Uma coisa dramática

Toda a gente que estuda Literatura Inglesa lê nem que seja uma peça de Shakespeare, mesmo que nunca tenha a sorte de assistir a uma. E, no entanto, a literatura dramática, incluindo a de Shakespeare, pede encenação, performance e, em suma, espectáculo. Talvez por isso, mesmo quem gosta muito de ler raramente se atira a um texto de teatro e, como também se vai pouco ao teatro em Portugal, permanecerá mais pobre e ignorante em muitos aspectos. Lembro-me de, ainda muito nova, ter lido As Três Irmãs, de Tchekhov, com bastante prazer – e este prazer não advinha apenas do texto, mas também do subtexto, da novidade que era encontrar indicações de cena, como a voz sussurrada do autor russo, que mais tarde aprendi chamarem-se didascálias. Pouco depois disso, a professora de Francês mandou-nos ler A Cantora Careca, de Ionesco, e foi também uma leitura fascinante que, ainda por cima, me fez frequentemente rir até às lágrimas. Já na Faculdade, passei um ano inteiro a estudar Corneille, Molière e Racine e fiquei completamente seduzida pela Fedra, deste último, que me contaram uns amigos que moraram em França fazer parte do currículo da escola secundária e ser lida nas salas de aula em voz alta, distribuindo-se os papéis pelos alunos e valorizando-se a leitura com o objectivo de interessar os jovens pelo texto. Em Portugal, porém, a relação entre os leitores e o teatro parece mesmo uma coisa dramática...

Comentários

  1. António Luiz Pacheco31 de janeiro de 2011 às 03:40

    Passei grande parte da infância numa quinta, sem luz eléctrica (que só se pôs em 1974 para o casamento da minha irmã mais velha, tinha eu 18 anos).
    Juventude e adolescência foi na Linha, onde fui fazer o liceu em alternativa ao isolamento e às campanhas ultramarinas de meu pai... Nesse tempo as férias eram férias, praticamente 3 meses... que eram passadas na quinta, com primos e amigos que se iam revezando e vinham passar connosco algum tempo.
    Sem luz, nem as distracções que actualmente há, o recurso à imaginação era obrigatório... e dele fazia parte o teatro!
    Por influências familiares, com recurso às velhas arcas de roupas antigas ou menos usadas, fardas velhas, e adereços de todo o tipo, compúnhamos teatros que nos levavam a ler peças (de que havia na biblioteca uma boa variedade até por herança da tia Augusta Cordeiro), a distribuir e brigar por papéis e levavam tardes de calor a ensaiar!
    Depois à noite e para os adultos - às vezes até com acompanhamento musical, piano e violino, conforme quem estivesse - representava-se!
    Isto levou fatalmente a que mais tarde se escrevessem ou adaptassem peças... e noutras condições até gravássemos peças radiofónicas na senda do "Simplesmente Maria" e dos Parodiantes...

    Enfim, creio que tem a ver com os tempos mas também com o contacto que havia naquela altura com adultos de uma outra qualidade, que quando crescemos já não fomos...

    Devo também referir a forma como tive aulas de português e francês no liceu... com a Dr.ª Irene Ferreira (a "Vesga... que aliás repetia na sua voz e dicção característica que prolongava a última letra "Ó Pachecooo olha que eu sou vesgaaaa , mas não sou cegaaaa ...", ou a Dr.ª Virgínia Lima, quem nos punham a ler peças de teatro em português e francês na aula e dando a cada um um personagem...
    Foi assim que Moliére e D.João da Câmara nos foram apresentados também, mesmo quando já tinha representado "Peraltas e Sécias" nos nossos serões culturais de Verão...

    Enfim... creio que eram práticas que hoje talvez não sejam possíveis daquele modo, mas não haveria forma de as adaptar aos dias de hoje?

    Parece que se perdeu de facto algo... hoje a malta reúne-se por aí e quando não estão a dormir da noitada ou a recompor-se do festival onde estiveram 3 dias, ouvem aquelas coisas que colocam nos ouvidos e os isolam, sentam-se com portáteis no colo, fazem zaping nos 200 e tal canais da tv cabo, e, aborrecem-se!

    E sim é dramático, porque acho que é mais um vazio nas gerações que depois fundam partidos políticos pelos animais?

    Enfim, se calhar estou mas é a ficar velho...

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  2. Sim, no Liceu Francês lemos e estudámos várias peças de Corneille , Racine e Molière. Phèdre , Le Cid, Andromaque , etc , mas as minhas preferidas eram as do Molière : Le Mysanthrope , Les Femmes Savantes , Le Malade Imaginaire , etc por serem textos hilariantes e de uma intemporalidade espantosa (vale mesmo a pena lê-los). Só muitos anos mais tarde, pude assistir a uma representação de Corneille na mítica Comédie Française (o equivalente ao nosso Teatro Nacional D. Maria) e constatei que quase todo o público era constituído por grupos escolares...
    Ionesco e Beckett também foram lidos mas o que deixou mais marca foram as peças de Albert Camus, sobretudo Calígula.
    Ao lado disto, estudar Gil Vicente era como comer uma carcaça seca depois de provar croissants recheados... Mas recordo com muito gosto as minhas leituras das peças do Bernardo Santareno (injustamente esquecido?). Adorei O Judeu.
    Cristina Carvalho

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    1. António Luiz Pacheco31 de janeiro de 2011 às 06:22

      Cara Cristina

      Como disse, sem ter andado no Liceu Francês, tive professoras no 2º ciclo liceal, que nos davam a ler na década de 60/70 esses autores e qual o o método que usavam e julgo cativava.

      O que mudou, terá sido o sistema, porque pelo que me apercebi pelas minha irmã mais nova e sobrinhos, se passou não a dar literatura e sim a fazer interpretação sócio-polítca dos textos, aliás escolhidos para essa finalidade e que nunca eram os clássicos... aliás fascistas!
      O imaginário e o sonho, a poesia, a elevação de sentimentos ou a sua exaltação, superados pelo pragmatismo marxista ou a visão histórica do socialismo científico...
      Aliás na minha passagem pelo ensino do "outro lado", entre 1978 e 1984, os meus colegas que davam português eram quase sempre oriundos da área de histórico-filosóficas e da esquerda dura, e, me questiono bastante hoje em dia se isso não terá tido uma influência menos benéfica nalgum afastamento e falta de leitura ou mesmo ileteracia nos meus sobrinhos e tantos do seus amigos que têm hoje já mais de 30 anos... a despeito de formados em coisas estranhíssimas e que sabem tanto sobre o budismo ou direitos dos animais quanto ignoram onde fica o Nepal... ou que esta foi uma colónia inglesa, não sabem quem foi sir Edmund Hilary, nunca ouviram falar em sherpas... nem no yéti por conseguinte...

      Quanto a Bernardo Santareno... bom, está tão esquecido quanto outros... (enfim não aqui no Correio do Ribatejo, um jornal bafiento que meia dúzia ainda mantém). Hoje só valem uns quantos autores e géneros, aliás o teatro moderno e as encenações actuais, duvido que se prestem a ser usados numa aula...

      Gil Vicente... não concordo bem consigo, tem até muito sumo... mas evidentemente perde para Molíére como este para Brecht ou Shaw e por aí fora, tem a ver com os tempos e é preciso ler e
      olhar às épocas em que foram escritos... acho eu...

      Cumprimentos e creia que é um prazer e até estimulante discordar eventualmente um pouco do que diz.

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    2. Caro António,
      Penso que se estará a dirigir à minha homónima, a Escritora ... ora, eu sou só uma mera Curiosa. De qualquer forma, honra-me o seu comentário.
      Cumprimentos,
      Cristina Carvalho (vou pensar em mudar de assinatura para evitar a confusão!)

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    3. António Luiz Pacheco31 de janeiro de 2011 às 11:10

      Estava a responder ao seu post... Cristina Carvalho... ignoro se é ou não escritora e me parece apenas uma pessoa inteligente e com opinião, no meu ponto de vista, interessante!

      Espero sinceramente ter oportunidade de voltar a trocar impressões consigo.

      António Luiz Pacheco

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  3. A prática do Teatro esteve sempre na nossa dinâmica do dia-a-dia, tanto mais que, como os meus pais tinham colégios onde os teatros estavam presentes com actores que iam dos alunos, aos pais dos alunos, às professoras, cozinheiras, auxiliares e filhas dos donos do colégio, vivíamos a escrita, a leitura e a acção teatral. Revejo-me nas palavras de ALPacheco pois aos olhos dos outros nós andávamos sempre em festa: ensaios, cenários, guarda-roupa feito à medida, alugado ou simplesmente tirado do fundo dos baús, pinturas e máscaras.

    A leitura de peças de teatro podia ser fomentada se os alunos fossem incentivados a escrevê-las. A didascália, que aparentemente corta a leitura, também trás informação insuspeita e surpreendente que, ao leitor garante mais informação, ao escritor permite maior liberdade de acção, orientando as personagens e direccionando a percepção do leitor, revelando-se uma forma de Poder para quem escreve.

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    1. António Luiz Pacheco31 de janeiro de 2011 às 09:58

      Confesso que desconhecia essa tal dis .. coisa... cália... mas estamos sempre a aprender, lola !

      Porém algures na memória apareceu uma luzinha e fui ali dar uma espreitadela... de facto há muitas versões antigas de autores, nessa fomra como que se um guião (ao jeito de
      "Sacanas se, Lei" para falar numa edição moderna...). Por exemplo Charles Dickens!
      Aliás as versões que tenho da Condessa de Ségur são igualmente escritas desse modo, com as falas identificadas pelo nome e as expressões, gestos ou movimentos dentro de parêntesis.
      É curioso e pelos vistos caiu em desuso...
      Talvez porque seriam pensadas para o teatro?
      Acho que Dickens era mesmo para isso não era?
      E havia o hábito de se fazer leitura, isto é de alguém ler para uma assistência.

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