Politicamente correcto?

Miguel Real escreveu há poucos anos um excelente romance (se não me engano, finalista do prémio da APE no ano em que Francisco José Viegas o arrebatou com Longe de Manaus). Chama-se O Último Negreiro e é sobre o último grande traficante de escravos português, Francisco Félix de Sousa, que teve mais de cem filhos a quem, sem excepção, deu baptismo cristão e escolaridade. Ao contrário daquilo que o público poderia esperar, embora longe de fazer a apologia da figura, o escritor também nunca atira o homem para a fogueira, situando-o no contexto histórico, e não olhando-o pelos olhos escandalizados do nosso século (onde, apesar de tudo, o tráfico e os escravos permanecem). Há dias, soube que uma editora norte-americana se prepara para substituir as mais de duzentas ocorrências da palavra «nigger» do livro As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, pelo mais sedoso e moderado vocábulo «escravo», a fim de que a obra não seja banida nas escolas. Politicamente correcto? Pode ser, mas a minha resposta é: não, obrigada. Em primeiro lugar, porque ninguém tem o direito de pôr a mão no texto de um génio; em segundo lugar, porque a obra tem de ser lida não apenas como literatura, mas – como disse Sarah Churchwell, professora de Literatura Americana citada pelo Público – como documento histórico que também é, no qual «a palavra em causa é icónica, porque codifica toda a violência da escravatura» e a sua rasura ocultará dos leitores a «evolução moral do carácter» do protagonista. Será que daqui a uns anos nos proíbem de ler A Arte de Amar, de Ovídio, por ser, aos olhos do século XXI, um texto machista?

Comentários

  1. Para além do politicamente correcto existe a estupidez cultural, mas também os interesses comerciais que, aqui, provavelmente, vão acabar por ter força de lei.
    Pessoalmente não concordo com certas mudanças pois acabam por tender a fazer esquecer a História. Darei dois exemplos, um público e um privado: a ponte 25 de Abril nasce em 1966 com o nome de Ponte Sobre o Rio Tejo, apesar de ser conhecida como Ponte Salazar; aos 8 anos mudou de nome para Ponte 25 de Abril. Não me parece ser a forma correcta de criticar* o passado…
    Por outro lado, depois dum divórcio, com frequência faz-se cair o nome que se adoptou no casamento: para mim isto não faz sentido na medida em que está implícita uma tentativa de apagamento do que já fomos e isso é impossível, pois cada um de nós é o somatório de todas as nossas vivências, quer queiramos, quer não.
    A sugestão de alterar um texto na sua língua original é impensável, uma vez que nem se trata duma tradução. É censura pura.
    *Analisar, interpretar, avaliar, estudar, etc., etc., etc.

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    1. Cara Areia: Para mim o que não faz sentido NENHUM é adoptar o apelido do marido (ou da mulher, o que embora permitido por lei, quase nenhum homem faz) quando casamos. Nasci com um apelido e hei-de morrer com ele. Para quê acrescentar o que não me pertence??? Assim, de uma penada, resolve a questão do "apagamento". Abraço, Cristina

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    2. Concordo. Porém, referia-me à prática existente que, não obstante sermos ou não adeptos, é a realidade. Apenas isso.

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  2. Bem, com crianças é preciso ter cuidado. Não sou a favor de que se alterem os textos, mas os professores devem ter muita sensibilidade ao explicarem as "marcas da época".

    Pode ser constrangedor e dar azo a más interpretações analisar um texto com a palavra "nigger", que tem (sempre teve) um sentido pejorativo, numa aula em que metade (ou mais) das crianças são pretas. A boa formação do/a professor/a é imprescindível. E, mesmo assim, há sempre o perigo que alguma das crianças se sinta ofendida ou inferiorizada.

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  3. Já agora:

    "O inesperado aconteceu com um dos clássicos do escritor Monteiro Lobato (1882-1948), um dos ícones brasileiros, cuja extensa obra foi lida durante várias gerações por crianças e adolescentes. Aliás, até foi adaptada com sucesso pela TV Globo, no programa Sítio do Picapau Amarelo, que passou na televisão portuguesa. Mas, agora, o livro Caçadas de Pedrinho, publicado inicialmente em 1933, foi considerado racista pelo Ministério da Educação e retirado da lista de livros a ser distribuída aos alunos da rede pública."

    Ler o resto aqui: http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1720563&seccao=Livros

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  4. Só mesmo os americanos, para alterarem palavras de um livro, mais a mais, de um tal livro!

    Acho que tem a ver com a consciência, mas não vale a pena quererem escrever a história à moda das palavras de hoje (que não da prática de hoje). Ainda assim, muito teriam que contar!!!

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  5. António Luiz Pacheco21 de janeiro de 2011 às 05:39

    Hipocrisia pura!
    Como bem disse, para se entender o passado há que o ver com a crueza pura e tentar perceber o sentir da época!
    Tentar compreender Nuno Álvares Pereira por comparação com a actualidade, é fazer dele um tolinho! E o que dizer de Camões?

    Acho que vivemos numa sociedade que sempre foi e é cada vez mais hipócrita. Os americanos são campeões na defesa dos direitos humanos
    e simultâneamente no seu desprezo... basta que se sobreponha um interesse qualquer estratégico ou económico... e lá se vão esses nobres sentimentos... olha quem!

    Há que ter essa noção! Apagam a palavra preto de um livro? Mas ao mesmo tempo continuarão
    a segregar os pretos...
    É o made in USA no seu pior!

    Vamos ver apagada a palavra mouro na nossa literatura? Ou castelhano? Porque têm conotação negativa?

    As criancinhas, pretas, já sofrem agressões qb para que a palavra preto na obra de Mark Twain lhes cause traumas que façam delas os quê?
    Temem que depois um dia ataquem livrarias e queimem livros? Os americanos são muito mais estúpidos do que parecem e não é só cá, como se vê, que há gente assim iluminada e hipócrita.

    O mal é geral...
    Dessem-lhes antes a ler o poema "Lágrima"... que é exactamente de uma preta!

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  6. Bem, à parte a questão do racismo em livros mais antigos e a moda do politicamente correcto, o post refere ainda a postura de Miguel Real, em "O Último Negreiro", aliás, habitual num/a autor/a de romances históricos. Seria ridículo escrever sobre a Idade Média, por exemplo, olhando-a "com os olhos escandalizados do nosso século".

    Por acaso, publiquei na quarta-feira um post sobre o assunto, que alargo aos autores de romances em geral: devem-se apresentar as personagens sem fazer juízos de valor, pois ninguém é dono da verdade absoluta. Contra o meu hábito, aqui deixo o link:

    http://andancasmedievais.blogspot.com/2011/01/o-autor-e-as-suas-personagens.html

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  7. Cara Maria do Rosário, engana-se: o livro de Miguel Real que foi finalista no Prémio APE (no ano em que FJV ganhou) foi «A Voz da Terra».

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  8. António Luiz Pacheco21 de janeiro de 2011 às 10:42

    Passe a publicidade... mas agradeço desde já as orientações preciosas que venho de facto aqui recolhendo, e a propósito, porque vem mesmo a talhe de foice, refiro que tentei no romance que editei recentemente (Largueza) ter e dar essa perspectiva temporal e da época, na minha pretensão de lhe conferir um fundo histórico e a sensação de que "podia ter sido assim".

    Grato pela partilha que se faz neste blog!

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  9. Parece que nos EUA há quem pretenda fazer uma versão politicamente correcta da Bíblia, nomeadamente no que diz respeito ao suposto sexismo da palavra "Deus".

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  10. Alterar o conteúdo de um livro sem autorização do autor devia dar cadeia...
    Beijos.

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  11. Oh Jaime que tal substituir Deus por Presidenta ;).
    A nova edição da Huckleberry Finn é ridícula (já escrevi isto no fjv).
    Aí está um péssimo trabalho de editor.
    Quanto a mudança as crianças não são estúpidas se lhes for explicado aprendem história e literatura.

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  12. Sobre Francisco Félix de Sousa, o livro do Bruce Chatwin O VICE REI DE AJUDÁ (creio que será este o título), é imperdível. Sinceramente este ÚLTIMO NEGREIRO do Miguel Real, achei-o uma seca de todo o tamanho, é daqueles que nunca conseguiria chegar ao fim.

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