Só conhecia heterónimos como os vários pseudónimos ... nem sabia que havia esse nome para o tal conceito Kantiano, fiquei a saber mais uma coisa, portanto, o que é bom!

    Igualmente bom, ou melhor ainda, é saber que vem aí um novo livro de Miguel Real, quem eu muito gosto de ler!

    Saudações contentes e esclarecidas cá da Cidade Morena.

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    1. Ó Pacheco, desculpe lá mas tenho a impressão que está a baralhar "heteronomia" com "heteronimia".
      Se bem aqueci o carburador, creio que são conceitos distintos.
      Abraço.
      J'quim (heterónimo de Joaquim)

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    2. Desculpem. Erro meu, a princípio. Agora, como bem reparam, já não penso he-te-ro-no-ma-men-te.

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    3. Ok.
      Mas “Anónimo” é heterónimo de Pacheco?

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    4. Não. Dá-se coincidência de termos nomes diferentes.

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    5. Quer dizer: a coincidência que se dá é que os vossos nomes não coincidem.
      Certo?

      Se o meu nome fosse António eu adoptaria o heterónimo “Antónimo”, e assim ficava quase, quase a coincidir com “Anónimo”.
      Dá-se, porém, a coincidência de que o meu nome é outro, não coincide.

      Tira-se a conclusão: coincidência que se dá também se pode tirar.
      A heterodoxia é assim.

      Pode parecer um paradoxo, mas deixe-me dizer por outras palavras:
      – Nada de coincidências ortodoxas. A livre heterodoxia é que é saudável.

      E com esta me fico, que, com tanto ox, isto já está a ficar oxidado.

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    6. Heterónomo Anónimo Silva.
      .
      Brinco, naturalmente.
      .
      Até perceber, com a ajuda de Miguel Real, que vem a ser isso da heteronomia que os dicionários nao aclaram, e cuja melhor explicação parece ser, como referiu, a do António Silva, de quem copio o nome de família.
      .
      A Kant, deu-lhe para boa!

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    7. António Luiz Pacheco9 de dezembro de 2016 às 11:30

      Mascagandatrapalhada!
      Eu sou António... não sou anónimo... e nem respondi a nada, foi ele!
      Temos um caso de anonimato e não de antononimato... se é que tal coisa existe!

      Quanto aos heterónimos ser um caso de heteronímia ou de heteronomia... sei lá eu! Só sei que nada sei... e saber isso já não é pouco!!!!
      Eheheh!

      Um abraço para Amarante!

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    8. É isso: o melhor é aquecer o carburador com o Miguel Real.

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    9. Calma, Pacheco. Vamos por partes.

      De facto, “antononimato” não existia, até hoje.

      Mas, graças a que se deu aqui uma extraordinária e heterónima coincidência de trapalhadas entre Anónimo (Silva) e António (Pacheco), o conceito passa a existir.

      Sim! – que não são só Kant e António Silva que têm o privilégio de aquecer o carburador para criar conceitos e trapalhadas, ora essa!

      (Brinco, naturalmente. A mim também me deu para boa…)

      Cumprimentos do vosso antonónimo
      J’quim

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  7. Aí pelos anos 60 a televisão popularizou “A Menina da Rádio”, filme dos anos 40, época em que a rádio era ainda uma novidade tecnológica. A cena que, porventura, mais perdurou na memória popular é aquela em que António Silva, sem perceber nada do assunto, explica como funciona o aparelho de rádio: «O som bate na lâmpada e quer sair, mas não pode. Recua. Vai aquecer o carburador...»

    Ora bem: segundo o dicionário Priberam, “heteronomia” também significa “anomalia”.
    Portanto, para entender este conceito temos de esperar que aqueça o carburador...

    Esclarecidos, não?

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  8. Sem dúvida alguma : a primeira definição ė poeticamente sublime

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  9. Não tenho tempo para ler os tantos comentários que por aqui vão e de certeza que a Rosário saiu esclarecida da sua consulta. Com mais estas adendas, ficou mestre. Mas só lhe digo, que apesar de parecer impenetrável (e até é, para um leigo), a definição do dicionário de português está correcta. A heteronomia em Kant é isso mesmo, uma obediência ou arrastar da vontade para realizar as paixões e apetites do corpo (enquanto natureza) opondo-se à sua autonomia racional que surge como ideal de moralidade. A coesão entre os homens dependeria desse elo racional que, hipoteticamente, subtrairia o homem da sujeição à sua natureza sensível. A liberdade identifica-se com o cumprimento do dever e a ética Kantiana é o exercício da liberdade. Só às vezes - muito poucas vezes, se seguimos à risca o filósofo - nos fazemos livres:)

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    1. Ah, se sabia disto, não me teria despedido do meu cargo, ontem, na firma!

      ( ...ainda brinco. Obrigado pelo seu esforço, Beatriz, creio ter percebido melhor )

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    2. Foi sem esforço:), não deve ter sido uma acção moral, que não me obriguei a nada.

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