Portuguesismo
Uma das maiores tristezas dos autores portugueses é o facto de não se conseguir que sejam traduzidos noutras línguas e publicados noutros países, podendo assim elevar-se mais facilmente à condição de universais. Para mim, que trabalho sobretudo com literatura portuguesa, o tempo para investir na internacionalização não é muito, mas as tentativas que faço quase nunca dão frutos. Em primeiro lugar, porque são raras as editoras estrangeiras com leitores de língua portuguesa capazes de apreciarem a obra no seu todo e de se envolverem na publicação de nomes desconhecidos no seu mercado; em segundo lugar, porque há países com uma produção literária tão significativa (o caso do Reino Unido, por exemplo) que quase não publicam traduções; em terceiro lugar, porque os custos de tradução são elevados e, sobretudo em anos de crise, só se aposta naquilo que se sabe vai funcionar. Porém, há muitas vezes um problema suplementar que induzo da circunstância de muitas editoras e agentes estrangeiros se interessarem sempre pelos africanos lusófonos que publico, mas quase nunca pelos portugueses – é que, frequentemente, as obras são demasiado portuguesas e de difícil absorção noutras línguas e realidades geográficas, e este portuguesismo tem obstado a que a nossa literatura seja exportada como outras o são. Creio que os novos autores estão a tornar-se mais cosmopolitas e universais, mas a verdade é que muitos dos nossos mais conhecidos escritores só podem ser inteiramente apreciados para cá da fronteira. Certamente é por causa disto que Agustina Bessa Luís, entre outros, só tem um romance traduzido, e numa ou duas línguas. Mas não é caso único.
Concordo que haja uma boa dose de portuguesismo em certas obras mas, se formos a ver, também os autores estrangeiros (nomeadamente os norte-americanos) usam e abusam de referências locais que dificultam a vida aos tradutores, obrigando-os a uma pesquisa minuciosa. E não é por isso que deixam de ser traduzidos. Bem ou mal.
ResponderEliminarParabéns pelo magnífico blogue.
Confesso que, sendo eu "portuguesa" (por naturalização), também tenho dificuldades de absorver a escrita lusa. Sim, há muito portuguesismo (no sentido de alavancagem da alma portuguesa e não em qualquer sentido depreciativo) que é difícil perceber por "outsiders" ainda que os "outsiders" se considerem portugueses.
ResponderEliminarAchei "A Sibila" um encanto de leitura mas pouco mais me tenho aventurado na Literatura Portuguesa (incluindo os clássicos novecentistas), não porque ache o português difícil mas talvez por este portuguesismo que li no post e me fez pensar.
(Sim, post absolutamente fantástico para me pôr a pensar. Obrigada.)
Vejamos...
ResponderEliminarO "portuguesismo" de que se fala, não pode ser a língua! Esta é sempre possível de se traduzir, creio eu, desde que traduzida por profissional de competência que saiba captar o sentido do que está a ler e passar de forma literária e correcta as idéias. Pois temos o mesmo mal nas que são feitas PARA português e que já aqui foi falado.
Penso que a principal dificuldade é mesmo que os temas são pouco... globais? Quero dizer, são demasiado dirigidos para a nossa realidade, que é capaz de ser hermética, daí a tal dificuldade em ser "bebida" por quem não seja português.
Será que percebi bem? Creio que a conclusão será mais neste sentido... e daí o facto de que se interessam mais pelos autores dos PALOP do que para os nacionais...
O melhor livro que li nos últimos tempos é "No rastro do jaguar" e tem de facto essa faceta a que se pode chamar "global", isto é, pode bem atingir qualquer leitor do Mundo... assim como os livros p.e . de Pepetela (Jaime Bunda, Lueji ou Predadores) mas se calhar Agustina, Lobo Antunes, Moita Flores... serão demasiado específicos e por isso limitados, sem questionar de modo algum a sua qualidade literária!
É um bocado assim como o fado...
Será? Isto sou eu a pensar... se calhar mal!
Eu acho que o António Luiz Pacheco não pensa mal, essa comparação com o fado é oportuna. O portuguesismo terá realmente mais a ver com os temas do que com a língua.
EliminarPela minha experiência, há 18 anos na Alemanha, posso afirmar que o interesse pelos escritores portugueses se resume a certos grupos. Ou porque gostem de Portugal, ou de autores portugueses, ou mesmo gente que se dedique a procurar algo diferente, exótico. É assim como certos nichos musicais, por exemplo, o jazz. O grande público mantém-se alheio. Isto aplica-se mesmo a Saramago, o nosso Nobel.
Não digo que não terá o seu encanto, a sugestão de um autor português é sempre especial, para apreciadores. Por outro lado, falha-se essa universalidade, atingida por autores mundialmente conhecidos.
De resto, penso que um autor de língua inglesa está sempre em vantagem sobre qualquer outro.
Francamente, acabo por não perceber bem a questão das obras "demasiado portuguesas" ou do "portuguesismo". Há até aquele já velho adágio que garante que uma boa forma de ser universal é ser regional...
ResponderEliminarNem vale a pena invocar as dezenas de exemplos de ficções coalescentes com realidades particularistas, da Índia à América Latina, que obtêm vasto reconhecimento internacional. E, por outro lado, o nosso "Levantado do Chão", que me parece intrinsecamente "portuguesista", já foi traduzido numa caterva de países. Também imagino que Agustina seja muito difícil de traduzir; ou que Arundhati Roy teria tido outro sucesso se não escrevesse em Inglês.
Mas isso é tudo secundário até esclarecermos bem o que será isso do portuguesismo. É uma questão de apego a malabarismos lexicais (talvez o caso de Agustina); um estado de espírito soturno?; demasiadas referências culturais, opacas ao exterior?
Ou será sim que a grande maioria dos nossos romancistas actuais não são assim tão interessantes? Ou será que não existe muita vontade de despender energias no processo de exportação?
Diz Luiz Rainha:
ResponderEliminar"Ou será sim que a grande maioria dos nossos romancistas actuais não são assim tão interessantes? Ou será que não existe muita vontade de despender energias no processo de exportação?" (sic)
Eu diria, e numa perspectiva do marketing mix, portanto meramente economicista, que de facto o dinheiro é que faz mover o Mundo!
As grandes empresas assim pensam e trataram de o fazer por gerações... daqueles que são hoje os tais gestores de que se falava ontem aqui... os que marcam reuniões...
Por isso, pode bem ser que sim, como diz!
Por um lado não se arrisca numa aposta em autores portugueses (tal como o nosso alho francês não é concorrencial)...
Por outro lado, se calhar os temas favoritos dos autores nacionais são os seus umbigos, os fantasmas e traumas, o que se torna talvez pouco atractivo e até nem é exportável... quem quer saber das depressões dos portugueses?
Será?
Será mesmo culpa do portuguesismo? Digo isto porque ando há mais de quarenta anos a publicar na Holanda, em Neerlandês, romances de um extremo portuguesismo e, francamente, não tenho razão de queixa das vendas nem do nome. Pelo que me parece que se terá de procurar outro culpado, a não ser que, por milagre, seja eu a excepção à regra.
ResponderEliminarBem, está em questão elevar os escritores portugueses "à condição de universais". Claro que há autores portugueses que se vendem no estrangeiro, mas permanecem uma sugestão especial, um nicho de mercado.
EliminarAinda bem que vende bem, desejo-lhe a continuação :)
De um modo geral, com toda a carga de injustiça que possa conter a afirmação, parece-me que terá a ver com os escritores portugueses raramente contarem boas histórias, regionais ou não. Uma boa história vende-se em qualquer lugar. Há muito pouca gente a escrever histórias e muita a (tentar) escrever literatura de jornal de letras. E aqui os editores são culpados, porque são eles que continuam a apostar primeiro desta forma na sua grelha de planeamento editorial.
ResponderEliminarResume bem a questão.
EliminarDe facto!
EliminarParece-me que estamos a chegar ao cerne da
ResponderEliminarquestão... o que me remete para outros posts anteriores aqui neste blog.
As obras José Luis Peixoto estão cheias de portuguesismo e parece que estão a ser muito traduzidas e lidas lá fora. Há qualquer outra razão, ou muitas mais. Acho útil que nos interroguemos, talvez se conseguirmos meia dúzia de respostas credíveis se consiga mudar.
ResponderEliminar~CC~
O JLP apostou desde o primeiro momento na qualidade das histórias.
EliminarÉ demasiado simplista reduzir um bom livro (e vendável e lido pelo grande público) a uma boa história.
ResponderEliminarA história é normalmente o esqueleto do livro mas este pode ser vestido de várias formas. A diferença entre um conto tradicional e o Dom Quixote, ou a Odisseia, ou a Jangada de Pedra não está tanto na história, mas no resto - A caracterização das personagens, o ritmo e a riqueza da linguagem, as reflexões que intercalam a acção, os ambientes criados.
Tudo isto pertence ao estilo do autor é o que faz grandes livros. Uma boa história pode sem dúvida criar um best-seller, mas passados dez anos ninguém se lembrará do livro.
O Equador e a Fórmula de Deus podem vender milhões em todo o mundo, mas nunca figurarão entre os clássicos da Pleiade ou da Penguin como o Pessoa e futuramente o Saramago.
Deve haver de tudo na vinha do Senhor, mas uns são grandes escritores e os outros são hábeis contadores de histórias.
Lá está o tique de grandiosidade "Uma boa história pode sem dúvida criar um best-seller, mas passados dez anos ninguém se lembrará do livro."
EliminarEu falava de vender, não de obras primas. Mas é sempre assim. Alhos com bugalhos.
Mas nesse aspecto eu concordo consigo, acho que deve haver lugar para tudo e não estou a fazer qualquer juízo de valor.
EliminarPor outro lado custa-me que se critiquem os escritores que tentam fazer literatura altamente personalizada como se fosse uma coisa imbecil e pretensiosa.
O problema dos autores portugueses é o mesmo dos outros autores de países pequenos. Falta dinheiro e capacidade de lobbying. Não nos faltam nem nunca faltaram escritores bons e muito bons e até alguns geniais.
Quantos booker prizes teriam ganho Aquilino, Carlos de Oliveira ou Jorge de Sena se fossem anglo-saxónicos?
O Aquilino por certo que não teria ganho um só.
EliminarDiscordo de boa parte do seu post, na medida em que essa maioria de autores que não chega a ser traduzida, embora possam ser muito bons a nível nacional, são tão bons quanto milhares de outros escritores muito bons de dezenas de outros países e estão a competir com eles. Não creio que o contexto cultural nacional seja um impedimento ao que quer que seja. Veja-se o caso de Lobo Antunes, que mau grado as tias de Benfica e outros manifestos portuguesismos que nenhuma outra nacionalidade entenderá, se afirmou por ter uma voz que é só dele. Mas não se torna Lobo Antunes quem queira, por muito que trabalhe - seria preciso viver o que ele viveu e ler o que leu, para começar. Não deixa de ser engraçado que as editoras inundem o mercado nacional com traduções de obras que muitos desses jovens talentos portugueses que refere seriam capazes de escrever, ao mesmo tempo que esperam que dessa mediania se eleve um talento maior... Outros casos há que procuram o universalismo - como Gonçalo Tavares cujas personagens têm nomes eslavos, germânicos, etc., mas não portugueses, e cuja hiper-intelectualização, ao mesmo tempo de uma originalidade rara, se presta a leituras mais europeias, ou algumas obras de Saramago, em que as personagens nem nome têm e se movem num vazio que poderia ser qualquer país. Cumprimentos.
ResponderEliminarSe prestarmos atenção também traduzimos muito pouca literatura que não seja a das línguas dominantes, principalmente a inglesa mas também a castelhana(age em bloco e inclui autores espanhóis e da América latina). E tendo em conta a literatura de países da nossa dimensão e excepto um ou outro autor já incensado pela história, onde estão os escritores Holandeses, Dinamarqueses, Búlgaros, Romenos, Húngaros, Noruegueses, Checos, Gregos, e mesmo Alemães (pouco se traduz da actual literatura alemã). E isto para só mencionar países europeus. Segundo parece também os autores brasileiros são pouco traduzidos.
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