Desaparecido

Há alguns escritores que fazem furor em determinada época e, de repente, desaparecem para sempre como se nunca tivessem existido. No tempo em que trabalhava na Gradiva, lançámos o romance de estreia de Frank Ronan, um autor irlandês que veio na ocasião a Portugal (nessa altura, ainda não era comum convidar os autores para os lançamentos dos seus livros) e que, por ser realmente um tipo giro, simpático e inteligente (e ter escrito um livro delicioso que se chamava Os Homens Que Amaram Evelyn Cotton), colheu o entusiasmo unânime da crítica jornalística. Depois disso, publicou outros romances que também se venderam muito bem e estiveram nos top das livrarias (Piquenique no Paraíso e A Morte de Um Herói) e um livro de contos que foi editado em Portugal antes até de o ser no Reino Unido (Os Homens Bronzeados Ficam Bonitos), a que se seguiram os romances Lovely e A Comunidade, que ficavam a dever muito aos primeiros, mas que, pelo que sei, não correram mal em termos de vendas. A vida de Ronan deu, a dada altura, uma volta estranha (acho que teve que ver com drogas, mas não juro) e o escritor acabou por desaparecer completamente dos escaparates, sobretudo em Portugal, que parecia gostar especialmente dele. As novas regras do mercado dificilmente deixarão que o editor recupere os seus livros, o que é uma pena, mas, se alguém tiver coragem para os desencantar algures, não perca uma experiência de leitura deste irlandês desaparecido (A Morte de Um Herói, com Deus como narrador, é talvez o melhor título para se afeiçoar).

Comentários

  1. A vida não é fácil para ninguém e há momentos em que fraquejamos. Normalmente, conseguimos sair do buraco em que caímos, mas há quem não consiga. E há quem não saiba lidar com o sucesso, problema que está associado à ideia de que não o merecemos (mesmo que seja inconscientemente). Daí, até à drogas, é um pequeno passo.

    O notar que não escrevemos como antigamente, que os textos não possuem a mesma qualidade, também pode contribuir para o desistir da carreira de escritor.

    De resto, crises dessas acontecem noutros campos artísticos, na música, é muito frequente.

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  2. talvez não seja o sítio certo para deixar esta provocação (desafio?), mas aqui vai: não há ninguém por esses corredores editoriais fora que queira reeditar o "fabrico próprio"? (http://www.fabricoproprio.net/sales.html)

    encontrar um exemplar tem-se tornado uma obsessão que, pelo que tenho ouvido, partilho com muitos.

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    1. Ana Sofia, já perguntou na Trama? Foi lá que comprei, há já algum tempo, é certo. Cristina

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    2. obrigada pela dica, cristina, mas infelizmente já corri/contactei todos os sítios onde o livro esteve à venda em portugal (e até tentei estocolmo!). não havia nenhum exemplar em lado nenhum. chegaram a falar-me numa 2a. edição fantasma, mas julgo que era apenas rumor.

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  3. Uma das minhas irmãs tem pelo menos "Os Homens Que Amaram Evelyn Cotton".
    Vou pedir-lhe emprestado o livro.

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  4. Frank Ronan vale a pena ler. Tem uma frase num livro "como se pode competir com o pai perfeito que morreu".
    Cito porque nessa altura tinha morrido a minha mãe e alguém que julgava amar-me ou amava-me, não quero ser injusta, disse-me "como posso competir com uma mãe perfeita que morreu?" e fez-me conhecer Frank Ronan.
    E ainda esta semana vi Frank Ronan na FNAC (o livro).

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  5. Cara Maria do Rosário Pereira,

    Deixe-me felicitá-la por manter um blogue tão interessante como o 'Horas Extraordinárias' - apreciei imenso ler os artigos, que são deveras pertinentes e enriquecedores.

    Admito que ainda não li nada deste escritor que refere, mas procurarei fazê-lo logo que possa. Quanto à sua submissão anterior, permita-me apenas referir que aquilo que diz me entristece profundamente... Pois que, na sua perfeita verdade, me apercebo de como o mundo corre levianamente por sobre os carris retorcidos e quebrados. Entanto estimo muito a determinação da Maria do Rosário Pereira - o facto de crer ainda que haja alguém que também com isto se preocupe, e talvez mesmo 'converter', 'abanar' alguns dos mais letárgicos que apenas vivem devaneando, esquecidos do que deviam poder fazer.

    Não deixe de partilhar as suas reflexões...! Admito que, com um irrisório número 19 encimando a contagem do tempo da minha vida, pouca autoridade tenho para dizer o que quer que seja... Certamente, tenho muito maior dever de ouvir e aprender.
    Julgo que é mesmo isso que me possibilita com o seu blogue. Quem sabe, talvez um dia possa vir a ser um Artista (pois não será a Literatura tão bela Arte...?), mas para poder ser sequer alguém que muito gosta de livros tenho antes de muito ler, ouvir, aprender, reflectir, criticar, e só depois algo dizer... E escrever! Entretanto, ir escrevendo e melhorando as experiências que nos vão sendo rumorejadas pelas palavras, talvez um pouco partilhando as etapas da jornada...

    Desculpe o longo comentário, mas senti que era meu dever expressar a minha admiração por seu propósito, que a nós nos chega através do seu blogue.

    Felicidades!

    Saudações literárias,
    Filipe C.

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  6. A minha irmã ainda não conseguiu encontrar
    "Os Homens Que Amaram Evelyn Cotton" mas hoje encontrei na Wook "O Melhor Anjo". Vai para a minha lista dos próximos livros a ler.

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  7. Boas, eu já li vários livros do Frank Ronan, aquele que mais gostei foi o " Lovely ", mas entretanto perdi o livro e ando já a algum tempo a tentar compra-lo, mas infelizmente está difícil...
    Todos os outros são também bons livros, embora este foi aquele que no fim chorei bastante.

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