Perversões
Ouvi um dia Francisco Balsemão (FB) dizer numa entrevista, depois de confrontado com a mediania (para não dizer pior) da programação televisiva, que a sua televisão (a SIC) dava às pessoas o que elas queriam. Achei a afirmação bastante perversa. Em primeiro lugar, porque é de um grande pretensiosismo alguém (FB no caso) arrogar-se o direito de conhecer os desejos alheios. Em segundo lugar, porque tenho a certeza de que FB não vê quase nenhum programa da SIC (basta estar minimamente informado do seu percurso para o deduzir – e, logo, para deduzir que não se inclui no grupo de pessoas de quem fala). Em terceiro lugar, porque me parece mais acertado pensar que as pessoas vêem não o que querem, mas o que lhes dão – embora isso possa tornar-se, a curto ou médio prazo, aquilo que realmente querem ver; e digo isto porque, nos tempos em que a televisão era outra coisa, a minha mãe tinha a trabalhar lá em casa uma rapariga praticamente analfabeta que, ainda assim, não perdia às terças-feiras uma única Noite de Teatro. Não eram, evidentemente, peças de Brecht ou Shakespeare, mas não deixavam por isso de ter por base textos bem escritos e enredos ricos e estruturados com rigor. Ora, hoje seria impensável passar na televisão em horário nobre uma peça de teatro (embora não fosse má ideia usar os actores de telenovela mais apreciados para dar a conhecer às tais pessoas em que FB não se inclui alguns textos e dramaturgos importantes). E com os livros passa-se um pouco a mesma coisa: publicam-se livros muito maus alegando que as pessoas os querem ler, quando afinal talvez as pessoas os leiam apenas porque eles são publicados. Acredito que, também neste caso, quem os publica não faz deles livros de cabeceira. Mesmo que possa estar a exagerar e a atitude de quem decide tenha sobretudo como objectivo o negócio, não estarão os decisores a criar populações estáticas e sem capacidade de reacção para, no caso de ser preciso, um dia as poderem dominar?
Muito bem. Mas a nossa atitude tem de ir para lá da crítica. Temos mesmo de os incomodar nas suas cúpulas, de forma inteligente. Preocupo-me com isto há alguns anos, e parece-me claro que as televisões têm o maior e o mais descontrolado e desregulado poder da sociedade actual. E se é o sensacionalismo que vende, então que se vendam livros de forma sensacional. E se quiserem fazer dos EUA a bitola, vejam lá o que passa em horário nobre: bons talk shows, boas séries, bons filmes, boas entrevistas, devidamente promovidas. Acontece que para isso temos de trabalhar. Todos os dias.
ResponderEliminarEstou inteiramente de acordo, só quero sublinhar o seguinte:
ResponderEliminar(1) Pior é a televisão pública, paga com o dinheiro dos contribuintes, concorrer com as privadas, lixo contra lixo. Pior ainda é o 2º canal fazer o mesmo. Continuo à espera da viagem à volta do mundo que o encerramento do Acontece pagaria a cada português.
(2) As editoras apostam no lixo e depois queixam-se de que não há leitores.
A última frase do post levanta uma questão/probabilidade altamente preocupante...
ResponderEliminarEstou plenamente de acordo com a sua opinião. Quantas são as vezes que ouvimos um genuíno (que por vezes não o é) "vi aquilo porque não estava a dar mais nada de jeito". Admito que o ser humano tende a ser algo preguiçoso em algumas vertentes, entre as quais esta do entretenimento e, assim sendo, é muito fácil acabar por aceitar o que nos "dão à boca"... A mim preocupa-me deveras essa pobreza que assola a televisão generalista...
No caso da edição, será mais ou menos a mesma coisa. O argumento parece ser o de "publicar que o público quer". Seria importante dar-lhes sim a oportunidade para escolher... não será antes isso que ele - o público - quererá?...
Justamente!
ResponderEliminarRecordo uma colega de liceu (já no antigo 7º ano) que não via TV porque dizia ser alienante... e que não lia, nem ouvia música nem fazia outras coisas (incluindo frequentar cafés) pelas
mesmas razões... ou seja estava alienada em não ser alienada, se é que me estão a perceber o raciocínio...
De facto creio que há uma eterna cultura de se
alienar o povo, que vem pelo menos desde o tempo dos romanos (pão e circo)...
Hoje, quem tenha TV Cabo pode escolher nos canais, ver o que lhe interesse... ainda que sejam
telenovelas... e não me passa pela cabeça que serei eu a decidir o que as pessoas devem ver!
Mas, de facto, como a Autora deste Blog diz... SE
é possível conduzir as pessoas, podia fazer-se um pequeno esforço, não em as conduzir, mas antes em lhes proporcionar um leque alargado de escolhas... creio que dessa forma se evoluía no bom sentido.
Tanto nas TV como nos livros... tenho uma enorme dívida de gratidão para as "Selectas Literárias", obrigatórias no meu tempo de escola e liceu. Faz falta esse tipo de divulgação que nos abra horizontes e mostre o que há!
Lembro com saudade essas noites de teatro (creio que eram à Quinta-feira) onde vi peças como "Os Velhos" ou "As Árvores Morrem de Pé"... e me ajudaram p.e. a perceber que no teatro há géneros, uns de que gosto e outros não! Como em tudo, de resto...
Queria deixar uma pergunta à Maria do Rosário.
ResponderEliminarEstando o canal 2 à mesma distância da TVI, por que raio o dedo das pessoas cairá sempre sobre o botão que vai ligar à segunda?
Rafael
Sobre as TV
ResponderEliminar- Uma pessoa de rara inteligência, sugeriu-me que fosse sucinto... tentarei ser!
(Difícil porque sou neto de um advogado que foi conhecido pela retórica... saí a ele!)
A telenovela !"Espírito Indomável"... é boa e bem
representada, no meu humilde entendimento!
MAS:
- Não espelha a nossa gente e nem o nosso Mundo Rural (eu sei... porque faço parte dele e
até se se quiser dessa elite familiar...)
Fica o alerta... e sobre aquilo que muito bem diz a autora do blog... cuidado! Muito cuidado... está-se a ultrajar e a perder um histórico cultural e a memória de um povo! Nós não somos nem nunca fomos assim! De todo e absolutamente ainda que isso agrade ao BE e ao PCP ...
Se me permitem... e nem os cavalos que fazem sombra...
Assino-me como sempre como eu mesmo:
Antóio Luiz Pacheco
Desde que há televisão que me lembro de questões como estas se colocarem. Mas o comentário assinado por Rafael já disse uma parte do que queria dizer.
ResponderEliminarO que me parece é que há uma nítida regressão em direcção à barbárie, por todo o mundo, não apenas em Portugal. Basta ver os ministros e presidentes da Europa Ocidental. Presidentes que se orgulham de não ler livros (e não estou a falar do nosso). Leiam o último Umberto Eco publicado entre nós e está lá o suficiente para nos aterrorizar.
Por outro lado, se houvesse programas que exigissem um pouco de raciocínio, quantos espectadores haveria capazes de o acompanhar? Quantos alunos que hoje acabam o 12º ano são capazes de interpretar correctamente um texto? E quantos dos (des)governantes europeus o sabem fazer?
Nestes últimos dias reli os pensamentos de Marco Aurélio e até me assustei como em menos de 2000 anos conseguimos regredir tanto.
não acho que sejam universos comparáveis, a televisão e a literatura.
ResponderEliminara televisão vive das audiências, que ninguém percebe muito bem como funciona e de que quase todos nós desconfiamos.
em relação aos livros, é mais fácil saber os que se vendem e não vendem.
claro que se vende muito lixo. mas vende-se...
Não são Universos comparáveis? Mas cruzam-se!
ResponderEliminarRepare-se a promiscuidade entre as "caras" do Mundo da televisão, que se intrometem pelo da
literatura, constantemente... porque comentam
livros, porque os escrevem (hoje vulgar).
Por outro lado, há caras do Mundo da literatura
que se tornam comentadores e por conseguinte
"caras" na televisão...
As pessoas que lêm, com assiduidade e com critérios, normalmente vêem pouca televisão...
As pessoas que são viciadas em televisão... quase não lêem... e o que lêem é da autoria das
tais caras de televisão.
Ainda ontem, parece loucura, mas fui de Santarém com um amigo de Tomar, jantar a Vila Real! Com um grupo de caçadores que constitui uma tertúlia que lê e escreve, participa num portal de caça e se formou graças à internet, o que pela sua distribuição de Angola ao Ribatejo, passando pelo Brazil, Porto, Trás-os-Montes, seria de outro modo difícil... um deles, além de autor conhecido tem a maior biblioteca de temas de caça de Portugal e quiçá Península, sendo ainda um destacado transmontano e médico, senhor de alguma idade mas espírito notável!
Pois um dos participantes, engenheiro de formação e homem culto, admitiu que desde que há algum tempo se habituou de tal maneira a ler no computador que já quase não lê! E pior,
desde que por comodidade instalou uma tv no quarto... deixou práticamente de ler! Vícios que decidiu corrigir em 2011... motivado por um livro recentemente editado por outro participante...
Ora como se pode pensar que são universos distintos? Na minha humilde opinião, mas firme
convicção, TUDO se liga, sobretudo hoje em dia e como vimos, pela rápida circulação e divulgação da informação nos actuais meios multimedia...
Aliás o tal jantar foi disso a prova, pois que os
"cibernautas" reunidos neste jantar decidiram criar um grupo de trabalho que vai fazer uma coisa inédita mas que se crê fundamental em prol da cultura cinegética: - Um glossário de todos os termos usados na actividade venatória ou com ela ligada, que são muitos, de Norte a Sul e ilhas... ficando-se de alargar a participação a outros confrades do Alentejo e ilhas, que não puderam estar presentes, isto porque a internet o vai permitir!
E o tal diccionário ou coisa parecida, vai ser depois editado em livro... vamos a ver como!
Goste-se ou não... é cultura e preservação da nossa cultura, pela riqueza linguística que estamos a reunir e a divulgar, e, a preservar!
E mais uma prova da mistura ou cruzamento que existe... como se pode pensar que não?
Cumprimentos
eu quando dizia que não eram comparáveis, referia-me ao funcionamento do "negócio".
ResponderEliminarna televisão a nossa escolha do produto tem a ver apenas com o carregar do botão, para mudar de canal ou até com o desligar a televisão. raramente é uma escolha pessoal, como sucede quando compramos livros, em que só compramos o que queremos...
Sim compreendo... e de certo modo pode ter razão, mas confesso que para mim continua a haver alguma analogia... e que a TV/Imagem está a substituir o livro, falo do grande público evidentemente.
ResponderEliminarÉ que também o "liga-desliga" acontece nos livros, o "zapping" tem equivalente na "ronda das livrarias" que se deve simplesmente ao que se faz de merchandsing.
As livrarias devem mudar a exposição com frequência e fazer rodar as capas, o que motiva essa nossa volta de vez em quando, e não só pelas novidades...
Nunca reparou nas muitas (e ainda bem) pessoas que ficam no corredor da livraria, nos hipers?
Penso por isso que mesmo o "negócio" é comparável e o marketing mix diz que sim... e
hoje em dia com a proliferação de canais e as tv temáticas, só não escolhe quem não quer! Pode é a escolha coincidr com aquilo que "nós" gostamos mas isso é outra questão...
Cumprimentos