Estreia fulgurante
Que este vai ser um ano terrivelmente difícil, já se sabe. Para mim, certamente o será, uma vez que trabalho com novos autores, alguns estreantes, e que será uma dor de cabeça promovê-los e mostrá-los ao mundo num ano em que as pessoas resistem a toda a despesa supérflua e escolhem tendencialmente o que é certo e sabido. Tenho, por isso, muito medo de que venham a passar despercebidos nomes que julgo irem enriquecer o panorama literário nacional, mas que, sem público, ficarão quiçá condenados a publicar apenas um primeiro livro e com os próximos na gaveta. No meu plano para 2011, conto três estreias fulgurantes – e uma delas, por ser o primeiro livro a sair (já em Fevereiro, com a chancela da Dom Quixote) e por ser de uma mulher (há tão poucas escritoras com esta qualidade na nova geração) – merece destaque neste meu post. Chama-se Os Pretos de Pousaflores, assina-o a angolana Aida Gomes (que vive actualmente na Guiné, pois é funcionária das Nações Unidas, que agora promove nesse país uma missão de paz) e junta numa aldeia perdida de Portugal um homem desencantado que teve de deixar a África que o formou e onde estava há quase quarenta anos e os seus três filhos mulatos, cada um de sua mãe, que uma aldeia atrasada como Pousaflores vê, preconceituosa, como «os pretos». Tão depressa terno e poético como hilariante e esclarecedor, este é um romance que conta a história da colonização portuguesa, do declínio do império, da guerra civil em Angola, dos retornados e do abismo para onde muitas vezes são atirados os mais fracos. A ler, absolutamente, porque queremos mais livros de Aida Gomes depois deste. (Ah, a autora estará nas Correntes d’Escritas no final de Fevereiro.)
A blogosfera tem-se tornado um excelente e surpreendente veículo de promoção de livros. Num país onde a crítica literária profissional não tem tanto relevo como por exemplo nos Estados Unidos ou Reino Unido, as opiniões de leitores comuns têm levado muita gente a apostar em livros de autores desconhecidos. Eu falo por mim, e assim tem sido.
ResponderEliminarDesejo toda a sorte para estes novos autores e as suas obras.
Vai ser um ano difícil para todos. Talvez possa optimizar a sua promoção de livros utilizando não só as apresentações dos lmesmos ao vivo, este blog e outras plataformas como o Facebook, ou utilizar outros meios como a rádio por exemplo. Para além de que, o site da Leya e da D. Quixote com certeza possuirem a funcionalidade de capturar o endereço de e-mail de quem os consulta e, desse modo, podem com uma simples aplicação informática ir gerando alertas automáticos para novas edições, numa perspectiva de marketing promocional. O marketing tem de trabalhar em estreita colaboração com os webmasters dos sites.
ResponderEliminarBom trabalho MJP e boas vindas à Aida Gomes ao mundo dos livros.
São estreias fulgurantes ou a MRP pretende que venham a ser? É que às vezes pelo ruído que se cria à volta de uns escritores é que se apagam os outros. Depois torna-se mais complicada a destrinça entre o que é bom, o que é mais ou menos e o que é realmente mau.
ResponderEliminarCom a minha longa experiência como editora, considero esta estreia fulgurante e a leitura do livro deu-me horas extraordinárias. Tudo é subjectivo, claro, mas não encontrei muitos primeiros livros com esta qualidade.
EliminarNão estava a questionar os critérios editoriais da MRP (quem dera a muitos editores terem a sua subjectividade na hora da escolha), fiquei apenas com dúvidas pela forma como se tinha expressado. O que acho importante realçar é que se ninguém publicasse primeiras obras também não haveria mercado editorial. Ainda este fim-de-semana no JN veio uma reportagem com 4 figuras sub-40 (JLP, GMT, VHM e JT), que em menos de dez anos já tiveram mais sucesso que outros, de outras gerações, não tiveram na vida toda. E isso deve-se à promoção dos livros por parte das editoras mas principalmente à qualidade das obras.
EliminarBoa tarde.
EliminarAchei o seu blog muito interessante. A minha futura área de trabalho nada tem em comum com a sua. Estudo Medicina Veterinária. No entanto, há alguns meses comecei a escrever uma pequena história para jovens, que gostaria de saber se poderá um dia ser publicada. Como não conheço ninguém do mundo editorial, e como encontrei o seu blog, seria possível dar-me a sua opinião sobre o que estou a escrever?
O meu email é: ana.calves89@gmail.com
Muito Obrigada pela atenção!
HUm... parece-me interessante. Vou apontar.
ResponderEliminarCoitadinhos! Tenho mesmo pena dos escritores que a Maria do Rosário se empenha em divulgar...
ResponderEliminar(Sem contestar a sua qualidade, claro)!
Sou sensível às considerações de MRP sobre os novos autores.
ResponderEliminarMas, a propósito, creio que é de ter em conta o inquietante artigo que António Guerreiro escreveu no Expresso de 15 de Janeiro, no ATUAL com o título arrasador "O Romance é o Cancro da Literatura" (citação de um autor francês num livro de 2001).
Ontem, ao entrar numa livraria de um Centro Comercial, fiquei abismado com a quantidade colossal de livralhada (é o termo!) espalhada por todo o lado. E não se tratava de estarem a fazer i inventário de fim de ano, eram mesas e mesas repletas de resmas de livros, metidos à cara dos incautos que por ali andavam.
Uma praga editorial!
Fugi!
Desde que a ouvi falar sobre este livro na Comunidade de Leitores da Almeida que estou à espera dele. Ainda bem que já não falta muito.
ResponderEliminarMeu Caro JMoedas
ResponderEliminarAcho que percebo essa sua dúvida e susto!
Porém atrevo-me a pensar que pelo contrário pode ser um sintoma de boa saúde económica
do sector...
Também pode indiciar dinamismo, pela sua diversidade, de géneros e de temas que assim entusiasme, atraia e satisfaça.
Repare que não pode haver um pensamento
ou sentir único... a diversidade é sinónimo de riqueza, penso eu... o que importa é que se vá lendo e ganhando gosto pela leitura, depois logo haverá tempo para conduzir e educar o leitor.
Que se leia mais, que se edite mais...
Acho que é bom para todos, mas sobretudo
para a literatura...
Percebi que a sua preocupação será com a qualidade, mas repare que sem quantidade é mais difícil haver qualidade... porque quanto mais escolha houver melhor!
Cumprimentos
Olá! Por acaso nao apagou um bocado de um dos seus posts? Era capaz de jurar que falava algures sob a geração sub-40, JLP, GMT, JT e WHM, ou algo por aí... e agora nao consigo encontrar nada disso. Foi auto-censura?
ResponderEliminarCumprimentos
Desculpe Maria do Rosário! Já encontrei o que procurava... afinal o que eu procurava estava no meio dos comentários. :))
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