Um mês a felicitar
Dezembro dá sempre direito a festas, brindes e felicitações. Ele é o Natal, por norma reencontro de familiares, ele é o fim de ano e os desejos de Ano Novo expressos enquanto se mastigam passas com os amigos… Mas não só: e neste específico Dezembro de 2016 há dois autores que têm razões de sobra para festejar e partir para 2017 de cabeça erguida. Falo naturalmente de Frederico Lourenço, o escritor e tradutor que nos trouxe, por exemplo, as obras fundamentais de Homero e está agora a braços com a árdua tarefa de traduzir a Bíblia do grego (um dos volumes já saiu e, para quem esteja sem ideias, dará um excelente presente de Natal) e que ganhou a mais recente edição do Prémio Pessoa. Falo também de José Luís Peixoto, que arrecadou o Prémio Oceanos (o antigo Prémio PT) no Brasil com o seu romance Galveias, no qual retrata a sua terra-natal, que homenageia com uma prosa sublime e musical. É, pois, tempo de os felicitar e desejar que continuem a brindar-nos com a sua arte no ano que vem e por muitos e bons anos.
Um romance fantástico, merecedor dos mais rasgados elogios. E, claro, de prémios por esse Mundo afora. Magia e tradição de mãos dadas. A ler por quem ainda não leu.
ResponderEliminarBom dia e boa semana.
Já li o "Galveias" há mais de um ano e é magnífico: uma soma de estórias alentejanas de realismo mágico sem que que o menu nos saiba a requentado (e correu grande perigo disso logo com a estapafúrdia queda do cometa, mas cada estória é mais deliciosa do que a anterior e o livro segue num crescendo de maravilhoso). É o romance do José Luís Peixoto de que mais gostei .
ResponderEliminarComprei na sexta feira os evangelhos traduzidos pelo Frederico Lourenço. Já li o Livro de Marcos, frequentado por mim inúmeras vezes em outras traduções, e foi uma bela surpresa: o autor explica como é evidente a partir do texto que o Marcos, sendo fluente em grego, é claramente um romano, o que bate certo com o ter sido companheiro de Pedro em Roma. O Frederico Lourenço apresenta importantes variações das traduções anteriores que são sempre por ele explicadas. Achei muito interessante que Jesus se identificasse como "filho da humanidade" (em vez do anterior "filho do Homem"), assim como de se ter encolerizado (essa é a palavra traduzida do grego) antes de curar um leproso que duvidava que ele se viesse a interessar-se por ele. Novidade foi também para mim aprender no prefácio do Lourenço que o primeiro tradutor da Bíblia para português foi excomungado no século XVII e que teve que fugir para o oriente para não ser queimado na fogueira da inquisição. Era heresia traduzir a Bíblia ! E lembrei-me que na minha infância ainda assisti a missas todas em latim de que nada se percebia... Este é um belíssimo serviço do Frederico Lourenço: ofereceu a todos nós os evangelhos traduzidos por um erudito em grego e em cultura clássica, um erudito com a vantagem de não pertencer à igreja católica e de não ser um prosélito do cristianismo (ainda que esta tradução dos evangelhos seja, a meu ver, um grande serviço à mensagem de Cristo; Deus escreverá direito por linhas tortas?).
Caro Artur,
EliminarMuito obrigado pelo seu elucidativo texto, aguçou a curiosidade.
E sim, Deus escreve em aramaico por linhas gregas!
Não vou esquecer o "Deus escreve em aramaico por linhas gregas" !!!!
EliminarExcelente apreciação à obra Galveias, que li com enorme prazer e cuja opinião corroboro.
EliminarJá quanto à tradução da Bíblia, pelo génio do Frederico Lourenço, espicaçou-me ainda mais o interesse na compra, dia após dia adiado, tendo em conta que este é um assunto sobre o qual muito li já, incluindo partes substanciais da Bíblia a que até agora tínhamos acesso, pelo interesse enquanto objecto literário, mais do que religioso, dado que, tudo quanto fui lendo ao longo dos anos, me remeteu quase exclusivamente para esta visão apreciativa - de objecto de criação literária de grande interesse, precisamente; de um grande livro de histórias míticas e místicas; de um dos primeiros grandes livros maravilhosos sobre uma visão fantástica da existência do Homem na sua relação com o Sagrado, registo escrito de muitos dos mitos orais, levado a cabo por um conjunto de homens e mulheres eruditos, e que muito ganhou com a história de Cristo.
Obrigado pelo seu comentário. Oxalá o 2017 nos traga boas e surpreendentes novas leituras !
EliminarObrigado, Artur. Oxalá, igualmente. Um abraço.
EliminarParecem-me prémios bem merecidos. São dois autores de quem ainda espero bastante.
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