Uma centena

Adoro organizar antologias e percebi isso há relativamente pouco tempo, quando me convidaram para antologiar os poetas eruditos que escreveram para fado ou a quem os fadistas roubaram poemas que transformaram em letras (às vezes com um nadinha de liberdade a mais). Mas, se me pedissem para reunir num volume os autores ou textos de que mais gostasse, ui, acho que ficaria uma eternidade a pensar e dificilmente conseguiria decidir. Admiro por isso o jornalista José Mário Silva, o responsável pela secção de livros no seminário Expresso, ao juntar num mesmo volume Os (seus) Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos (a editora é a Companhia das Letras), que abrangem Pessoa, Sophia ou Herberto, evidentemente, mas também Inês Dias, Matilde Campilho ou Rosa Oliveira, poetas que começaram há menos tempo. No prefácio, ele admite que o livro não é senão a sua escolha pessoal – e, como tal, subjectiva – mas claro que no Facebook já houve quem discutisse presenças e ausências, como se o livro afinal devesse ser um desses tesouros da literatura que antes se publicavam e que contemplavam quase sempre os mesmos batidíssimos versos. Neste livro, admito que muita gente que habitualmente não lê poesia, levada pelo «melhores» do título, vá pela primeira vez ler muitos dos autores (Jorge Sousa Braga, Daniel Faria, Luís Quintais, Miguel-Manso, eu?…) e se interesse por algum, começando a comprar os seus livros. Mas para outros leitores, como eu, o divertimento está sobretudo em ver o que faríamos diferente na escolha dos nomes e dos poemas. Provavelmente, quase tudo… Bem, se quer uma amostra da poesia que se escreve de há um século para cá, aqui tem um bom ponto de partida.

Comentários

  1. Poesia, música e livros, assunto(s) nota mil!



    Cláudia da Silva Tomazi

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  2. Deixo um post de Manuel A. Domingos no blog meia-noite todo o dia sobre a antologia referida.
    Concordo com tudo.
    "A propósito de Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos

    Em primeiro lugar: não comprei. Folheei e decidi não o fazer.
    Em segundo lugar: não vou criticar a escolha dos poetas, nem dos poemas, pois acredito que o grande valor duma antologia está nos nomes que não contém, ou nos poemas que também não contém, desafiando assim outros a fazer melhor, ou diferente.
    Mas, permitam-me os desabafos:
    1º Ruy Cinatti é Ruy Cinatti e não "Rui Cinatti", principalmente quando vem escrito "Rui", na página onde está incluído o poema, e "Ruy" numa espécie de índice bibliográgico;
    2º o poema de Miguel-Manso não está incluído em Bonsoir, Madame, livro que reúne a obra completa de Manuel de Castro, publicado pela Alexandria/Língua Morta e não somente pela Língua Morta, como nos leva a crer o "índice bibliográfico";
    3º tenho a certeza que o poema de Raquel Nobre Guerra vem em Senhor Roubado. O poema não tem título, apesar de no "índice bibliográfico" vir indicado o poema "Escuro", publicado em Groto Sato.
    Estes são apenas três desabafos que tenho depois de folhear o livro com pouca atenção. Não vou sequer falar do grafismo, que deixa muito a desejar, nomeadamente quando se quebram poemas (que passam para a página seguinte) e não se colocam as restantes estrofes destacas ao nível do título do poema (não sei se me estou a explicar bem), podendo dar a ideia, para os mais distraídos, de que se tratam de dois poemas autónomos. Revisão: considero-a inexistente."

    Também eu não comprarei.

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    1. Emílio Gouveia Miranda22 de novembro de 2017 às 03:09

      Excelente comentário, que subscrevo.
      Bom dia e bem-vinda seja, sempre, a Ousadia!

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  3. Bom dia, Rosário.

    O assunto é discutível. Mas eu tenho uma única pergunta a fazer. Uma única e que é a seguinte: quem se propuser a seleccionar num único volume, ou mesmo em dois, três, cinquenta volumes os poemas de que mais gosta, é suposto conhecer os seus autores e acredito, naturalmente, que os conhece. Mas, desses autores que escolhe, conhece todos os poemas que eles publicaram? Todos? Não conhecendo todos, como é que sabe que determinado poeta não escreveu nada de que possa gostar? Tem de conhecer toda a obra, a publicada e, por vezes, são centenas de poemas. Eu podia dar exemplos de alguns poetas com centenas de poemas publicados dos quais só são, realmente, conhecidos dez ou doze, E os outros todos que existem publicados e espalhados por vários livros? Sem os ler como é que se pode saber? Porque eu acho que nem uma vida inteira chegaria para se conhecer a fundo, para se sentir e apreender e absorver tudo, todos os poemas que existem publicados por tantos e tão bons poetas.
    Uma empreitada difícil, esta.
    Portanto, eu penso que o título poderia ser assim 'De todos os poetas portugueses dos últimos cem anos, os que eu conheço e das suas obras, apenas as que eu conheço, estes poemas são os de que mais gosto'.
    Porque eu sei, tu sabes, ele sabe, nós sabemos, vós sabeis, eles sabem que não se conhece, ninguém conhece a obra integral (publicada) de todos os poetas dignos de nota. A não ser que fosse uma pessoa estudiosa e inteiramente dedicada à obra de determinado poeta.
    Não sendo assim - que não é - o amargo, o sabor muito amargo, a tristeza tão intensa, tão profunda, tão delicada tristeza, indelével e permanente que a injustiça e o esquecimento trazem consigo, essa tristeza com amplas asas de sombra invade-me inexoravelmente, sem piedade. E sem compreensão. E passa a existir em mim como que uma retirada, um abandono sem queixa, um afastar triste, tão triste, quase uma desistência sobre o que eu entendia do entendimento humano.

    Muito obrigada e desculpa tão longo comentário.

    Cristina Carvalho

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    1. Emílio Gouveia Miranda22 de novembro de 2017 às 02:58

      Bom dia. Não peça desculpa pelo comentário. Foi, é, um excelente comentário.
      Que subscrevo.
      Mas estou certo que a autora do Blog (também) concorda plenamente com ele.
      O que eu acho interessante é a facilidade com que alguns antologistas se arriscam a fazer... exactamente igual, sem grandes ondas ou burburinho.
      Reconheço a tarefa monumental, aqui tão bem explicada, mas desafio a ousadia de alguém capaz de apresentar uma colectânea diferente. Com esta proposta ou outra: por exemplos: Os Cem Melhores Poemas Desconhecidos - leia-se de poetas editados, mas praticamente anónimos. Porque promover sempre os mesmos e percorrer sempre os meus caminhos... oh!, isso, qualquer um faz.
      Bom dia.

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    2. Cara Cristina
      Essa desistência do "entendimento humano" é extensível a todos os autores, poetas ou não, que trazem em si a injustiça, o esquecimento, as asas de sombra. 'Felizmente há luar', pois de poemas está a vida recheada. «Eu, tu, ele, ou ela, nós, vós, eles», como a Cristina gosta de apelar, sabemos hoje que o entendimento humano é limitado. Que a obra não se esgota no olhar do outro e nem mesmo é existente por todo o Homem ser apenas uma imagem de si próprio. "Pela escrita é que vamos". Diz a Maria do Rosário Pedreira: «As palavras começam a ficar velhas: têm dores nas articulações e rangem, de vez em quando, sem razão; reclamam óleos e resinas, tempo e açúcares mais lentos… Não sei se volto.» (Maria do Rosário Pedreira; Poesia Reunida; Quetzal; 2012)

      Digo eu na minha «Viagem A Dali» que terá a certeza de uma leitura: a minha.

      as palavras velhas são as mais doces: a meio caminho

      Numa curva que já não esperava
      A meio caminho,
      Desde que empreendi esta demanda
      Com um pé na terra e outro em Ilad,
      Novamente encontrei palavras
      Que fazem sentido.
      Enlameei-me nelas de um barro
      Transparente.
      Virei-as, revirei-as,
      Tentei decifrá-las,
      E não contente com o sentido,
      Fiz delas, minhas primeiras amigas.

      Olhar para as tuas palavras
      Faz-me vir palavras
      Como se o prazer encontrasse um lugar
      Para se libertar;
      Também eu não sei se volto.
      Mas como isto é possível? se isto
      É como uma demanda,
      Talvez mesmo uma cruzada,
      Onde o deus só se for marciano,
      Dado que a imensidão da mensagem
      Não cabe em si neste espaço curto,
      E sem a gente toda
      E os pássaros e os animais,
      E as coisas, as flores e as pedras,
      Até as imateriais saudades
      E os passados que não constam.

      Como se as tuas palavras despertassem um riacho,
      Fluído, uma torrente magmática
      Que queima a dor
      E faz estremecer um vulcão de lava,
      Que de lava só a pureza
      Da emoção que liberta.
      Olhar para as tuas palavras
      É dares as mãos às minhas
      Como se as minhas te percorressem
      Com emoção
      Curando-me as lágrimas.

      Não te desculpes
      Com a velhice das palavras
      Nem com as dores
      Que vos vão da cabeça
      Ao ventre;
      A vermelhidão
      Que encontraste
      Não foi mais que o rubor
      Que me roubaste
      Por te sentir ao perto.

      Se olhares por cima
      Do meu ombro
      Encontras uma vaga,
      Onde poderás repousar
      O teu queixo, e não,
      Não digas que não voltas,
      Não me ofendas,
      Nem entristeças,
      Porque já voltaste
      Só que de uma outra forma,
      Mesmo que tenhas apagado
      Da areia, os búzios,
      Que chamaste à praia,
      Onde sopramos palavras
      Renovadas e jovens.

      As palavras velhas
      São as mais doces
      Porque vêm enriquecidas
      De vulcões improváveis
      Que se levantam ao céu.

      Acarinhemos pois estas palavras
      Mesmo que sejam velhas;
      Cubramo-las de uma substância adocicada
      Como se lhe pespegássemos
      Um açúcar em pó, fino,
      Da fineza das palavras
      Que atraem
      Como o amor se liberta

      De um só beijo,
      Que estende um sulco
      De que não vemos
      Fim e caminho.

      Com amizade

      Pedro A. Sande

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  4. Emílio Gouveia Miranda22 de novembro de 2017 às 02:51

    Sem desprimor por quem (é pago) para fazer estes trabalhos, diria que, de facto, é/tem sido sempre fácil ir buscar os mesmos nomes (de sempre). O interessante seria desafiar as mentes formatadas e apresentar uma obra completamente diferente.
    Mas claro que isso dá trabalho e para quê complicar, se pagam o mesmo para fazer assim ou assim? E o assado? Não seria - também ou talvez mais - interessante?

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  5. Não deixarei de folhear o livro assim que tiver oportunidade, por agora não tenho opinião formada. No entanto, os nomes de alguns jovens poetas que a Rosário refere no post não costumam figurar em antologias, o que, na minha opinião, já é bastante positivo.
    E acalmem-se, tudo isto não passa de um gosto pessoal do autor...
    ap

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  6. Mais importante do que quem escolheu os poemas e poetas e quem falta ou está presente, importa desfrutar da poesia e, se possível, descobrir (ou redescobrir) novas vozes desta forma de literatura. Será com certeza um livro a desfolhar e a trazer para casa.

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    1. Concordo com a sua opinião, mas, por favor, não escreva "um livro a desfolhar". Porque um um bom livro é sempre para folhear. Só os péssimos livros é que podem ser para desfolhar.

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    2. Melhor do que "folhear" só mesmo "saborear". Obrigada pela correcção.

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  7. Bem mais interessante será a antologia organizada por José da Cruz Santos "Os Mais Belos Poemas Portugueses Escolhidos por Vinte e Cinco Poetas"- Modo de Ler-, 1262 pág. 67,50 euros. Ver entrevista com o autor no JL de hoje.

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    1. Então será assim uma espécie de "Rosa do Mundo" mas só com poetas portugueses.
      Fiquei com curiosidade. Já está à venda?
      ap

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  8. folheei o livro. achei o grafismo muito pobre, a edição pouco cuidada, a capa bastante feia. e notei logo alguns dos defeitos já apontados noutros comentários. não critico a escolha, que é subjectiva - como deve ser. apenas reparei que em muitos dos nomes presentes (que eu também escolheria) os poemas seleccionados não me parecem os melhores nem sequer dos mais representativos desses autores (mas isso, claro, é outra coisa subjectiva).

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  9. Eu confesso, sou muito eclético.
    Tenho um fraquinho por poetas.
    Não considerem isto uma piscadela, mas sim um cisco na vista.
    Gosto de todos os poetas, mesmo os maus e os que não percebo.
    Já troquei cigarros por poemas ( espero que o santo ebay me valha, daqui a uns anos ).
    Poemas de rima fácil, no entanto tão simples em que o poeta, cuidadoso até registrou a hora em que o escreveu.
    E eu dou por mim, sem conseguir deitar fora um poema asfixiado de rima, escrito às quatro da manhã de um dia qualquer. Mas que fala de amizade.
    Quem é que às quatro da manhã escreve sobre a amizade?
    Só um poeta é claro ( e com insônias ).
    Quanto a esta antologia, ou outras, vou esperar que sejam editadas em fascículos por um diário.
    Por isso mantenho correspondência electrónica com a senhora da tabacaria e por vezes ofereço-lhe uns bombons de ginja, para ter a fineza de conservar as pérolas das edições económicas até ao meu regresso.

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  10. A liberdade de expressão e de seleção existe, sem dúvida, mas há uma coisa que não suporto: criticar e ser ANÓNIMO.

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  11. Não uso muito a leitura de poesia em antologias. Tenho uma ou outra não sei porquê, não me lembro de as ter comprado, talvez tenham sido oferta. Mas lembro-me de lê-las e é certo que conheci por essa via alguns poetas. E no entanto continua a ser livro que não me seduz.

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  12. O Natal está à porta. Esta antologia serve para prendinha. E já agora: quantos dos comentadores deste blogue compra ou leu um livro dos autores antologiados?

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  13. Ó anónimo vai tomar as gotas !!!

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