Papões e outras criaturas

Aqui há tempos, num encontro literário que se realiza no Fundão, conheci duas pessoas extraordinárias que vivem em Alcobaça e têm uma pequena editora – a Escafandro. Trata-se da Rita Nabais e do Nuno Matos Valente, ambos professores, ele autor também de alguns livros, nomeadamente  o que aqui me traz hoje: Bestiário Tradicional Português. Conta o Nuno numa entrevista ao Observador que, há uns tempos, se apercebeu de que as criaturas das antigas histórias portuguesas – bruxas, monstros, almas penadas, papões, gigantes, etc. – começaram a perder claramente terreno para o massificado Halloween, por exemplo, que pouco ou nada tem que ver com as nossas tradições. Surgiu-lhe então a ideia de recolher as histórias tradicionais que incluem estas figuras (enquanto há quem se lembre de as ouvir de pais e avós). Fez uma pesquisa ao longo de quatro anos, mergulhando na obra de Leite de Vasconcelos, Alexandre Herculano, Teófilo Braga e muitos outros autores – e também ouvindo relatos em muitas partes deste nosso Portugal, chegando, de resto, à conclusão de que muitas histórias se repetem, mesmo que os nomes das criaturas não sejam sempre os mesmos. E o resultado é então um livro que vai já em segunda edição e agrada tanto a crianças como a adultos. Publicado pela Escafandro e ilustrado por Natacha Costa Pereira.

Comentários

  1. Um livro que vale a pena! Tenho uma edição que há-de ter sido a primeira...

    É um tema interessante este, de que pouco se conhece e são os entes fantásticos do imaginário ou da realidade que tanto se misturam, os lobisomens e as bruxas, fadas, seja o gigante Almourol, o cobrão, e até tanta toponímia como Abitureiras (de abutre) ou Arronches (de auroque) , Gardunha (de doninha) Ardila (de esquilo), Zebro (de onagro) ... etc. etc.

    Muito pouco é divulgado e sabido sobre a Senhora da Nazaré (uma das poucas virgens negras, como a de Macarena), e sua lenda ou da Senhora do Cabo, de pegadas de dinossauros e patas de cavalo fincadas em falésias que são orientação estelar de antigos cultos peninsulares. Já pouca gente sabe quem era Endovélio e a influência que tem em nós um povo do Sol, ou de Atégina a deusa-mãe (que antecedeu e está na origem da nossa tradicional devoção a Nossa Senhora), etc.

    Independentemente da devoção ou crença, acho muito interessante este tema, e é uma pena que os caretos sejam menos conhecidos que as abóboras do Halloween! Mas estas são prova de modernidade de evolução, e aqueles um testemunho de antiguidade desprezível porque relegam para as tradições que os modernos tentam ultrapassar em prol das novas modas. O pessoal do marketing da distribuição é ultramoderno e evoluído, assim como as elites da cultura, logo acham que Fátima é apenas um local de superstição, por exemplo. Nunca lhes ocorreria que em Portugal e na Cova da Urtiga possa haver um portal, ou nos Almendres, nas Ilhas, num dos nossos Finisterras, não, é mais chic e fica melhor localizar isso algures em locais imaginados ou conhecidos, mais turísticos. Vilar de Perdizes só faz rir, como o bruxo Alexandrino. Não inspiram nada a não ser troça.

    Mas, temos muitíssimo material ... fôramos americanos e iam ver os livros e os filmes que para aí pululavam!

    Saudações cá da terra dos cazumbis, a Cidade Morena!

    ResponderEliminar
  2. O título parece não abarcar a dimensão do conteúdo.

    ResponderEliminar
  3. Hei de procurar por lá o Arranca-pinheiros, o Mama-na-burra e o Rebenta-barrocos. Não conseguiria contar a história que ouvi o meu pai contar várias vezes, mas ainda me sinto lá, ao seu colo, assustada e maravilhada com todas aquelas aventuras e desventuras.

    ResponderEliminar
  4. Saiu anónimo, o comentário.
    Anabela F.

    ResponderEliminar
  5. Era altura de a Porto Editora agarrar mais um best seller. !!!!!!!

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório