Profissionalismo
Debato-me muitas vezes interiormente com a questão de saber se exerço a minha função com o desejável e exigível profissionalismo. Será um bom editor aquele que procura e identifica o talento do escritor e o revela depois ao público, dentro de um cânone mais ou menos estabelecido pela Academia, ou aquele que responde melhor aos desafios que lhe são apresentados pelo patrão ou a entidade que o emprega e que, como referi no meu post anterior, se prendem mais com o negócio do que com coisas como inovação, qualidade ou intemporalidade? Embora já me tenham descrito como «caça-cabeças da literatura portuguesa» e outros epítetos ainda mais engraçados («preparadora física da selecção nacional», por exemplo), não raro antevejo para mim um futuro negro, no qual não há leitores suficientes para o que hoje reputo de um bom livro (o que resultaria quiçá no meu despedimento). Tento, por isso, conciliar a edição desses textos evidentemente literários e susceptíveis de agradar aos intelectuais com a de outros que, num país como o Reino Unido, apareceriam na categoria Commercial Fiction, capazes de chegar a leitores menos experientes e menos exigentes (mas sempre com o cuidado de eleger apenas aqueles cuja estrutura, desenho de personagens e linguagem seja irrepreensível, porque o fácil ou acessível não tem de ser sinónimo de mau, mesmo que alguns o advoguem e não queiram dar o braço a torcer). Com estes últimos, tenho a esperança de fazer leitores que um dia se atirem aos primeiros (os que realmente gosto de ler e publicar). Mas seria uma melhor profissional se os não fizesse? E sê-lo-ia ainda melhor se excluísse os que terão cada vez menos leitores, a avaliar o estado de (des)educação em que nos encontramos?
Não, acho (humildemente, só conhecendo livros e autores que deu à estampa) que deve continuar a fazer exactamente o que faz. O seu profissionalismo (estou crente nisto) faz mais leitores, talvez não no imediato mas a seu tempo... Mas percebo esse medo, ao olhar para as estantes de uma livraria...
ResponderEliminarOs medos são naturais em todo o lado e em todo o lado temos que procurar o equilíbrio, sem quebrar princípios, embora considere que é cada vez mais difícil fazê-lo. Também eu tenho os ‘meus’ bons livros que não são necessariamente os mesmos para os meus vizinhos, mas o que é preciso é ler. Ainda há dias aqui conversávamos sobre banda desenhada, quantas vezes tão mal acarinhada e quantas vezes tão preciosa.
ResponderEliminarPela proximidade tenho ajudado a construir dois leitores desde a infância; um deles, com os seus actuais 20 anos, aproxima-se cada vez mais de mim nas eleições espontâneas e o outro, com 16, tem desvarios que me fazem rir, mas continua a ler, cumprindo o grande objectivo.
No fundo, os editores têm que nos dar tudo. Bem sei que é exigente, mas é verdade, até para não se cair na questão de fundo do último post, sobre o que alguém dentro das caixinhas mágicas decide o que havemos de ver na televisão.
Como dizia Pessoa e como explica Murilo Carvalho nas primeiras páginas de O rastro do Jaguar, a identidade das pessoas com a sua língua é muito profunda, razão pela qual devemos ter os clássicos portugueses como andarilho, como se fossemos bebés e não soubéssemos andar. Nesta linha, sabemos também que a introdução de novos alimentos se faz cadenciadamente, novos sabores, novas químicas da natureza feitas comida com cores, texturas e efeitos diferentes, todas necessárias; é assim que entendo a leitura: portuguesa e estrangeira mesclada, prosa e poesia, lida e ouvida, em silêncio e em polifonia partilhada.
O trabalho do editor é proporcionar este mundo ao leitor, um mundo de escolha de cada um, de selecção individual, de acesso e disponibilidade, do novo e do velho, do marcante da nossa história, nossa no sentido universal. Para além disso, tem que haver também um trabalho ‘editorial’ em casa, no caso dos leitores mais novos, que incentive à leitura e que proporcione a existência, ou o acesso em bibliotecas públicas, àquilo que não lhes salta imediatamente aos olhos; há que girar os braços bem alto e quando eles perguntarem se estamos a fazer ginástica, respondermos que não, que somos moinhos de vento, mas também podemos ser gigantes. A escolha é deles.
Peço desculpa pelo tamanho do comentário, mas para concluir quero dizer que talvez o seu trabalho seja bom precisamente porque faz estas reflexões e se coloca estas dúvidas. Poucos são capazes de o fazer.
Se me é permitido fazer comparações, eu que já vou nos 55 anos, digo-lhe que num dado momento TODOS os que tenhamos consciência nos debatemos com ela, e portanto com essa questão...
ResponderEliminarDeixem-me dizer-lhes que entre os 30 e os 40 anos, fui alto responsável numa grande cadeia de distribuição, para onde fui cheio de vontade de fazer coisas e no melhor espírito de missão... ali me desenvolvi e té formei, como contribuí bastante para o crescimento da empresa que se tornou um monstro... e por consequência a ter demasiado impacto na vida das pessoas com quem tinha relações comerciais... e aí surgiu a tal consciência e me fiz a mesma pergunta...
Até que ponto eu devia à organização que me pagava, fidelidade bastante para fazer coisas que eram contrárias ao meu sentir e pensar?
Chamem-lhe "profissionalismo", insensibilidade
ou o que quiserem... para mim é mesmo uma questão de consciência... e de conseguir ou não
continuar a justificar o ordenando sem nos violentarmos diáriamente...
O fim desta curta história fica ao cuidado de cada um... talvez seja um dia tema para um romance...
MAS e sobretudo aquilo que a Drª Mª do Rosário diz, devia ser tema de reflexão, talvez nem tanto num blog de literatura... mas numa cadeira de um curso de gestão! Era bom que quem tenha poderes de decisão e de influenciar a vida dos outros mosrasse essa sensibilidade e que possui cosnciência, ficávamos todos bem melhor e mais descansados...
Cumprimentos a todos
A questão da "deseducação" é fundamental. A Escola também está contaminada: achou que havia de ser igual ao "mundo" cá fora e imediata como ele... apagou a memória da sua identidade. O problema, como diz Silvina Rodrigues Lopes, é o do "alisamento", da "homogeneização". E não acredito nada no valor de afirmações como "o que é preciso é ler seja o que for" e "depois passarão para outras leituras". Pelo contrário: quem se habitua (vicia) num certo tipo de leituras fáceis e ocas cada vez se afasta mais da vontade de ler os livros imprescindíveis, essenciais. Não endeuso a palavra leitura. Há leituras que valem zero ou menos. E, no entanto, como diz Vergílio Ferreira, "o encontro feliz com um livro é combinado fora de nós".
ResponderEliminarO tema continua a interessar-me muito. Como eu já disse a alguém, que me explicava que o que vende é o sensacionalismo, seja em que lado for, "é preciso vender a qualidade de forma sensacional". Nem sempre a qualidade exclui as massas. Quase nunca, aliás. Permitam-me dar um exemplo radical, que me tem servido de paradigma da depuração (a um ponto que, às vezes, confunde os menos atentos): Askildsen . Portanto, o que é preciso é reflectir em formas de vender bem a qualidade. Ligar melhor as editoras com as estruturas mediáticas para que a cultura possa ocupar o lugar que merece. Olhar para os melhores, fazer como eles.
ResponderEliminarImagino é que possam ocorrer conflitos graves entre a consciência do editor e os interesses comerciais da casa editora. Por exemplo, gostaria de trabalhar com o José Rodrigues dos Santos?
ResponderEliminarAtrevo-me a pensar que poderia ser um desafio interessante para a Maria do Rosário Pedreira... quando não tivesse mesmo mais nada que fazer, ou nada (de jeito...) para ler ou por mero passatempo. De qualquer modo, julgo que o resultado seria a extinção da criatura da "sopa de peixe" na sua triste versão de "escritor".
EliminarMas com isso, e com eventual sacrifício e sofrimento para a Maria do Rosário Pedreira, todos ganharíamos!...
A sua questão de saber se exerce a sua função com o desejável e exigível profissionalismo, é uma questão que todos devemos colocar nos dias de hoje, em que o trabalho deixou de ser para sempre. Quem não a coloca e reflecte sobre ela, arrisca-se a ficar de fora, mesmo trabalhando numa área de que goste. Cada um terá a sua própria resposta e se a mesma for no sentido positivo, não há que ter motivo para preocupações.
ResponderEliminarNo entanto tão ou mais importante que cada um colocar a questão a si próprio, é ter o feedback do nosso superior hierárquico. E se ele não o dá de um modo espontâneo, então o melhor é solicitá-lo, pelo menos de seis em seis meses ou de três em três. Assim se por ventura na conversa detectarmos que existem coisas que podemos fazer de maneira diferente ou melhor, ou a que devamos estar mais atentos, então estamos no bom caminho para tomarmos medidas correctivas. Sem essa reflexão, é difícil melhorar o nosso desempenho e sermos melhores profissionais.
Com certeza que com o seu trabalho atraí mais leitores para comprarem livros, sejam eles da área da Commercial Fiction ou de outra área. E isso já é uma boa medida da sua performance profissional.
Mantenha-se firme... por favor!!!! :-)
ResponderEliminarTalvez não seja preciso preocupar-se assim. Não é como se tivesse que mentir ou enganar por causa do seu trabalho. Não existem livros "essenciais". A Literatura, de massas ou não, não é realmente fundamental para a vida das pessoas. É um luxo. É na maior parte das vezes entretenimento e só muito raramente algo relevante a nível social.
ResponderEliminarAo contrário do que se diz, a cultura não se está a tornar homogénea. Pelo contrário, as pessoas estão cada vez mais especializadas em nichos culturais. O que se passava antes é que os poucos e elitistas agentes culturais, por serem poucos num pais analfabeto, ditavam o que era de qualidade e o que deveria ser lido/visto/ouvido. A pobreza do panorama literário nacional de então era muito maior do que a dos tempos que vivemos.
Há espaço, felizmente, para tudo. Para já, quero eu dizer.
Xiii, meu Deus, estas são bem difíceis de responder. Qualquer coisa como a encruzilhada da Quimera. Nenhuma resposta estára certa. Nenhuma errada. E o bicho lá à espera...
ResponderEliminarParabéns pela afirmação : "porque o fácil ou acessível não tem de ser sinónimo de mau". Ainda há pouco tempo se falava aqui em "rendilhados de linguagem", ou coisa parecida. Em Portugal, ainda há muito a crença de que um texto, para ser bom, tem de ter muitos "rendilhados", favorece-se esse factor em relação ao enredo. E há algo que as editoras, muitas vezes, esquecem: há talentos que só se desenvolvem depois de anos de prática, quase ninguém escreve obras-primas em início de carreira. Um bom escritor é aquele que evolui e a habilidade de um "caçador de talentos" está precisamente em reconhecer as potencialidades do autor de um texto, aparentemente, banal.
ResponderEliminarSim, é importante que "estrutura, desenho de personagens e linguagem" sejam irrepreensíveis (a linguagem, no sentido de não conter erros). Para mim, o mais importante, num romance, são a profundidade das personagens, o relacionamento entre estas e a lógica/verosimilhança do enredo. E aprecio uma linguagem simples (gostos, claro).
Ao contrário do que alguém disse nesta lista de comentários, que já vai longa, eu acho que é importante ler, "seja o que for". Porque se a edição e a revisão foram bem feitas, aprende-se, pelo menos, a escrever sem erros.
Boa noite, Rosário
ResponderEliminarCada profissão tem as suas alegrias, as suas angústias, os seus dias de sucesso e, às vezes, inexplicáveis, derrotas...
Só quem não for a jogo estará livre destas ocorrências.
Porém, apesar de haver tanto tempo que se fala no esgotamento do romance, da evolução dos suportes literários Ebook ) até do caso extraordinário de no nosso país serem editados mais de mil originais por mês, a qualidade das edições e dos textos determinará tudo.
A Rosário já teve o privilégio de «lançar» o valter hugo mãe.
Mais autores poder-lhe-ão conferir a repetição dessa alegria debutando com o seu apoio, singrando.
Saudações
Cada vez menos leitores? Pois...nos livros, nos jornais, nos blogs...Sim, até a blogosfera perdeu qualidade com a chegada do Facebook... As pessoas querem coisas leves, digeríveis, querem as soluções no fim, no finzinho, mesmo na última página...Hoje, ler um livro é apenas exibir a capa no autocarro, mostrar aos outros que lê...mas não percebem, não discutem...Cada vez mais, os comentários se resumem a "Lol" e sorrisos...Qualquer gato sapato edita um livro..ou antes, paga para editar um livro...
ResponderEliminarO Balsemão tem razão...Os media dão ao público aquilo que ele quer...pois nós temos que lhes dar aquilo que eles não querem...é o melhor para eles, é o melhor para todos...por isso, deve continuar esse seu caminho, sem desvios...
Cara Maria do Rosário,
ResponderEliminarEm primeiro lugar, desejo-lhe um excelente ano na sua vida pessoal e profissional e força e energia para continuar o seu trabalho na Leya e neste Horas Extraordinárias. Sou leitora do seu blogue e sigo com prazer a produção de muitos dos seus autores.
Sou da opinião de que a sua função enquanto editora tem primado sempre pela grande qualidade, mas penso sobretudo que a sua nova casa profissional ganhou com a sua contratação um grande e raro privilégio que, creio, nasceu de um apurado sentido de visão: a Leya tem hoje a oportunidade de publicar boa e diversa literatura portuguesa nas chancelas mais adequadas, sem comprometer a linha editorial de cada uma delas e, sobretudo, com a certeza de que o que sai das mãos da Maria do Rosário é bom, muito bom. Há diversidade com qualidade. Poucas casas editoras desfrutarão deste feliz encontro. Continue, portanto.
Um dia, quem sabe, o seu profissionalismo e exigência poderão resultar num outro encontro feliz, o de todos os grandes autores portugueses que têm trabalhado consigo ao longo dos anos, quem sabe se numa nova editora independente da grande literatura portuguesa. Eu gostava.
Votos de muito bom trabalho!
:-)
ResponderEliminarSugiro este blogue de Alberto Cinza como grande descoberta literária. Vale a pena. Não há ninguém a escrever em português como ele.
ResponderEliminarpolifonte.blogspot.com
Nada que uma boa campanha de marketing não resolva... vende e promove grandes autores.
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