Há males necessários?

Recentemente, li um interessante artigo na revista Lire, da autoria do escritor Frédéric Beigbeder, intitulado «Editor, um mal necessário». Contava ele que as editoras em todo o mundo se têm afadigado a publicar as versões originais (antes da intervenção do editor) de alguns autores consagrados assim que eles morrem, procurando quiçá relançá-las e fazer mais barulho e dinheiro à volta delas. E constata que, por exemplo no caso de Raymond Carver, o editor foi esse mal necessário que conduziu a um texto mais perfeito, aproveitando o melhor no génio de Carver e desperdiçando o que nem era assim tão bom no autor norte-americano. Beigbeder está, porém, preocupado com o futuro dos editores e observa que os que estão no activo lêem cada vez menos e passam cada vez mais horas em reuniões. Também eu me preocupo com o mesmo e, embora teime em ler – mesmo que por vezes apenas na diagonal – tudo o que enviam, a verdade é que o excesso de reuniões, muitas das quais pouco têm que ver directamente com o que faço, me rouba um tempo imenso à leitura. Neste momento, a minha secretária tem uma pilha de originais em crescimento contínuo que não sei quando vou poder começar a desbastar. E todas as semanas me marcam mais uma reunião. Será apenas outro mal necessário?

Comentários

  1. António Luiz Pacheco25 de janeiro de 2011 às 04:10

    O seu desabafo (?) indica excesso de encargos.
    Creio...

    As reuniões, umas vezes necessárias, outras nem por isso, são tanto mais frequentes e maior transtorno, quanto mais a gestão é feita por quem não conhece o meio ou o negócio...

    Nas grandes empresas, como será a Leya , as cúpulas estão longe do palco de operações e a sua preocupação é querer saber... daí tantas reuniões que não faziam falta se eles andassem no terreno a ver e a ouvir, assim saberiam... sem perturbar quem tem outras coisas para fazer, nomeadamente desenvolver o seu trabalho!
    Em Portugal, campeia o dirigir por razões que não exactamente o saber do negócio! Quem dirige é quase sempre um generalista e não um especialista. A reunião é como fazer as orações diárias... alimenta o sacerdote e de pouco serve a quem assiste.
    Mas, faz perder muito tempo... que depois tem de ser recuperado para se atingir o resultado ou cumprir... essa a verdade e por isso se diz que em Portugal se trabalha muito e produz pouco.

    Mas como explicar isso a um director-geral que vem da área automóvel depois de passar pelos iogurtes... que marca reuniões de estratégia e empata toda uma manhã aos que são quem de facto suporta a empresa?
    Ele, amanhã vai para um lugar na banca... tem andado a fazer currículo... e lá ficam os que de facto conhecem o negócio, à espera de outro iluminado que a administração vai buscar e que normalmente é um barra em estratégia e em marketing... mas continua a vir de fora do negócio... e a ser mais um factor de "empatar" do que desenvolver...

    Será que alguém ainda um dia vai ver isso?

    A solução é só uma... trabalhar numa pequena empresa, familiar ou com pouca gente, onde as reuniões se fazem informalmente na casa de banho, ao almoço ou em conversas de corredor, mas em que toda a gente sabe tudo do que se passa...
    Nas grandes empresas, por vezes existem departamentos que funcionam assim... e sei por experiência própria que funcionam bem...

    Um bom dia de trabalho para todos... e sem as
    reuniões... falem ao almoço!

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  2. Não será esta discussão um pouco como a do futuro dos livros…?
    Penso que a questão se pode abordar em três:
    1. O trabalho do Editor perde expressão em certos meios actuais em que qualquer um de nós pode ser escritor por via da facilidade de publicação, seja através da net ou de editoras ‘especializadas’ naquilo que mais não é uma edição de autor com aparente chancela.
    2. As alterações no trabalho do Editor, em si, perderam ‘pureza’ de funções, ou seja, para além da leitura de originais e sub e consequente acompanhamento dos autores, têm também de gerir, acompanhar, opinar, decidir sobre questões administrativas, comerciais, etc.
    3. O Editor confunde-se frequentemente com o responsável pela Editora que, não obstante poderem ter o mesmo nome, têm funções radicalmente diferentes.
    Na minha opinião, que abarca a de editora, de bibliotecária, de (pseudo)escritora e, acima de tudo, a de leitora, o Editor não é um mal necessário, é um bem que não deve ser desperdiçado, como qualquer recurso fundamental e quem conhece o seu efectivo trabalho sabe da sua indispensabilidade.
    Serão as reuniões, ou o excesso delas, os ossos do ofício actual? Se calhar são; num mundo com tanta e tão rápida mudança, costumamos suspirar por dias passados à volta dum manuscrito e não dentro dum carrossel, entrando e saindo de agenda em punho com horários que, até se querem rígidos, mas que acabam por ser uma lotaria, desorganizando dias e planos.

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  3. Não sei se é um mal necessário. Sei apenas que em Portugal se fazem reuniões para tudo e mais alguma coisa. E quem as convoca por norma não procede como deve, ou seja:
    1º Colocar a questão a reunião é mesmo necessária? Só após esta reflexão se deve avançar para a convocação de uma reunião.
    2º As pessoas que vou convocar são fundamentais para decidir sobre os assuntos da agenda?
    3º A reunião tem agenda? Quantas vezes as pessoas vão para reuniões sem se poderem preparar...pois desconhecem os assuntos.
    4º A reunião tem hora para começar? E começa à hora independentemente do nº de pessoas presentes?
    5º A reunião tem hora para acabar?
    Já agora, por experiência própria na minha actividade profissional, recomendo que nas reuniões... não entrem ...telemóveis. Assim duram muito menos tempo.
    Se fizerem uma reunião numa sala só com mesa e sem cadeiras... a reunião demora menos tempo. Assim as pessoas têm mais tempo disponível pra realizar o seu trabalho.
    Desculpe a intromissão, mas esta área da gestão do tempo é uma área em que muitas empresas são deficitárias.
    Boas reuniões!

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  4. As reuniões são, na generalidade, para fazer de conta que algo se faz. Uma direcção competente raramente necessita de reuniões, porque está sempre a par do que se passa, tem objectivos definidos e fará os ajustes que forem precisos sem perder tempo com reuniões.
    As reuniões são um pouco como as comissões disto e daquilo. Servem para empatar. Quando é necessário resolver um assunto, pega-se em alguém e diz-se para o resolver. Quando é para fazer de conta, nomeia-se uma comissão. É o mesmo com as reuniões.
    Experiência de 40 anos a aturar incompetentes.

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  5. Se calhar, alguém terá de reequacionar a necessidade efectiva de tantas reuniões e reajustar o tempo dispendido com cada uma. :-)
    Votos de maior disponibilidade para as leituras e uma boa semana.
    Passei por aqui e gostei.

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  6. Poderia talvez arranjar uns assistentes/voluntários para seleccionar os livros...

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  7. ANtónio Luiz Pacheco26 de janeiro de 2011 às 07:12

    Eh!Eh!Eh !
    Faço minhas as palavras da Redonda... e até me candidato a essa função!
    LOLA

    Mas... não iria desvirtuar o trabalho do Editor?
    Uma coisa é ser vista pelo mestre e outra pelo aprendiz... não seria ainda e até pior? Afinal qual o critério?
    Foi o que mais ouvi criticar ao apuramento do vencedor do Prémio Leya, que dentre as muitas dezenas de obras fossem seleccionadas apenas 10 para o júri avaliar... qual o papel do júri de facto?
    E neste caso do editor? Só ia considerar o que os assistentes seleccionassem?

    Enfim, penso eu...

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  8. Parabéns pelo seu blog, muito interessante. Estou estudando Português, eu não consigo entender tudo, mas quase! ;)

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