Famílias funcionais
Fui recentemente convidada para participar num debate na vila de Almeida (aquilo é que era frio) no âmbito de um programa de protecção a doze vilas e aldeias históricas de Portugal. Aí conheci um jovem músico que, depois de muitos anos a dar aulas na escola pública, resolveu envolver-se neste projecto e fazer uma recolha de canções, músicas e histórias de um património essencialmente oral que, com a emigração e a desertificação do Interior, correriam o risco de se perder para sempre num futuro não muito longínquo. Mas, além deste trabalho importante e altamente meritório, Ricardo Baptista (assim se chama o ex-professor de Educação Musical) também escreve; e venceu em 2015 o Prémio Literário Maria Rosa Colaço, tendo o livro premiado sido oportunamente publicado pelas Edições Afrontamento. Chama-se A Minha Mãe Anda Estranha e é totalmente narrado por uma miúda de oito anos, um pouco à maneira de um diário, incuindo no que diz respeito ao design e à paginação, que lembram fielmente os de um caderno escolar, a que nem sequer faltam a caligrafia, as nódoas e os borrões típicos da infância. Mas não só a circunstância de a história estar a ser contada por uma criança é completamente verosímil, um registo nada fácil de manter, como também o livro vale por esta narradora ser filha de pais separados e gostar muito do namorado da mãe e da namorada do pai. Esta experiência das famílias plurais não é muito tratada nas histórias para crianças, sobretudo com uma leveza e uma ternura que ajudam a desdramatizar experiências que hoje são completamente comuns, e não um bicho de sete cabeças, como quando eu era adolescente e os meus pais se divorciaram. Ora, encontrando-nos nós perto do Natal, parece-me este livrinho um excelente presente para miúdos cujos pais já não vivem juntos e começam a querer refazer as suas vidas. É também excelente para os que vão ter um irmão, já que a mãe do título anda estranha justamente por causa de uma gravidez.
Excelente. Que palavra mais linda, amei: Desdramatizar.Transitar o prodígio resgata (quanta) sensibilidade gramatical. Ora veja, o simples nos é agradável e desde sempre o concede jus a história, Ática.
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi
Pois, de disfuncional passou a funcional, a família. De permanente passou a precária. Laços afetivos sustentam-na por pequenos lapsos de tempo. Breve perguntaremos: para que serve a família?
ResponderEliminarInfelizmente, hoje ainda há casos desses que são tratados como bichos de sete cabeças. Por isso, também saúdo um livro infantil que desdramatiza o tema. Ainda bem que ganhou o prémio!
ResponderEliminarPois gostei do título do livro e de ser narração infantil. E até o projecto musical do Ricardo me é agradável. Vou ver se o encontro na próxima digressão a uma livraria.
ResponderEliminar...e Maria Rosa Colaço é pessoa que tem a minha admiração. Desconhecia que houvesse um prémio com o seu nome. Ainda bem, ela merece.
EliminarPara os nossos Comparsas Extraordinários que como eu não saibam quem é Maria Rosa Colaço, poderem colmatar essa lacuna:
EliminarComo obra de destinatário preferencial infantil publicada ao longo de várias décadas,
Maria Rosa Colaço é uma figura marcante do universo de autores portugueses da
segunda metade do século XX. A sua produção literária, abarcando a narrativa e o texto
dramático, encontra-se centrada no universo infantil. A partir da leitura dos seus textos,
desde O Espanta-Pardais (1961) até O Coração e o Livro (2003), é possível perceber de
forma muito clara e precisa a sua concepção de criança e de infância, a sua confiança
inabalável nas suas competências e capacidades e a esperança ilimitada que deposita nas
gerações mais jovens. Assim, os textos de Maria Rosa Colaço caracterizam-se pelo facto de serem protagonizados por crianças e cruzados pelo maravilhoso que, de alguma forma,
parece tentar superar ou mitigar as carências (afectivas ou materiais) com que os seus
heróis se debatem. De índole interventiva e também pedagógica, a obra de Maria Rosa
Colaço apela a uma releitura que não esqueça o percurso da autora. | AMR
Louvável e interessante iniciativa a de fazer essa recolha!
ResponderEliminarQuanto ao tema... bom eu mesmo me divorciei e casei novamente... por acaso o meu filho que na época era muito pequeno sempre teve e tem uma relação com "a minha cruel madrasta", como ele trata a dita-cuja. Creio que hoje é tão vulgar que não me parece motivo para tanto alarde, e sinceramente também não me parece que ponha em causa a família tradicional e nem o seu conceito, pois para mim "família" é um núcleo bem alargado para além do casal-e-filhos. Sempre convivemos e continuamos a juntar-nos em nossa casa, com filhos de uns e outros casamentos, maridos e mulheres alternando, mantendo por empréstimo sogros velhotes que continuaram a ir comer o "melhor perú do Mundo" ( o meu, obviamente) e que falecendo deixam as suas bibliotecas ao antigo genro...
Será isto tão estranho assim? Talvez seja motivo para um romance, quem sabe...
Saudações novamente cá da Cidade Morena e aliviadas, pois ontem ali perto do Chongorói , escapei por pouco de chocar com uma vaca, talvez os meus reflexos de aficionado me tenham valido para a tourear...