Nem tudo é o que parece

Já ouvimos dizer mais de mil vezes que as aparências iludem e que nem tudo é o que parece. O título deste post é, de resto, semelhante ao de um bem divertido livro de contos da uruguaia Carmen Posadas (Nada É o Que Parece), de quem já falei neste blogue e que, curiosamente, inaugurou o Fórum da FNAC do Chiado com o lançamento do seu segundo romance (o primeiro publicado em Portugal) Pequenas Infâmias – romance no qual também existem bastantes coisas que parecem o que não são. Mas, mesmo confiando na sabedoria popular, a verdade é que sempre achei que a maioria das palavras da nossa língua combinavam bem com a coisa ou ideia que representam – e, a este respeito, daria como exemplo o vocábulo «fofo», com qualquer coisa de onomatopeico, que não pode ser mais elucidativo daquilo que realmente significa. E, contudo, há duas palavras que sempre achei estarem nos antípodas do que significam e, talvez por isso mesmo, sejam cada vez menos utilizadas, quer pelos escritores, quer pelos meros falantes do português. Uma delas é a estranhíssima «pulcritude», que cheira logo a coisa apodrecida e malcheirosa, mas quer dizer, nem mais nem menos, «beleza». (Aqui para nós, prefiro que me chamem feia a que alguma vez se refiram à minha pulcritude.) A outra é a não menos surpreendente «alacridade», que associo logo a gente alarve, bruta e mal-educada e é, afinal, fundamental para a nossa vida, pois significa simplesmente «alegria» (se virmos bem, a raiz é, de resto, a mesma para os dois vocábulos). Assim sendo, o melhor é continuarmos a confiar nos ditos populares, porque é mais do que certo que, como noutras coisas da vida, também na língua portuguesa as aparências iludem – e muito.

Comentários

  1. não são, de facto, palavras muito bonitas. mas lembram-me, uma e outra, coisas bonitas: a horaciana Mater Pulchra Filia Pulchrior que serviu de título a uma sátira de Augusto Gil (parece sempre que ouço a voz do Villaret a dizê-la); e o "bichinho álacre e sedento", do famoso poema de Gedeão.

    não sei se já tinha comentado aqui, mas aproveito para dizer que sou fã fidelíssimo das suas horas extraordinárias. como já era da poesia.

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    1. Obrigada pela fidelidade e por partilhar essas belas reminiscências.

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  2. Este texto trouxe-me à memória dois episódios.
    1. A propósito dum intercâmbio internacional da turma da minha irmã, mais nova que eu quase 10 anos, recebemos um rapaz francês na nossa casa durante duas semanas e durante duas semanas o ouvimos repetir a palavra ‘camisola’ que aprendeu e adorou. Foi uma tortura aturar o moço pois durante as refeições, no carro em passeio e até durante o banho, ele se assemelhava à anedota do repete, repete, repete e ainda hoje a menção à palavra traz-nos à memória o Anthony.
    2. Em determinada altura da minha vida trabalhei com uma colega cuja vida pessoal era um drama, com um marido violento que quando se exaltava e a ofendia. Uma infeliz ocasião assisti a um destes momentos onde ele, por entre ofensas típicas e conhecidas que não vou reproduzir, acrescentou ‘altruísta’ à lista de ofensas. E fez mais, repetiu, com ar de desprezo. O momento não era adequado mas foi precisamente ela quem, depois de ele se ter ido embora, comentou o facto e nos fez rir.

    Há palavras lindíssimas e outras nem por isso, questão que, felizmente, é muito subjectiva, pois só assim se consegue o uníssono de explorar o dicionário (maravilhoso livro!) na sua plenitude. Há palavras que são ‘a cara’ do seu significado e outras que parecem antónimos, como por exemplo, ‘desenho’ (se for dita devagar sente-se o carvão a passar na língua) ou ‘regabofe’ que me custa interiorizar como festa ou divertimento e me é desagradável.

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  3. E "inócuo", do conto de Vergílio Ferreira. "Fofa", "fofinha" mostram também como a nossa língua se presta a equívocos de outra natureza:
    --- Ela é tão fofinha, não achas? -- pergunta-me uma colega sobre uma aluna nossa.
    E eu respondo que ainda a não apalpei, nem posso...

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  4. Posso ser eu hoje a fazer o papel de editora?

    "a verdade é que sempre achei que a maioria das palavras da nossa língua combinavam bem com a coisa ou ideia que representam"

    Não deveria ser "combinava" e "representa"? Embora tenha dúvidas no segundo caso, por algum motivo, o "representam" soa-me melhor.

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    1. Qualquer uma das hipóteses é aceitável: num caso o verbo concorda com "a maioria", no outro com "as pessoas". A professora Inês Duarte dava o seguinte exemplo: "A chávena partiu-se" / "a chávena entornou-se". No primeiro caso considera-se o continente, no segundo o conteúdo. Pode consultar com proveito Áreas Críticas do Português, de João Peres e Telmo Móia. Não posso garantir, porque o meu exemplar sumiu, levado por algum amigo, mas creio que mostram que a concordância de MRP é a que os nossos gramáticos recomenda.

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    2. Onde escrevi "pessoas" deveria ter escrito "palavras". As minhas desculpas.

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    3. OK, fiquei elucidada, obrigada.

      Confesso que "representa" não me soava tão bem como "representam", como aliás referi no comentário.

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  5. Não é propriamente um comentário. Tenho lido livros da Editora LeYa no Brasil. E a pergunta que faço à propria dona deste blog. Por que a Editora não publica seus livros no Brasil? È muito díficil achar seus livros de poesias por aqui. Sua poesia é belissima, tocante. Mas só tenho um livro que não paro de ler. Aguardo ansiosamente que alguma editora lance todos os livros de Maria do Rosario no Brasil.

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    1. Oh, mas que simpatia a sua. Gostava de poder ajudar, mas não me sentia bem de publicar meus livros na editora onde trabalho...

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