Arquivo vivo
O nosso Fernando Pessoa vai dando pano para mangas e mais mangas – e agora é a vez de brilhar de novo o Livro do Desassossego. A magnífica Universidade de Coimbra (com o professor Manuel Portela à cabeça do projecto, como «editor») inaugurou recentemente um arquivo digital colaborativo do Livro do Desassossego, que contém imagens dos documentos autógrafos, novas transcrições desses documentos e ainda transcrições das quatro edições da obra (respectivamente, de Jacinto Prado Coelho, Teresa Sobral Cunha, Richard Zenith (norte-americano) e Jerónimo Pizarro (colombiano). Além da leitura e comparação das transcrições, o Arquivo LdoD permite que os utilizadores colaborem na criação de edições virtuais da obra (que giro!) e a leiam de acordo com diferentes sequências dos fragmentos que foram encontrados (ui, isto vai dar mesmo para brincar ao Desassossego!). Desenvolvido entre 2012 e 2017, o Arquivo LdoD é o resultado de um projecto de investigação do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra (CLP), com a colaboração do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores em Lisboa (INESC-ID Lisboa) e da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP). O projecto teve o financiamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e da União Europeia.
Bom dia,
ResponderEliminarTalvez seja de mim, mas não consigo surpreender-me com o altruísmo das nossas Editoras, quando afinal somos um país que tão pouco lê, em reeditarem e reeditarem e reeditarem, à vez ou em sobreposição ou, sei lá que nome dar, a esta simultaneidade de publicações a que certas obras são sistematicamente submetidas, não obstante o mérito e a qualidade e a intemporalidade conquistada...
Pergunto-me: será que se lê assim tão pouco em Portugal? Sobretudo poesia?
Ou trata-se afinal de mais um dos enganos tantas vezes repetidos que a tendência é acreditar que se tratem de verdades... quando não se constata esta profusão de edições de certas obras...
Talvez porque já não paguem direitos de autor e as Editoras há que fartar... Espremer até não darem mais sumo.
É surpreendente... Ou talvez seja apenas eu que me questione...
Num estudo recente, creio que da União Europeia sobre os índices de leitura na Europa os resultados foram, abreviando: Os que lêem mais : A Noruega , A Suécia e o Reino Unido; os que menos lêem: Grécia, Espanha e Portugal no fim da lista.Isto, para dizer pouco, deixa-nos envergonhados, 40 anos depois de Abril! O que é que fazem os Planos Nacionais de Leitura? Pelos vistos muito pouco! Serão as novas tecnologias que estão a acabar com o livro e a leitura? O preço dos livros, demasiado alto para as nossa bolsas?Outras causas? Haja quem responda. Por minha parte já vou nos 42 lidos em 2017.
EliminarJulgo que nunca fiz uma contagem dos livros que leio por mês ou tão pouco por ano. Seguramente leio acima das ditas médias. Muitos livros, muita BD, tudo isto misturado, interrompido, recomeçado... Seguramente umas dúzias por ano, ainda que compre centenas... E por isso penso sempre que também há uma diferença entre comprar e ler...
EliminarMas uma coisa que ninguém me conseguiu ainda demonstrar, não obstante os tão cinzentos resultados dos estudos feitos, é como é que é possível que se publique tanto em Portugal, se facturem tantos milhões (claro, longe de países como sejam os nórdicos, em que se vive mais para dentro, quando nós vivemos mais para fora) e, afinal, acabemos sempre a ler tão pouco.
Por outro lado, ouço muitas vezes dizer: antigamente é que era: não havia televisão, smartefones e toda a imensidão de brinquedos com que hoje as pessoas se entretêm; antigamente é que se lia. E, então, dá-me vontade de rir. Com os índices de alfabetização, baixíssimos, o preço proporcionalmente mais elevado dos livros, etc...
Bom, não quero dizer que não fosse bom que se lesse muito mais, mas julgo que este tipo de discurso continua a servir a muita gente e não é certamente nem a quem escreve, nem a quem lê.
Ex.mo Emílio Miranda
EliminarCreia que essa interrogação já se colocou na minha cabeça: como é que se edita tanta em Portugal?!
O paradoxo - e este não é de Zenão de Eleia - é que se edita mais quando se lê cada vez menos; a não ser que se comprem livros, que não se esfolham sequer, para embelezar estantes de sala.
Lê-se pouco, independentemente do que as editoras editem. Presumo que muitas delas recorrem ao sistema de "print on demand", com tiragens abaixo de cadernos da paróquia, pondo e repondo títulos passados e repassados.
Do "Livro do Desassossego", em apreço, possuo uma boa edição (quase quadrada, como se fosse uma bíblia) da "Tinta da China", edição de Jerónimo Pizarro. Podem até dizer que as novas edições trazem partes omissas das anteriores ou preenchidos os hiatos que Pessoa, pelos vistos, deixou nesses textos dactilografados.
A moda de publicar o que está publicado, é vício, não tara congénita, velhacaria ou cabala.
Cada um joga com os euros que tem nos cofres; e a edição em Portugal, de graveto em graveto, mantém um fogo ténue onde poucos ainda teimam em se aquecer.
O desinteresse vem da Escola, que descuro desde há muito esta educação selectiva. Ninguém se admire que esta´nesta fonte a razão da nossa austera, apagada e vil tristeza.
Fernando Joca Martinho
É óbvio que, no último parágrafo, deve ler-se "descura" em vez de "descuro". No primeiro, em vez de tanta deve ler-se tanto. Ainda no último parágrafo, um acento agudo voou da cabeça do "a". A mania de não querer rever os textos, leva-me a isto...
EliminarFernando Joca Martinho
Caro Fernando Joca Martinho,
EliminarObrigado pela sua reflexão, que li com muito interesse. A minha ligação aos livros faz-se de muitas e variadas formas: pelo gosto que tenho em lê-los, em tocar-lhes, em cheirá-los em adquirir e coleccionar variadas edições do mesmo livro, etc., mas também em escrevê-los, que me dá muito mais gosto, mas não é tão fluído quanto ver entrar os de outros em casa, já acabados. Se há um Universo por onde viajo diariamente é esse, precisamente, e portanto não posso surpreender-me com a «enormidade» da lista de títulos diários, mensais, anuais, e ainda mais daqueles que sucessivas editoras vão editando, às vezes em simultâneo.
Não será com certeza um assunto pacífico e pelo pouco que já me foi dado ver e testemunhar (muito pouco, garanto) neste mundo complexo, nem nos dados oficiais acredito em absoluto para discutir certos aspectos, porque até esses estão falseados. O que eu sei é o que me custa cada um dos livros que compro, e nem sequer estou a dizer, como muita gente diz, que são caros, e o que me «custa» cada um dos que escrevo, para o que recebo em troca.
Uma pergunta que cada vez mais me coloco é se é a escola que nos faz, se nós que fazemos a escola. Tal como se são os políticos que nos fazem se nós que fazemos os políticos, mas uma coisa é talvez certa; de que tudo dependa e proceda de tudo: de que a escola e o estado de coisas é o reflexo do nosso estado e vontade de estar enquanto povo, enquanto sociedade mais votada para o imediato do que para o futuro. Temos bons exemplos e mais exemplos de editoras. Temos as que querem ser impérios e as que pretendem apenas editar bons livros.
Talvez menos e bom fosse uma solução de princípio. Formar alicerces com boa argamassa.
Mas quem, ou quantos, realmente, o desejariam. Quantos dos ditos editores, amigos confessos dos livros; quero dizer...
Bom, não sei. Como disse, não é assunto fácil e, quanto a mim, prefiro escrevê-los e ganhar pouco (ou nada, como já aconteceu) do que ser responsável pela edição de algumas «coisas» que por aí andam a ser vendidas.
Sem soluções, apenas com reflexões e com amor aos livros, me subscrevo,
com consideração.
Uma vez mais obrigado pela sua reflexão, que acrescentou alguma coisa de importante às que vou fazendo.