Influência e influências
Numa recente entrevista ao vivo conduzida pela jornalista Isabel Lucas na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, o grande romancista norte-americano Jonathan Franzen «pediu» para não responder a uma pergunta sobre os autores que mais o influenciaram. Essa pergunta é sempre incómoda para um escritor (e também para os escritores que não cita e ainda estão vivos e gostariam de ter influenciado os mais novos); incómoda porque talvez um crítico a sério perceba melhor quais são as influências de um escritor do que ele próprio (por vezes, até as inventam – como quando disseram que a minha poesia era claramente influenciada por um livro que nunca li). Contudo, o mesmo Jonathan Franzen, numa entrevista ao The Guardian, confessou que a obra que certamente teve mais influência na circunstância de se tornar escritor (atentem na nuance, pois não é a mesma coisa que Isabel Lucas lhe perguntou em Lisboa) era As Crónicas de Narnia, essa série juvenil do britânico C. S. Lewis que vendeu mais de 100 milhões de exemplares em todo o mundo e na qual as crianças entram num guarda-fatos e saem do outro lado num mundo mágico. Aí convivem com feiticeiras boas e más, animais humanizados, criaturas míticas, estrelas, anões e sei lá que mais. Embora durante muitos anos esta colecção de aventuras fantásticas tenha parecido a muitos uma obra menor, a verdade é que levanta questões muito interessantes e tem um leque de personagens capaz de fazer qualquer jovem querer ser outra pessoa – ou, como no caso de Franzen, querer ser escritor. Nesta perspectiva, o poeta que mais me influenciou a escrever poesia foi seguramente João de Deus – mas isso não tem nada que ver com as outras influências de que ela provavelmente sofre.
Um dos melhores post de sempre! Análise primordial.
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi
Bom dia. É sempre difícil dizer que autor ou autores (nos) influenciaram, enquanto autores (aqueles que escrevem).
ResponderEliminarIsto porque talvez nunca haja um escritor, mas sempre um conjunto de escritores.
São várias fontes em que a inspiração bebe.
A ideia é sempre a de se superar o que nos superou.
Quando penso nos autores que mais me influenciaram só me lembro da máquina de picar carne da minha avó: onde, a "criada" lá de casa - que nome feio! -, colocava com cuidado, não fosse o diabo tecê-las, os nacos de carne. Pedaços que saiam reduzidos a uma argamassa quase pronta para "forrar" estômagos gulosos e esfaimados. O resultado eram deliciosos croquetes, intermediados nessa parte do processo produtivo-ó-criativo, sujeitos à escolha e qualidade da carne e restantes ingredientes que os completavam. Tudo aquilo que lemos, ouvimos, vemos, vivemos, nos influencia. Não somos meninos de coro sujeitos únicos de leitura de papel ou outras "plataformas". A vida deu-nos todos os outros sentidos como instrumentos de leitura de tudo o que nos rodeia, sejam pessoas, animais, plantas ou pedras. A leitura dá-nos a paisagem, mas não a acção de percorrer "caminho". A escolha das veredas, atalhos, estradas, onde colocamos pé, é de nossa exclusiva conta e responsabilidade (na nossa terra, por via do tempero judaico-cristão, chamam-lhe culpa). Dá-nos apuro de reflexão a que juntará a vida outras equações de "matemática combinatória". Há, no entanto, autores que nos emocionam pela capacidade vivifica, quase divinatória, que lhes encontramos: emocionam pela dimensão da sua escrita, que se confunde com o patamar onde vivem as suas vidas, impelindo-nos à reflexão e capacidade combinatória, pelo exemplo e comparação das nossas vidas. Quando me perguntam: «Qual o autor que mais influencia o que escreves?» respondo sem tergiversar: «O "Todos os nomes".» E, logo acrescento, não vá o indagador julgar a resposta demasiado simples, num mundo por demais diferenciado e complexo: «E... todos os sem nome!»
ResponderEliminarSó cá faltava a cartilha poética-maternal para despistar influências.
ResponderEliminarDeve ser uma pergunta de resposta difícil. Não há uma influência única, suponho eu. Podem existir escritores e escritas preferidas. Não vejo que isso retire a quem escreve profissionalmente o gosto por dizer de outra forma, a que lhe é própria. Copiar a escrita de alguém, suponho que não dê qualquer prazer. Por outro lado, há influências tão subterrâneas que nem o próprio as reconhece.
ResponderEliminarSuponho que a leitura e a vida no seu acontecer sejam o húmus de quem escreve.
Hoje o meu comentário é para aplaudir e apoiar, Emílio Gouveia Miranda, Pedro Sande e em particular à Beatriz que resume muito bem o que penso e sinto.
ResponderEliminarUm post que é pena não ter sido mais participado pois se prestava a isso... só agora o li porque cheguei à pouco a casa.
Saudações e boas noites, cá do Bairro Ribatejano.
Cheguei há pouco a casa!
EliminarAi estes escritores...
Foi para ver se estava atento!
EliminarPS. Não sou escritor.