Revivalismo

Tenho uma afilhada adolescente chamada Catarina que, durante anos, levava às compras numa manhã de Dezembro para que escolhesse o seu presente de Natal (e nunca vi ninguém experimentar tanta roupa em tão pouco tempo). Não é filha única e, nesse périplo por lojas e mais lojas de um determinado centro comercial, eu aproveitava para a inquirir sobre os desejos da irmã seis anos mais nova e para comprar, também para esta, uma prenda adequada. Este ano, curiosamente, foi-me poupada a difícil jornada colombiana, porque a Catarina me transmitiu que preferia dinheiro vivo a embrulhos – e, francamente, fiquei bastante feliz com a decisão. Era, mesmo assim, preciso contemplar a sua irmã Maria com aquilo a que a minha avó chamava «uma lembrança» e achei por bem fazer alguma investigação para não disparar a seta para demasiado longe do alvo. Foi-me dito que lhe comprasse um dos livros d’As Gémeas, de Enid Blyton (que eu própria li em miúda e que agora estão a ser editados com umas capas magníficas pela Oficina do Livro), ou o também recentemente tirado da hibernação Os Desastres de Sofia, da Condessa de Ségur, que fez as delícias das raparigas de muitas gerações antes da minha, mas eu ainda apanhei como leitura aconselhada por mãe, avó e irmã. Com tanto livro novo português e estrangeiro a sair todos os meses em Portugal, é no mínimo curioso este revivalismo, até porque o colégio interno é coisa que deve parecer às miúdas dos nossos dias uma parcela do mundo congelada no tempo. Mas as vendas, segundo sei, mostram que há livros que nunca passam de moda e que, por muito que as capas mudem, o que lá está dentro serve os leitores de todas as épocas.

Comentários

  1. Ahhh..." Os Desastres de Sofia"!! Belos tempos eu passei a ler e (re)ler esse livro!! Era dos meus preferidos. Vinte anos depois ainda adoro os livros da Condessa de Ségur...

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  2. António Luiz Pacheco24 de janeiro de 2011 às 04:08

    A minha mãe tinha a colecção da Condessa de Ségur , alguns em francês (que cá em casa era obrigatório) e muitos em português. Eu ainda os possuo, os portugueses em edição da Editora Educação Nacional e tradução do Dr. Campos Monteiro Filho... custando 8$00.
    Eram para todos, rapazes e raparigas, e são manual de costumes e princípios, que espelham uma época. Quem leia a Fortuna de Gaspar ou o General Durakine (este o meu favorito), que não são dos mais conhecidos, ou Férias (onde a tal Sofia reaparece...), há-de dar-me razão!

    Creio que é coisa que falta na literatura juvenil moderna - que se limita a ter um moral ecologista. Muito poucos escritores desta área pensam na pedagogia social ou mesmo nos bons sentimentos ... só pensam em divertir?

    Qualquer dia temos de volta Odete de St . Maurice ... que deve dar voltas na campa pela moral das netas que produziu...

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  3. Sabe-me dizer quem re-editou os Desastres de Sofia? Ando há anos à procura, queria mesmo comprar.
    Obrigada

    Mafalda M.

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  4. As Gémeas, os Cinco e os Sete ou o Colégio das Quatro Torres fazem parte do lote dos livros emprestáveis lá em casa. São eternos. Os Desastres de Sofia, se bem me lembro, já pertencem à minha sobrinha, que assim recebeu uma das jóias da família. Lembro-me de duas edições diferentes lá por casa, uma devia ser minha e outra da minha irmã e uma delas, qual anel de noivado, já foi passado à actual legítima dona que, apesar dos seus seis anos, lê como poucos adultos que eu conheço.

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  5. The Twins at St. Clare's... lembro-me tão bem...

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  6. Ficaria feliz em ser sua afilhada Maria...rsrs
    Abraços

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  7. Se pensarmos bem, não são os destinatários a comprar os livros, mas sim os adultos. Portanto será apenas saudosismo. O problema é que ninguém lerá o que entretanto vai aparecendo novo.

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    Respostas
    1. Tomás Bernardo de Sena24 de janeiro de 2011 às 15:10

      Caro João Raposo,

      permita-me discordar. Julgo que o facto de se determinados livros persistirem ao longo de gerações (o que se deve, em muitos casos, e conforme disse, aos exemplares legados pelas gerações que directamente contactaram com eles) não elimina de forma alguma a leitura do que entretanto vai aparecendo. Na minha opinião tal afigura-se, até, uma vantagem: pois confronta o clássico (ou menos clássico) com o contemporâneo, abre horizontes a nível de possibilidades, prepara a recepção dos livros novos. Como poderemos nós criticar a literatura actual se não conhecermos um pouco da que a antecedeu? Afinal, o Hoje é resultado do Ontem e foi-nos trazido por ele... E é no Hoje que, analisando o Ontem e confrontando-o com o Hoje, melhor percebemos o Amanhã.

      Saudações,
      T.B. Sena.

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    2. Tomás Bernardo de Sena24 de janeiro de 2011 às 15:16

      Existe um 'se' a mais na primeira linha, que corrijo.

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  8. claro que serve... é também isso que faz deles clássicos, não é?
    na minha infência "os cinco" foram o must absoluto, lidos e relidos e emprestados entre primos e amigos. não me surpreendeu nada que os meus filhos tivessem pegado num... e lido todos.
    (e tenho a certeza que vão ser devorados pelos filhos deles)

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  9. António Luiz Pacheco24 de janeiro de 2011 às 16:23

    Totalmente de acordo T. Sena!

    Aliás estão sempre a ser "desenterrados" até
    pelo cinema...

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  10. Eu li "As gémeas" e "O colégio das quatro torres", edições herdadas da juventude da minha mãe, numa época em que os colégios internos eram uma instituição muito em desuso. Mas quantas vezes desejei percorrer aqueles corredores, dormir naqueles dormitórios, pregar aquelas partidas...

    Não concordo que seja saudosismo, acho que são histórias intemporais que continuam a cativar todas as gerações.

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  11. É de saudar a reedição, sim, mas talvez valha a pena notar que a versão/tradução actual é substancialmente diferente do original, no sentido de uma simplificação do texto - em particular nas descrições - que vai ao encontro da tendência para "aligeirar" os clássicos. Enid Blyton tem sido uma das principais "vítimas" deste registo, tal como Beatrix Potter ou Edith Nesbit. E isso é pena.

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  12. Actualmente passa na televisão uma série que os miúdos, provavelmente da idade da irmã da sua afilhada, gostam muito: a Lua Vermelha. Tem vampiros, como está agora na moda, mas tem também um colégio interno, onde se passa quase toda a acção. Daí o revivalismo.
    Eu também adorei as Gémeas e o Colégio das 4 Torres, e agora os meus dois filhos rapazes adoram a Lua Vermelha. Acho que tem mais a ver com a amizade e as brincadeiras que se retratam nos colégios internos do que com o facto de serem colégios internos...
    Gosto muito do seu blog. Cptos,
    Filipa

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  13. Apenas para lhe deixar esta ligação http://bejayarrabaldes.blogspot.com/2012/02/portas-de-beja-2011-rua-do-mestre.html como mera curiosidade. Obrigada pela atenção.
    PL

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