Toma e embrulha
Quando comecei na edição, quase todas as capas eram tristes, mesmo as bonitas. (Talvez os portugueses sejam um pouco murchos, e o seu carácter acabe por se reflectir no que fazem em termos criativos.) Havia muito menos editoras – e as suas colecções não raro eram embrulhadas em tons de castanho, azul-pardo e cinzento – pouco apetecíveis, em suma. Chegada a globalização, as coisas inverteram-se, o que, por um lado, foi extremamente positivo, mas, por outro, gerou situações em que o embrulho não corresponde ao presente que tem dentro e, em casos extremos, em que o embrulho ainda vem embrulhado em sacos de gaze e caixas de plástico – como se o invólucro contasse mais do que tudo o resto. Enfim, o mercado mudou e os clientes precisam de ser atraídos... e temos de viver com esta realidade, gostemos dela ou não. Em todo o caso, há muitos bons artistas gráficos a quem podemos dizer «Toma e embrulha» e fazem capas belíssimas (e adequadas); e também editoras que têm linhas gráficas de extremo bom gosto e servem plenamente os objectivos de um livro, não o tornando menos vendável por causa disso. O problema é que o que sobra é uma amálgama tão indiferenciada que, ao entrar numa livraria, quem não seja um leitor habitual se arrisca a não perceber mesmo que livro comprar...
O livro é um objecto que estimamos, ou devemos estimar, e como tal deve ser bonito.
ResponderEliminarUma boa linha gráfica valoriza o livro, convida a espreitar, atrai o interesse e eventualmente torna-se num companheiro particularmente 'acarinhado'.
Aqui no Japão, onde o mercado é extremamente concorrido, o cuidado dedicado à parte gráfica é extremo e torna os livros, de facto, muito apetecíveis — até para quem não leia Japonês!
Em Portugal aprecio particularmente as linhas estéticas da Antígona e da Assírio & Alvim — que seguem opções muito bem definidas e identificáveis, e tornam quase tudo o que publicam em objectos 'coleccionáveis', o que constitui um 'extra' manifestamente positivo para a própria promoção das editoras.
Na mesma direcção, gostava muito da linha editorial da (extinta?) Hiena: livros breves, de autores fundamentais, via de regra textos menos divulgados destes, mas sempre de reconhecido interesse, e uma boa linha gráfica/estética que os tornava perfeitamente identificáveis à distância de um olhar.
Hoje, por acaso, tornei a dar uma vista de olhos numa colecção da PENGUIN que venho adquirindo desde há uns anos, actualmente na quinta série, intitulada "Great Ideas" — pequenos ensaios, por vezes extraídos de obras maiores, na sua generalidade, de autores celebrados — e, de facto, um dos aspectos que chama logo a atenção, é o extremo bom gosto no que respeita às capas — o que (assim me parece) é susceptível de atrair até mesmo aqueles que não se debruçam tanto, ou preferencialmente, sobre este género de leituras.
Vale a pena espreitar: http://www.penguin.co.uk/static/cs/uk/0/minisites/greatideas/index_1.html
As capas recebem uma extraordinária impressão dos respectivos motivos em relevo (o que no site não é possível apreciar) e torna estes livros em objectos realmente cobiçáveis!
Uma referência a apreciar!
Renovados votos de um ANO NOVO MUITO FELIZ.
Luís Filipe Afonso, no Japão
Meu caro Luís, peço-lhe também uma recomendação de ligação sobre esses livros japoneses de que fala. E aproveito o ensejo para lhe agradecer as suas intervenções e o tanto que aprendo consigo sempre que vem a "casa" da Rosário:).
EliminarOs livros numa estante de uma biblioteca ou de uma livraria qualquer, são como as pessoas. Fechados têm apenas um nome na lombada. Abertos falam por si. Muitas vezes as capas podem ser muito bonitas, mas o livro não ter nada de interesse. Juntar a qualidade gráfica à qualidade do livro, é com certeza um trabalho de equipa. Mas o trabalho/ responsabilidade principal creio que será sempre do editor? Ou não?
ResponderEliminarParafraseando Sérgio Godinho:
ResponderEliminarquer que embrulhe ou é para ler já?
A capa de um livro não é tudo e, se nuns casos faz jus ao seu conteúdo, noutros deixará muito a desejar.
ResponderEliminarAo ler hoje este post e os comentários, em particular, o de @Luís Filipe Afonso, não pude deixar de lembrar um artigo sobre capas de livros (http://www.ecrans.fr/Le-site-du-jour-Book-Cover-Archive,6093.html), no qual se fazem várias referências relacionadas com o assunto, dando-se especial destaque ao blogue http://blog.bookcoverarchive.com/.
À anfitriã deste blogue, bem como ao comentador acima referido, agradeço as interessantes
impressões e sugestões.
Feliz 2011!
Zélia Santos