Acordo, desacordo

Aqui há uns anos, quando se «instalou» o malfadado Acordo Ortográfico, uma das coisas que mais celeuma levantou foi o facto de se tirarem os «c» e os «p» em palavras como «acto», «tecto» ou «excepção», por exemplo. Esse rasgão, dizia-se, afastaria as palavras da sua raiz latina («ato» seria igual à forma verbal da primeira pessoa do singular do verbo «atar» no presente do indicativo…). Ficámos todos com a sensação de que o que se pretendia era aproximar a ortografia portuguesa da brasileira e que, de alguma forma, havia aqui um lado de «submissão» do país pequeno ao país maior por razões que agora não interessa explicar (mas não eram as pertinentes). Num livro de um autor português que uma editora brasileira quis publicar, afadiguei-me, pois, a tirar estes «c» e «p» a mais (com o acordo do autor, claro) antes de mandar o ficheiro (e um pouco em troca de não me mudarem mais nada); mas, quando chegou o texto paginado para nossa revisão, vi enfim a tolice daquele propósito do AO de aproximar as duas ortografias… É que eu tinha tirado os «c» e os «p», mas os editores brasileiros voltaram a pô-los em palavras como «expectativa», «perspectiva» e «espectro» (em que pronunciam o «c») e em palavras como «decepcionar», «recepção» e «excepcional» (em que pronunciam o «p»). Enfim, para que foi aquilo, afinal?

Comentários

  1. Acordo.
    Entre que partes intimas?
    Quem, de fa(c)to, o sugestionou? Quem?
    Oh!

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  2. O Desacordo Ortográfico existe apenas para satisfazer as vaidadezinhas de um grupo de imbecis auto-denominados "linguístas"; assim poderão dizer aos netos que são os autores da nova escrita em português.
    Ficou uma salada incompreensível, uma porcaria inenarrável e ilógica que me recusarei, enquanto fôr vivo, a usar (depois de morto logo verei). Fica satisfeita a vaidade das luminárias, fica insatisfeito o povo português, fica um péssimo serviço prestado à nossa língua. De facto.

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    1. Excelente comentário que subscrevo inteiramente.
      :-) Antonieta

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    2. E dois!!!!!

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  3. Emílio Gouveia Miranda23 de novembro de 2016 às 01:24

    Bom dia. Até hoje, do pouco que sei da muita História da Humanidade, não conheço nenhum acordo que apenas tenha gerado consensos, nem nenhum que perdure quando se comprova a sua incorrecção. É apenas necessário deixar passar o Tempo. O Tempo dirá da sua justiça.

    PS: O que menos admiro em qualquer disputa de razões é a prevalência da afirmação dos egos daqueles que gostam de apregoar aos quatro ventos as
    suas causas. E também neste caso tenho visto muito boa gente a colocar-se em bicos de pés. A muitos deles gostaria de perguntar: falar e escrever bem não seriam, só por si, melhores causas? Quantos dos que se preocupam com o AO nunca se preocuparam realmente com a Língua bem falada e bem escrita? Como em tudo, as multidões tendem muitas vezes a perder a noção do que é mais importante, em busca do foco do que é mais mediático.

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  4. Sem qualquer sentido.
    O facto é que, por vezes até me confundo a escrever.
    Não me recuso a comprar livros com o AO mas conheço muitas pessoas que o fazem, felizmente ainda há editoras que se mantiveram fiéis à língua e aos seus leitores (Cavalo de Ferro, por exemplo). Não o faço porque privar-me-ia de boas obras literárias e isso não estou preparada para fazer.
    Todavia, sempre que leio para quando deveria ser pára fico à toa e tenho que raciocinar para perceber que raio se passa naquela frase.

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  5. Nem discuto sobre o AO ... por um lado falta-me saber para poder defender ou atacar, por outro não me ralo, continuo a escrever como aprendi na escola, e está o assunto resolvido... quero lá saber!
    As razões do acordo também me escapam, e já ouvi de tudo... mas não posso deixar passar a afirmação de que quem não saiba escrever correctamente não deve pronunciar-se contra o acordo, coisa de que discordo totalmente!
    Não é preciso ser um perito linguista e gramatical para perceber duas coisas:
    1º Se a matriz é o latim, os c ou outras letras devem manter-se, como se mantêm nas demais línguas latinas!
    2º É fácil perceber e difícil explicar a quem seja doutra língua e aprenda a nossa, que "acto" de teatro ou "ato" de amarrar, são coisas completamente distintas, como facto (argumento) e fato (vestimenta), ou cágado (quelónio) e cagado (borrado), espectador (assistente) e espetador (que espeta) , tal como não se explica porque os egípcios são do Egito e não do Egipto!
    E tenham lá santa paciência que isso são coisas que saltam à vista imediatamente... mas repito: estou-me nas tintas!

    Saudações tintureiras cá da Cidade Morena!

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  6. Nem faço ideia. Só sei que me acho burra e perdida de cada vez que tenho de escrever em Português por razões laborais. Dou comigo a pronunciar as palavras em voz alta a ver se adivinho se é para manter ou retirar as infames consoantes. Como escrevo principalmente em Inglês, e o Inglês que tem mais diversidade linguística do que o Português e não pensa em uniformizações e que mantém todos os radicais latinos, de cada vez que tenho de fazer code-switching é um stress. Isto para não falar da carrada de erros que andam pelo blog a dar triste figura à minha triste figura linguística.
    Ainda gostava de saber por que carga de água diluviana se lembraram de legislar a língua?

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  7. Cláudia da Silva Tomazi23 de novembro de 2016 às 04:49

    Discussão atoa. No comércio (sempre) há possibilidade de adquirir livro estrangeiro, simplesmente a língua original. Sinceramente o "business" calça o pé e, faz chegar a leitura por via exportação, outros países o fazem deste modo. Meus queridos se o Brasil entendesse mandarim...

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    1. Não entendi o que pretendeu dizer.
      Sugere que se leiam escritores de língua portuguesa numa outra língua, caso não concordemos com o AO? É essa a solução apresentada por si?

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  8. «Com quanta magestade e explendor não assomou o sol entre nuvens d'Ouro e purpura sobre o horisonte! A lua do serão, o sol da madrugada dispunhão os nossos espiritos ás commoções mais doces, nem nos faltava um amigo optimo, com quem partissemos gozos, que sós jámais serão completos. Erão oito horas, quando chegámos ao Buçaco. O sol dava de rosto sobre este oceano de folhas, que ferião a vista com o prateado mais vivo.»

    «Muitas vezes temos admirado primores d'arte, que representão este doce enlevo d'alma tão proprio do homem pio e do philosofo; e se no seio da noute, alumiada a terra pelo debil fulgor d'innumeraveis estrellas em um ceo sem nuvens...»

    Adrião Pereira Forjas de Sampaio, "Memorias do Buçaco", 1838


    Morro de desgosto por não poder escrever ortograficamente como em 1838, ou antes, para sentir na ponta da caneta de aparo a alma pura da minha desditosa língua amada.

    ABC

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    1. Mas onde é que, nesse excerto, somos obrigados a voltar atrás na leitura? Onde estão as referidas confusões desnecessárias, absurdas, parvas, de pára com para, cágado com cagado, espectador com espetador, recepção com recessão?

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    2. Congratulo-me com o facto, não com o fato, de o Joaquim não confundir uma catrefada de palavras homónimas, que usa desde a sua escola primária, como por exemplo:

      amo (senhor), amo (verbo amar)
      canto (ângulo), canto (verbo cantar)
      são (saudável), são (verbo ser)

      ABC

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    3. Com origem no latim. Não na cabeça de pessoas que quiseram apresentar serviço e meter ao bolso uns trocos. Decidiram por ali. Se tivessem decidido pela omissão do Agá ou pela "purificação" do Xis, cá para o pessoal estaria bem na mesma. Somos de boa boca. Isto tudo disse o Joaquim :)

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  9. Não sei escrever de acordo com o acordo. E, como outra gente disse acima, não me esforço para. Escrevo como aprendi. E acredito que será o caminhar da linguagem falada, até na aplicação que faz do acordo, a determinar a mudança se ela houver. Até lá, penso noutras coisas.

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  10. Síntese alfabética de duplas grafias

    O número de palavras abrangidas pela dupla grafia é de cerca de 0,5% do vocabulário geral, ou seja, pouco mais de 575 palavras em cerca de 110 000, como evidencia o n.º 4.1 da Nota Explicativa do Acordo Ortográfico.
    De forma a contemplar as oscilações na pronúncia de certos grupos consonânticos, a base iv do Acordo Ortográfico prevê, em determinado número de palavras, o princípio da livre escolha da dupla grafia, distinguindo-se, no entanto, a utilização no português europeu da do português do Brasil.
    Assim, a escolha no caso de dupla grafia deve ser particularmente orientada em função das soluções que apresentem o maior grau de bom senso e o maior respeito pela fonia portuguesa.
    Por seu lado, o artigo 17.º do anexo ii da Resolução do Conselho de Ministros n.º 29/2011 estatui o princípio da uniformidade de expressões ao longo de todo o ato.

    Grafias possíveis
    A
    aspectual
    aspetual
    asséptico
    assético
    C
    carácter
    caráter
    caracteres
    carateres
    característica
    caraterística
    característico
    caraterístico
    caracterizar
    caraterizar
    circunspecto
    circunspeto
    conceptualismo
    concetualismo
    conectividade
    conetividade
    conectivo
    conetivo
    conector
    conetor
    contráctil
    contrátil
    D
    dactilografar
    datilografar
    dactilografia
    datilografia
    didactologia
    didatologia
    E
    espectral
    espetral
    espectro
    espetro
    expectação
    expetação
    expectante
    expetante
    expectável
    expetável
    I
    icterícia
    iterícia
    infecto
    infeto
    insectívoro
    insetívoro
    intersectar
    intersetar
    interseccionismo
    intersecionismo
    L
    láctico
    lático
    P
    perfeccionista
    perfecionista
    perfectível
    perfetível
    preceptivo
    precetivo
    R
    rectal
    retal
    retráctil
    retrátil
    S
    sector
    setor
    sectorial
    setorial
    subsector
    subsetor
    T
    táctil
    tátil
    telespectador
    telespetador
    V
    veredicto
    veredito

    ABC

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  11. Sobre esta "vexata questio" subscrevo inteiramente um artigo que ainda conservo que saiu há tempos no jornal Público do juiz do Supremo Tribunal de Justiça, Sebastião José Coutinho Póvoas. Em resumo diz ele que o Acordo não está legalmente em vigor porque nem todos os países o ratificaram, logo, a Resolução do Conselho de Ministros que o aprovou é ilegal. Como se vê não houve unificação ortográfica nenhuma como claramente provam os brasileiros. Uma trapalhada que só prejudica a língua. Só lamento que as Editoras tenham caído no logro de adoptar uma coisa claramente ilegal .

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  12. Sempre me admirou o ardor da militância anti-Acordo. Tem um aspeto positivo: quer dizer que somos agora quase todos alfabetizados, a quem custa mudar. É humano. Estou até convencido que o retrocesso daria um magnífico trunfo eleitoral a um qualquer populista, uma espécie de Trump.pt que por aí surgisse e se lembrasse de pegar no tema. Não se esqueçam é dos jovens que já só sabem escrever assim.
    Ah!, Blondwith... disse que o inglês tem maior riqueza linguística que o português. Será verdade?

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  13. Para, do verbo parar, necessita de acento? É o NAO que o impõe? Pode alguém esclarecer-me?
    O senso que me é mais comum diz-me que, sendo uma palavra grave, segue a regra, não leva acento. Não há confusão com o outro "para", visto que também não há entre sede (vontade de beber) e sede (lugar onde sentar-se; local onde está instalada uma instituição), por exemplo.

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  14. Estive fora e não pude entrar no debate. Que pena ! Sou cem por cento a favor do AO. A sua regra é simples e imbatível: só se escrevem as palavras que são lidas, mesmo que com alguns erros pontuais. Por exemplo, continuo a escrever Egipto porque leio o p. A próxima revisão vai tirar os agás iniciais, como já fizeram os italianos em uomo. Ah, os italianos ! Essa gente inculta que desrespeita a raiz latina da sua língua. Eu não sou um jovenzinho, antes um velhote que já passou por várias revisões da ortografia.

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  15. Se quiséssemos respeitar a origem latina, teríamos de escrever, por exemplo, victima e manuscripto. E mais outras coisas de que não me lembro agora.

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