Aconselhamento

Quando acabei o curso na Faculdade de Letras (e é melhor nem pensar há quanto tempo foi), senti um enorme vazio. Não que tivesse aprendido lá mais do que aprendi com os livros, a vida e as muitas pessoas com quem me fui cruzando, mas, talvez até pela época em que fui universitária, foi na Faculdade que senti que me abriam os olhos e me mandavam ver de tudo. Ficava, por isso, uma sensação estranha de que doravante não tinha quem me aconselhasse livros, filmes, peças de teatro ou exposições e de que, sozinha, não iria conseguir separar o trigo do joio. Quando, ao falar com ex-colegas, percebi que não era a única que o temia, o vazio foi-se enchendo naturalmente. Julgo, mesmo assim, que é para rechear esses ocos existenciais que todos os anos os nossos jornais (e, afinal, os de todo o lado) se apressam a compor listas de livros, filmes, discos, etc., enumerando o que de melhor os seus leitores podem (ou puderam) consumir no ano que passou. E, correndo o risco de dizer que, decorridos alguns dias, já a ninguém importará o que leu, a verdade é que, cruzando informação, aparecem aqui e ali denominadores comuns que ficam na memória e se colam aos nossos desejos de ter, ler, ver e ouvir. Por mais que o tempo passe, a verdade é que todos gostamos de ser aconselhados.

Comentários

  1. Os conselhos de leitura que nos vai deixando aqui, são certamente a principal razão das visitas ao seu blog. Os seus conselhos valem muito mais do que as listas dos melhores livros o ano transacto.
    Até porque, se calhar nas listas dos melhores livros que saem nos jornais, o principal critério pode ser (será?) as vendas durante o ano, ou será a qualidade dos mesmos?

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  2. António Luiz Pacheco6 de janeiro de 2011 às 06:19

    Percebo e creio que o que a Drª Mª do Rosário sentiu, pode ter sido reflexo do seu curso de letras ou mesmo do meio em que se desenvolveu.

    Julgo que sempre fui escolhendo eu mesmo o que lia, porque desde pequeno que me atraíam os livros e até antes de saber ler, passava horas no salão, onde está ainda a biblioteca que foi de meu avô, e se não lia, folheava deliciado as páginas e via as fotos e gravuras de Os Grandes
    Dramas da História, Enciclopédia pela Imagem,
    História de Portugal, a História Natural... e quando aprendi a ler, foi um fartão porque finalmente tive acesso a tudo isto... meu avô era
    advogado e homem da cultura, quer da música quer das letras, minha avó desenhava e minha
    mãe foi violinista,cá por casa passavam nomes
    como António Saúde, Belo Marques, Anjos Teixeira (pai e filho) Luis Silveira e os filhos que eram músicos ou pintores... e havia sempre a sombra da tia Augusta Cordeiro que foi actriz de teatro... nós mesmos em garotos, nos 3 meses que duravam as férias escolares, grande parte passadas aqui na quinta, entre irmãos e primalhada, mais os inevitáveis amigos, fazíamos peças de teatro, que ou escrevíamos nós mesmos ou íamos copiar algures...

    Por isso creio que a minha leitura foi sempre, ou muito influenciada ou guiada desde cedo pelos meus próprios interesses... depois no liceu (Oeiras) era natural que participasse de grupos conforme os interesses, e havia um clube de leitura, fundado pelo João Freitas Branco (filho) e o António Saraiva (filho do professor do mesmo nome)... lembro-me por exemplo do impacto que teve nos nossos 17 anos, "Amar não é pecado" de Grace Metalious... ou seja a leitura seguiu... como seguiu comigo no curso de ciências agrárias... e nunca a deixei nem me deixou. Aproveitei sempre as minhas deslocações ao estrangeiro e as ajudas de custo, que poupava comendo hambúgueres, para ir a livrarias e reservava sempre uma parte de um dia, nem que fosse a hora do almoço para ir a livrarias e ir trazendo comigo ao longo de muitos anos, aquilo que por cá não achava ou custava 3 vezes mais!

    Ou seja, Lapalissianamente cada caso será um caso... e pergunto-me se de facto a leitura e o gosto por ela, advém:
    - Do ambiente em que nos formamos?
    - Está-nos na massa do sangue?
    - Aprende-se?

    Se calhar... é fruto disto tudo, acredito que
    havendo acompanhamento e orientação ela se
    pode revelar, mas duvido que por melhor que sejam o tal acompanhamento e orientação, ela
    se ganhe só por isso... acho que é inato!

    Um bom dia a todos! Hoje estou particularmente bem disposto pelo cabritinho serrano do jantar de ontem, em Vila Real!

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  3. Cresci numa casa onde não havia livros, li todos os que existiam na pequena estante da sala de aulas e ainda repeti alguns, quando mudei para uma escola maior a biblioteca também era mais recheada, fui comprando os meus livros, tanta teimosia levou-me a um curso de letras. E, se não sinto saudades de extensas listas bibliográficas que poucos liam mas que me formaram, os conselhos de leitura/filmes/peças e até esplanadas dos colegas, desses ainda sinto saudades, não há nada igual (não escrevi "melhor", porque eram diferentes e irrepetíveis, outra coisa). Hoje em dia essas listas são outro tipo de aconselhamento, não sãs ignoro, mas sinto falta de pessoas próximas a falar de livros, há cada vez menos interessados no tema?!

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    1. A avaliar pelos muitos que se juntam aqui neste "espaço" extraordinário ainda há, felizmente, muitos interessados no tema! Podia ser interessante se um dia destes a MRP tivesse a paciência de organizar um encontro/tertúlia!...

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  4. Nos nossos dias, talvez seja preferível moderar os aconselhamentos. Pode haver alguma alma muito bem intencionada - mas assustadoramente desprovida de discernimento, gosto e conhecimentos - que se ponha a recomendar José Rodrigues dos Santos e Miguel Sousa Tavares como grandes escritores... porque os seus livros têm muitas páginas!

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  5. António Luiz Pacheco7 de janeiro de 2011 às 06:24

    De facto diz o povo que "Conselhos dá-os quem
    pode e ouve-os quem quer!".

    Neste "pode" está talvez o cerne da questão.

    Aconselhar pede sensibilidade, conhecer bem o que se aconselha e ter uma idéia q.b. sobre a quem se aconselha... e antes de se fazer o que oiço frequentemente "Já leu X? Ai, devia ler!"...

    Ora há que ter em conta se o livro se adapta à
    pessoa, ao seu nível cultural ou académico e à idade, que tem a ver com os interesses...

    Como já se viu e falou aqui neste blog, há uma diversidade imensa, e há que perceber que a bota tem de dizer com a perdigota...

    Falando nas crianças... achoa que não há nada como começar por lhes contar histórias de todo o tipo, não as que os pais gostam mas de todo o género, eles logo elegem as preferidas e por aí se começa a perceber os interesses delas.

    Mas isto infelizmente, na vida moderna quem é que o faz ou mesmo pode fazer (ou quer...)?

    Cá em casa, entre filhos, sobrinhos e sobrinhos-netos já existe essa tradição, a de ler histórias até às vezes representando (fazendo vozes) e é engraçado como desde pequenos eles vão elegendo as preferidas e revelando tendências para o João Pateta... dos animais cantores... do Joli o cão francês que bela caçada fez... porque se deixarmos isso nas mãos de professores e educadores, outras tradições se perderão, é a desaculturação e a desarmonização familiar...

    Enfim, penso eu...

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