Livros em viagem

Hoje, quando pensamos em militares, mais depressa os associamos a actividades físicas do que a intelectuais. Haverá de tudo, evidentemente. No entanto, entre militares famosos de outros tempos estiveram cabeças muito bem-pensantes, grandes estrategas e gente muito lida. Napoleão, segundo alguns dos seus biógrafos, fazia-se sempre acompanhar de um certo número de livros favoritos para onde quer que fosse. E parece que até concebeu os desenhos de bibliotecas portáteis que acabaram fazendo parte da sua bagagem corrente. Leio esta informação no blogue do escritor e ilustrador Austin Kleon (https://austinkleon.com/about/) que, por sua vez,  a divulga a partir das declarações de Louis Barbier, bibliotecário do Louvre durante muitos anos e cujo pai foi o bibliotecário do próprio Napoleão. Conta ele que essas bibliotecas eram uma espécie de caixas com prateleiras dentro, que comportavam cerca de 60 volumes. Feitas inicialmente de mogno, passaram depois a ser de carvalho, por ser uma madeira mais resistente. O interior era forrado a veludo ou cabedal verde e os livros encadernados a pele. Cada um destes «estojos» tinha o respectivo catálogo, que mencionava o número de cada obra para que não se perdesse tempo à procura de um livro. Havia, porém, alguns títulos que Napoleão gostaria de consultar nas suas viagens que não constavam destas bibliotecas por serem demasiado volumosos; então, ele escreveu ao senhor Barbier-pai, encomendando uma biblioteca de 1000 títulos!, na qual os livros, compostos numa letra bonita, fossem impressos sem margens e com capas moles e flexíveis para poupar espaço, abarcando poesia, ensaio, teatro, ficção, religião, história e muito mais. Militares leitores destes já não há...


 


tumblr_inline_n6x1mzc9sr1qz6f4b.jpg


 

Comentários

  1. Emílio Gouveia Miranda25 de outubro de 2017 às 03:20

    Felizmente militares destes - ainda - há. E, estou certo, sempre haverá. Não só bons leitores como bons escritores.

    ResponderEliminar
  2. Ora, disciplina de leitura trata-se por militância. Felizmente arte acontece com valor (autêntico) iluminado. Claro, Napoleão Bonaparte tivera tempo de sobra em Elba.


    Cláudia

    ResponderEliminar
  3. António Luiz Pacheco25 de outubro de 2017 às 05:05

    Que bonita aquela mala e os livros que contém! Que maravilha... quem me a dera, confesso, pois é coisa que desperta a cobiça e apetece ter.

    Militares escritores, temos tido sim senhor... e lembro-me logo dos nossos exploradores do século XIX! E do meu venerado comandante Henrique Galvão! Para não falar de Camões... na actualidade ainda existem, Carlos do Vale Ferraz (pseudónimo do coronel Carlos de Matos Gomes), e creio que podemos colocar Lobo Antunes ainda nessa categoria...

    Da actual geração, pois não sei... mas suponho que temas não faltem, continuam as nossas FA a desempenhar missões pelo Mundo, faltará talvez o hábito de escrever como o de ler? Ou estarão a guardar-se para o fazerem mais tarde?

    Saudações civis, cá do Bairro Ribatejano!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco25 de outubro de 2017 às 05:08

      Nota: por curiosidade acrescento que tenho diversos romances ou relatos, escritos por militares na I Guerra Mundial, nas campanhas africanas das duas guerras, das campanhas africanas e depois na chamada guerra colonial... ou seja, há (houve) mesmo militares escritores e bem mais do que possa pensar-se!

      Eliminar
  4. A lista seria longa. António Sérgio, Jorge de Sena (abandonou a meio do curso), Henrique Lopes de Mendonça (quase todos os portugueses conhecem alguns versos de um dos seus poemas pois se tornou na letra do hino nacional), António Patrício (tem pelo menos uma peça de teatro conhecida: D. João e a Máscara), Venceslau de Morais, Gago Coutinho (os seus escritos não foram de ficção, versaram a cartografia antiga e o regime de ventos na época dos descobrimentos), José de Guimarães (não é um escritor mas é um grande artista; quando coronel desistiu do generalato para se consagrar inteiramente à pintura). Já Lobo Antunes é um médico, a sua experiência militar foi como a dos milhares de portugueses que foram mobilizados para a guerra colonial mas que pode transpor para a literatura porque teve sensibilidade e talento para tal.

    ResponderEliminar
  5. Não imaginava que Napoleão tivesse tanto interesse pela leitura. Mas gosto de o saber. Acredito que haja militares escritores, mas não conheço nenhum, se conheço, não sei que é ou que foi militar. Também não me parece que se possa dizer de Lobo Antunes que é militar. O que ele é, sem qualquer dúvida, é escritor. A tropa era obrigatória e o ultramar calhava a quase todos; ele não seguiu a carreira.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório