Os editores discretos
Há uns tempos, um dos proprietários de um grande grupo editorial disse numa entrevista que os editores de livros não escolares pouco acrescentavam a um livro. Embora suspeite de que não era bem isto o que queria dizer e saiba de alguns editores que não têm na verdade praticamente nenhuma intervenção no que publicam (além da selecção, mas até isso é muito), fiquei logo de cabelos em pé – e até gostava que alguns autores pudessem explicar-lhe o trabalho que muitos dos editores desenvolvem entre o momento em que enviam os livros para avaliação e a sua ulterior publicação. Não me cabe, porém, elogiar o meu próprio trabalho (até porque nenhum editor pode criar o talento onde ele não existe e o sucesso de um livro é sempre da responsabilidade do autor) e só por isso não escrevo este post para me queixar de uma afirmação que considerei bastante infeliz (pronto, já me queixei), mas para dizer que efectivamente é uma pena que alguns editores escolares (ou coordenadores, como já lhes ouvi chamar muitas vezes) não tenham o reconhecimento que merecem nem apareçam referidos nos meios de comunicação como acontece tantas vezes aos editores de literatura geral. Porque fazer livros escolares deve ser mesmo uma tarefa hercúlea: escolher os professores-autores, garantir que entregam tudo a tempo (tratando-se de livros com prazo certo para serem apresentados às escolas e ao ministério, não há como adiar a sua publicação), escolher um layout e ilustrações adequados e apelativos, controlar a revisão que tem de ser absolutamente rigorosa e imaculada a nível da informação e da correcção gramatical (se aparece um erro num livro escolar, dá logo notícia nos telejornais), ser, enfim, responsável, em última instância, pela aprendizagem de determinada matéria por milhares de crianças e jovens em todo o País. E, embora tenha sido professora durante algum tempo e nem todos os livros escolares tivessem o mesmo nível, hoje quero partilhar com os leitores deste blogue a minha admiração pelos que, tão discretamente, fazem um excelente trabalho que o público nunca aplaude.
E também pode aplaudir .e deve, alguns, poucos editores de livros não escolares, que ajudam o autor a crescer. Quanto aos editores escolares o seu trabalho é sem dúvida meritório, mas às vezes falta-lhe conhecimentos técnicos fundamentais. Se eu sou, por exemplo, vou ser editora de um manual escolar para a aprendizagem da leitura deveria ter conhecimentos mínimos sobre os obstáculos que as crianças passam no processo de aprender ler para ter um juízo crítico sobre certos exercícios propostos e isso nunca acontece. Ana Cristina Silva
ResponderEliminarÉ certo que o trabalho de realização de um livro escolar não resulta apenas do esforço do autor. Imagino que essa tarefa seja bastante exigente pelos dois lados, e que só existindo cooperação e entendimento entre as duas 'facções' se possa chegar a um resultado satisfatório.
ResponderEliminarNa verdade, penso que o problema se agrava substancialmente se considerarmos que no panorama da educação actual o professor quase se resume a 'lides' de índole burocrática que roubam quase todo o tempo disponível para dedicar ao horário 'de sala de aulas'. Quero com isto dizer apenas que, a meu ver, o livro escolar, sendo o principal veículo de transmissão das matérias a leccionar durante as aulas, vai gradualmente perdendo importância intrínseca. Se aliarmos esse facto à também copiosa variedade de livros escolares com diferenças por vezes drásticas entre uns e outros, penso que, pelo meio, perecerão inevitavelmente alguns dos esforços mais 'nobres' entre editor e autor (não nos esqueçamos também que o mercado de livros escolares já esteve mais longe de ser um grande 'negócio'). O mesmo se passa com o rigor (parece-me que é mais fácil agora encontrarmos livros escolares com erros - ortográficos e científicos).
Talvez seja ingénuo da minha parte pensar desta forma, mas é isto que me parece, entretanto corrijam-me se tiver dito algo que esteja longe da verdade (não sou entendido nestas matérias, contudo possuo familiares no ramo).
Em uma outra nota, apercebi-me que no meu comentário ao post 'Desaparecido' confundi o apelido da Maria do Rosário Pedreira com Pereira, pelo que desde já corrijo e deixo as minhas sinceras desculpas.
Cumprimentos,
Filipe C.
Obrigada, Rosário. Do fundo do coração. Da minha parte, sei que acrescento muito aos livros que coordeno, sobretudo quando são da minha área de formação (biologia). Esses faço-os com paixão. E a paixão acrescenta sempre algo de bom , não é?
ResponderEliminarEmbora não trabalhe para um público escolar, sinto-me particularmente tocada por este assunto pois o meu nome não consta em qualquer livro cuja edição acompanhei, à excepção dos agradecimentos em algumas teses e dissertações, e aí, como bibliotecária. No entanto, embora não faça capas sou eu que as imagino, embora não faça trabalho gráfico, sou eu que escolho as fontes, o tamanho da letra, as margens, o espaçamento, até a revisão com muita frequência, para além da verificação das notas de rodapé e da bibliografia. Sugiro alterações aos próprios títulos dos livros, por serem longos, inexpressivos, repetitivos, bem como alterações aos nomes dos capítulos, à sua organização.
ResponderEliminarO trabalho invisível é tantas vezes ignorado, esquecido e depreciado e quantas vezes é nele que assentam os pilares de qualquer construção, seja uma ponte, um bolo ou um livro. Acredito que existam pessoas que nunca se tenham lembrado disto.
Excelente homenagem que aqui deixa aos editores de livros escolares. É com certeza um trabalho hérculeo e stressante, especialmente quando se aproximam os prazos limite para entrega dos livros. Nunca tinha pensado no assunto, mas basta lembramo-nos dos livros do 1º ciclo, por exemplo de matemática, com a mtaéria, os exercicios as ilustrações / desenhos...coordenar uma equipa destas para que tudo saia na perfeição não deve ser fácil. E a responsabilidade como bem diz, é enorme.
ResponderEliminarConseguiu pôr um sorriso nos lábios de pelo menos 12 coordenadores editoriais!
ResponderEliminar... e a mais uma editora, que apesar de ter largado o escolar há quase 3 anos, ainda cá tem o "bichinho"!
ResponderEliminarRosário, sobre essa matéria não deixo de pensar que entre as diversas tarefas do editor escolar que elenca ficaria igualmente bem "outorgar-lhes" o dever de pugnar pelo pagamento de direitos autorais aos escritores cujos textos nos manuais se reproduzem na íntegra. Não é o que acontece, os textos saem-lhes a custo zero. Enfim, falo da minha experiência nesse campo, foi esse o tratamento que conheci por parte, justamente, de um grande grupo editorial na área. Enfim, concedo que noutros grupos o procedimento e cuidado com os autores possa ser diverso, embora duvide. Em suma, falar, referir ou até reflectir esse aspecto também me parece importante. Cumprimentos, Pedro Teixeira Neves
ResponderEliminarTem toda a razão, Pedro. Mas, sinceramente, julguei que isso já não acontecia, até porque estive recentemente num programa de TV com o presidente da SPA e fiquei com a ideia de que esses "roubos" estavam muito mais controlados.
EliminarCaro Pedro, está em vigor um protocolo entre a SPA e as associações de editores que regulamenta de forma muito clara as percentagens de texto que podem ser usadas em manuais escolares sem direito a pagamento e quais aquelas que têm de ser pagas.
EliminarUma das primeiras fases na elaboração dos manuais é precisamente o envio para a SPA de uma lista com todos os textos que vão ser utilizados (independentemente da sua extensão), para análise da respectiva autorização e possibilidade de pagamento. Claro que aqui não se enquadram textos do domínio público nem outros de carácter não literário (como os publicitários, por exemplo), cujo direito de utilização deve ser solicitado directamente aos seus proprietários.
Todas as revisões deveriam ser, como diz, absolutamente rigorosas e imaculadas! Já tenho apanhado livros com gralhas de tradução simplesmente imperdoáveis!!! Coisas que distorcem completamente o sentido do que se pretendia dizer com uma frase. E isto é quando a coisa ainda mantém algum sentido, porque por vezes caímos no reino do absurdo, e aparecem textos dignos de movimentos surrealistas. É simplesmente vergonhoso. E acho incrível que uma pessoa não possa devolver o livro alegando má tradução. (incorrecta mesmo)
ResponderEliminarA cultura deve ser preservada a todo o custo. Por isso peço desculpa por vir ocupar este espaço que é seu para, juntos, divulgarmos os IX JOGOS FLORAIS DE AVIS, cujo regulamento já se encontra disponível em www.aca.com.sapo.pt
ResponderEliminarObrigado.
Fernando Máximo/Avis