Perder o comboio
As ditaduras assustam quem já passou por elas e fiquei contente com o que aconteceu recentemente na Tunísia, tal como quando vi pela televisão desmantelarem o muro de Berlim. Assistir, mesmo que não ao vivo e a cores, a acontecimentos deste tipo é magnífico, mas sê-lo-á ainda mais para quem lutou, tantas vezes na sombra, por que um dia se tornassem possíveis. E, no entanto, estas alegrias não dispensam o reverso da medalha. Um escritor dissidente, como por exemplo Soljenitsine – autor do polémico O Arquipélago do Gulag, que denunciava as práticas nos campos de trabalho soviéticos –, se não tivesse morrido em 2008, assistiria certamente a um decréscimo do número de leitores da sua obra, muitos deles nascidos já em países independentes e livres e sem memória da ditadura soviética; e Milan Kundera, autor do inesquecível A Insustentável Leveza do Ser, apesar de continuar a publicar, perdeu certamente impacto desde 1989 e, embora mereça, possivelmente já não será lido nem acarinhado hoje como o foi internacionalmente nos anos 80. Tantas vezes apontado para o Nobel da Literatura, a verdade é que, apesar do seu talento e do interesse da sua obra para lá da política, pode ter perdido claramente o comboio e, se não for nos tempos mais próximos, deixará quase naturalmente de ser um candidato ao dito galardão.
Que horas extraordinárias me trouxe à memória! Li na adolescência todo o Kundera de fio a pavio... depois perdi-lhe o rasto... será que deixou de publicar ... ou terá passado de "moda"?!
ResponderEliminarContinua a publicar, mas parece que não.
EliminarNão devia, portanto, continuar a publicar!
EliminarOlá. É sempre lembrar, neste inspirador blogue que tem a perspectiva do editor, que "A insustentável leveza do ser" foi o golpe de génio de um certo editor na Dom Quixote: chamava-se e chama-se Manuel Alberto Valente, e teve o gosto de o ver nas mãos de muita gente nesses eléctricos anos oitenta. Ascendeu ao estatuto de clássico, o que nem sempre é bom, e concordo que os ventos nórdicos não vão ser muitas vezes consensuais, como foram este ano. Kundera não publica romances há onze anos, mas está cá. Ainda há dois publicou um ensaio. Nunca se saber o que fará, do alto dos seus quase oitenta e dois.
ResponderEliminarErrata: É sempre BOM lembrar (claro:)...
EliminarAfinal os dois escritores citados, podem ser definidos como de "intervenção" ?
ResponderEliminarIndependentemente da qualidade literária... isto é tiveram visibilidade pelo que veicularam, que foi oportuno e usado para fins diversos que não os literários apenas...
Enfim, creio que o Kundera não é tanto assim...
Mas, sem dúvida que é algo que concorre para essa divulgação e sucesso comercial - o que interessa às editoras, óbviamente !
E não há muitos casos desses?
Afinal um clássico é como o blazer azul-escuro... está sempre actual, e recordo "A Morgadinha dos Canaviais" do nosso escritor do Mundo Rural, Júlio Dinis... a luta pela conservação das árvores e as posições "modernistas" do pai da heroína, político na capital... ou o missionário e os fanatismos? São coisas que se ligam com factos da actualidade e com que se podem estabelecer paralelos...
O Gulag não será isso mesmo?
O que acontece é que caem no esquecimento ou de facto passam de moda, e compete por exemplo a este blog e aos responsáveis pela leitura, irem lembrando esses livros e autores...
Talvez por isso me tenha habituado a vir aqui diáriamente !
Um bom dia a todos e boas leituras!
Sim, não basta ter talento. É preciso ser pontual, em várias fases da vida, para não perder o comboio (que não costuma atrasar). Além disso, é preciso saber escolher o comboio certo...
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