O país de poetas ameaçado
Diz-se que Portugal é um país de poetas e a verdade é que, em muitos países europeus e não europeus, a poesia portuguesa é sempre elogiada se comparada com a respectiva e a sua boa forma em todas as épocas referida em comentários laudatórios. Nós, os que gostamos dela e a lemos, ficamos um pouco decepcionados com o magro espaço de exposição que ela tem em livraria e a sua inexistência nos supermercados e outros pontos de venda mais democráticos, bem como com a escassa publicação de livros do género sobretudo desde que se iniciou o fenómeno da concentração editorial. Embora a poesia circule na blogosfera – mas nem toda é de qualidade –, tenho a certeza de que existem muitos bons livros de poesia que não conseguem passar das gavetas e dos círculos de amigos. E temo que venham a ser cada vez mais, pois, como referiu em entrevista mais ou menos recente um dos patrões do mundo editorial português, o mais provável será daqui a dez anos fazer-se dos livros de poesia apenas uma impressão digital de trinta exemplares para distribuição restrita por amigos, familiares e mais meia dúzia de interessados. De momento, não publico poesia na LeYa (apenas ficção), mas, se todas as editoras pensarem deste modo, podemos concluir que o país de poetas é coisa em extinção e que, por força das circunstâncias, nos vamos tornar um país de inventores de anedotas, actividade em que também não somos nada de deitar fora.
Tem toda razão. E o mais estranho nisso tudo é que a poesia, em termos estritamente formais, presta-se mais à partilha em redes sociais (e.g. Twitter , Facebook etc.) do que a ficção.
ResponderEliminarE -- não é piada -- a poesia combina muito bem com a pintura, com a música, com amigos, com bom vinho. A arte de a dizer pode valorizar os textos. Falta gente de visão. capaz de ganhar e de dar a ganhar dinheiro aos nossos poetas. De notar que adoro poesia, mas não escrevo poemas. Com muita pena minha.
EliminarVou fazer uma pergunta -ingénua- :
ResponderEliminarO que leva as pessoas a ler poesia?
Confesso que não sei... nem sou capaz de dizer!
Pessoalmente, leio pouca... o que li foi porque no lceu tive de ler... mas confesso que gostei, em particular de Camões, dos Lusíadas (a sério!)
porque tive um professor que nos fez perceber e apreciar e gostar... para lá dos Sonetos que são muito bonitos.
Cesário Verde, Florbela Espanca... de um modo geral gostava. Mas nunca ganhei o hábito e só anos depois li p.e. (até comprei) António Gedeão e senti nele uma coisa viva... o poema da adolescente, Calçada de Carriche, o poema da Malta das Naus... não sei explicar, mas de facto há ali qualquer coisa que é a vida e ensina a vida... (estou a tentar explicar).
Ler poesia será como ler Shakespeare, que de facto tem uma mensagem de filosofia, de saber e da vida que é também uma espécie de manual..
Ou Kalil Gibran?
Ou António Damásio?
É leitura para se ir fazendo e ter à cabeceira da cama, com se entremeiam outras leituras?
Confesso que muitas vezes, quando me emociono percebo o que leva a escrever poesia... como a raiva ou o amor. Ele há letras de fado lindas, como Foi Deus (Carlos Alberto Janes), mas e para ler? Depende de quê?
Pergunto:
- Seremos um país de poetas, mas porque escrevemos poesia ou porque lemos poesia?
É muito curioso que não sendo um país de músicos ou de cantores (? somos?) todavia se
fazem letras de canções lindíssimas.
Porque é que as pessoas lêem poesia?
Desculpem a minha falta de saber e evidente falta de cultura nesta área. Estou a partilhar o meu desconhecimento e a tentar obter respostas...
Apesar de não publicar poesia de momento na Leya com certeza que de vez em quando lhe chegam às mãos manuscritos de poemas. E se assim for, independentemente dos mesmos terem ou não qualidade, significa que a poesia está de boa saúde.
ResponderEliminarAs editoras podem lentamente vir a deixar de publicar poesia, mas os poetas e poetisas vão sempre continuar a existir, publiquem eles em blogs, em e-books ou em livro. São os poetas que fazem andar o mundo e a MRP é um dos expoentes máximos da poesia em Portugal. Para quando um novo livro de poemas seu?
Obrigada, Rosário. Por causa do seu post, terminei um pequeno texto que, já agora, partilho consigo. Comecei-o num curso de escrita criativa há um ano atrás.
ResponderEliminarPor mais que goste de escrever e que alguns amigos até me digam que gostam do que escrevo, acho sempre que o faço para a gaveta. Mas quem sabe um dia... É claro que o panorama editorial não é o melhor para a poesia, mas haverá sempre uns teimosos e resistentes, que não publicam apenas com o objectivo de fazer dinheiro.
Branco
Do lençol de linho estendido ao Sol
Com o bordado da avó pendurado
Branco
Do laço que prende o cabelo
E da pérola do anel de noivado
Branco
Da areia que escorre entre os dedos
E se junta à areia do chão
Branco
Desta folha em que vos escrevo
Nos intervalos do carvão
Obrigada, Anabela.
EliminarPois é... não percebo nada do assunto, mas sei que gosto e em particular porque a percebo e ao que quer dizer... acho eu.
ResponderEliminarObrigado pelo seu branco...
quando andava na escola nunca me ensinaram a gostar de poesia. Todos os anos haviam poetas para aprender, mas o "esquema" era sempre o mesmo: temos aqui o Garrett, pertence ao Romantismo, toma lá meia dúzia de caracteristicas desta corrente literária e agora lê este poema e diz-me quais são as caracteristicas do romantismo que encontras no poema. Ora assim nunca ninguém há-de gostar e se interessar. Felizmente a poesia despertou-me e gosto de a ler, de a saborear, de tentar decifrar o que quem escreveu quis dizer. tão simples quanto isso.
ResponderEliminarEu já li alguns poemas de autores ingleses e acho que embora bons não me parecem tão bons como os nossos...
Apenas uma nota: o verbo haver no sentido de existir não deve ser conjugado no plural. Portanto, todos os anos havia - e não "haviam" - poetas.
EliminarDiscordo. A escola tem costas largas, paga por todos os males da sociedade. Só falta aparecer um homossexual a dizer que a escola o não ensinou a gostar de mulheres.
Eliminare de que forma devia ser ensinada a poesia na escola?o modelo actual ou do meu tempo ( tenho cerca de 30 anos) não funciona, não vejo os jovens da minha idade muito interessados em poesia e os mais jovens também não.
Eliminarlembre-se que muitos não têm livros em casa e a escola, nesses casos, devia funcionar como um veículo para conhecer poetas.
Creio que só esporadicamente alguns poetas portugueses conseguiram vasto público: Guerra Junqueiro, Florbela Espanca, talvez José Régio e José Gomes Ferreira, e pouco mais. A projecção internacional da lírica medieval deve-se sobretudo a italianos (Luciana Stegnano Picchio, Tavani, etc.), a lírica de Camões só foi publicada postumamente e muito deve a espanhóis como Faria e Sousa, Pessoa não nos deixou um único livro de lírica, Torga publicou em edições de autor, creio eu... País de poetas sem leitores.
ResponderEliminarErrata: Luciana Stegagno Picchio. As minhas desculpas.
ResponderEliminarJCC
Prezada Maria do Rosário, os livros de poesia sempre tiveram tiragem reduzida e tal não impediu a afirmação dos nossos poetas.
ResponderEliminarE por falar em poetas, agora há quem critique o Manuel Alegre por presidir ao Prémio LeYa. Já não bastava o prémio não ter sido atribuído e as dúvidas que isso levantou. Enfim.
http://quintoimperiodomundo.blogspot.com/2011/01/o-premio-leya-e-manuel-alegre.html
De facto, não se vende poesia no país dos poetas, não se ensina a gostar de ler poesia nem se incentiva a sua audição através de sessões de leitura e, pior ainda, não se fomenta a sua criação nas camadas jovens que, como disseram num comentário, na escola a poesia é anexa a este ou aquele estilo, com estas ou aquelas características, num processo frio e distante, quase matemático, quando a poesia é quente e interior.
ResponderEliminarNa adolescência dá-nos aquele rebate e desatamos a escrever como se tivéssemos o mundo inteiro dentro de nós; mas é uma descoberta de nós próprios, por nós próprios, feita sem azimutes, e assim nasce mais um poeta que não morrerá nunca, cada um deles a querer ser Pessoa, quantas vezes antes da sua pessoa se apessoar e apossar de ser gente. Mas como parece ser o destino dos nascidos neste país, é quase uma obrigação sermos poetas, um fado, uma sina.
Curiosamente o post de hoje do blog da Pó dos Livros é sobre um ladrão de poesia, ao que parece, de gosto refinado e sabedor, de onde se podia concluir que se publica pouco, se vende ainda menos e ainda por cima, há quem roube os livros.
Portugal é um país de poetas como o são a Indonésia, o Canadá, o Burkina Faso, a Roménia ou o Botão. Mitos que o império teceu...
ResponderEliminarmas a Rosário não publica poesia na "Leya", porque não quer ou porque não pode?
ResponderEliminarEu gosto muito de poesia porque me delicia a depuração da palavra, da imagem, da emoção.
ResponderEliminarDiz-se que o primeiro verso é uma oferta divina; os restantes serão sangue, suor e lágrimas do autor.
Estaria disposto a este sacrifício se tivesse alguma vez recebido a Sua benção, benignidade, o que for... Rsrs.
Apesar do que escreve -- A Rosário trabalha no meio -- parece-me que se edita bastante poesia em Portugal.
Mesmo que o número de leitores não seja alargado, os que compram obras de poesia são fiéis e bons acolhedores do que vai sendo editado... Digo eu.
Não há prémios para a poesia. Nem em Portugal, nem sequer o Nobel.
Se bem me lembro, apenas Octávio Paz terá recebido o Nobel. (Estarei a errar?)
A Sophia merecia; o Nuno Júdice, o Al Berto, tantos outros.
(A propósito: para quando o seu próximo livro de poemas? Já reservei um espaço para ele na minha estante, Rosário.)
Boa noite.
Espantoso, me desculpem, pois sou um ignaro!
ResponderEliminarConfesso e assumo... logo excusam de o repetir.
Lamento, sinceramente...
Fiz a pergunta... num blog (seja lá isso o que for e o que quer que signifique... o meu computador é a petróleo!) que parece que devia (de?) ser de gente sabedora... que esbanja sabedoria...
Porque é que se lê poesia?
E ninguém me explicou... nem sequer tentou...
Se calhar é por isso mesmo... ninguém sabe, mas parece bem... e deve dizer-se que sim e
essas coisas todas... e eu fico na mesma!
Pobre, inculto e obstruso...
Olhem tomem lá esta:
O danado do melro,
onde foi fazer o ninho?
Entre as pernas duma moça...
no mais alto cabelinho!
Claro que é versão minha, com pontuação que eu achei devia ser...
Sabem de quem é????
Calhando, não...
não sabia que queria uma resposta taxativa.
Eliminarcada um de nós que lê poesia, terá mil e uma razões diferentes.
eu quando leio poesia, procuro (e encontro) a beleza e a liberdade das palavras, que se sentem e soltam de uma forma muito diferente da prosa, são mais profundas e oferecem-nos diversos caminhos para "vaguearmos"...
não é por acaso que no mesmo poema, é possível que duas pessoas encontram sentidos e espaços diferentes...
Caríssimo,
EliminarHá perguntas que não têm simplesmente resposta...
Hum... então e se bem entendo, posso concluir que é daquelas respostas que temos de procurar
ResponderEliminarnós mesmos?
Peço desculpa pela forma como insisti!
De qualquer modo já achei uma resposta nestes dois comentários anteriores, que agradeço.
E sabem que mais? Pois vou pôr um livro de poemas na mesa de cabeceira e vou começar
por um dos meus preferidos: Júlio Diniz!
Obrigado pela Vossa paciência!
não sei por que razão leio poesia, mas sei que a vida seria pior se não lesse. também não sei se esta é uma razão necessária, mas parece-me mais que suficiente...
ResponderEliminare o que aconselhar a quem quer publicar?
Deste texto e desta problemática levanto uma questão (e responderei por mim) que me parece pertinente e construtiva: será que é assim tão mau, os grandes grupos editoriais ignorarem a poesia?
ResponderEliminarA meu ver, se quer que lhe diga, parece-me óptimo. Se tivermos em conta que o grosso das publicações dessas “massas disformes e sem carácter” pautam pela crescente falta de exigência e qualidade, pelo mediano como garantia, podemos, penso eu, aritmeticamente concluir que esse hiato – o do desleixo do mercado pela poesia – deve ser preenchido por pequenas editoras que garantam a mínima qualidade, mesmo que feita pelo gosto. Aliás, não é preciso ir muito longe (como em muitas outras coisas) para perceber que, mesmo aqui ao lado, em Espanha, a poesia vive desse circuito "secreto" de editoras viradas exclusivamente para a poesia. E se aqui, em Portugal, nessas proporções já se vê alguns casos de crescente sucesso, o nosso problema, parece-me, vem da cultura editorial que ainda vinga apoiada nos sucessos numéricos de outros tempos – quais sebastianistas perdidos no deserto até que encontram oásis maravilhosos para iludir a sua sede. Se calhar sou eu a sonhar alto, mas só ao fomentar um mercado editorial de risco pela quantidade podemos atingir a qualidade e reeducar os leitores perdidos. É preciso, claro, haver pessoas com coragem e dinheiro para isso, mas isso já são outros quinhentos paus.
Já agora e finalizando: isto tanto se aplica ao mundo editorial como ao universo livreiro.
Os mais sinceros cumprimentos
António Aleixo...
ResponderEliminarO excerto que deixei... o melro...
A quem possa interessar (acho que poucos).
O problema é que a poesia não vende.
ResponderEliminarE não vende por falta de uma estratégia de marketing das editoras.
Beijo.
Desenganem-se! E descansem.
ResponderEliminarEste é - ainda e sempre -um país de poetas.
O meu trabalho é (ou ressume-se a pouco mais que) receber originais numa... digamos, vanity publisher , e poesia é o que não falta. É vê-la chegar! Todos os dias, às carradas.
E se, ainda outro dia, por aqui se falava de autores e de seus feitios, aproveito para partilhar que estes, os poetas, que me chegam todos os dias, são mesmo, mesmo poetas, cheios de autoria, de talento latejante: abusam das reticências, ou do amor suspirante ou do desespero existencialista, alguns escrevem odes ao desapego zen, e decidem o espaçamento entre os seus versos, acreditam na liberdade poética da vírgula, e insistem em misturar palavras para criar outras, num atrevimento linguístico de fazer corar.
Não sei se acredito neles, nos poetas, mas que existem, existem!
E lá, onde eu trabalho, eles são publicados. Todos.
Todinhos.