Fado e literatura

Os Extraordinários conhecem já a minha relação com o fado e, do mesmo modo, com a fadista Aldina Duarte, que é uma verdadeira intelectual do fado e uma mulher que relaciona de forma consistente a sua arte com as outras, especialmente com a literatura. Depois de discos como Contos de Fados – em que os fados eram baseados em obras literárias ou lendas  e mitos – e de Romance(s), em que se contava uma história de amor em catorze fados com duas abordagens musicais completamente distintas, chega a vez do CD Quando Se Ama Loucamente, lançado mais logo, às 18h30, na Fnac do Chiado e integralmente inspirado na obra da escritora Maria Gabriela Llansol (excepto o fado assinado por Manuel Cruz, dos Ornatos Violeta). Este é um disco também, arrisco-me a dizê-lo, terapêutico (como os meus poemas o foram para mim) e fala das feridas de um amor maior interrompido sem explicação. Quem partiu deixou, porém, para trás um livro de Maria Gabriela Llansol, e é justamente a partir desse e de outros livros desta escritora tão singular que surgem as ideias e frases que servem de mola e epígrafe a estes fados, maioritariamente – como não podia deixar de ser neste caso – da autoria da própria Aldina Duarte. O fado e a literatura juntos mais uma vez. Eu vou espreitar e ouvir. Apareça também.

Comentários

  1. Acabei a primeira audição e já se começou a entranhar. A cada novo disco da Aldina, chega-se ao infinito e mais além.

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  2. António Luiz Pacheco13 de outubro de 2017 às 02:59

    Fui ao gúguel:

    "LISBOA - Maria Gabriela Llansol é uma escritora de leitores fiéis. Rompeu com as normas da escrita e conseguiu uma singularidade invulgar. Já lhe chamam o próximo mito da literatura portuguesa. Quando morreu, em 2008, aos 76 anos, deixou 29 livros publicados e mais de 70 cadernos inéditos. O Brasil está a descobri-la. Portugal continua a tentar conhecê-la.

    Pode-se dizer que escreveu um único livro ao longo da sua vida. Uma parte desse imenso volume, do qual ainda há muitos inéditos por sair, chegou recentemente ao leitor brasileiro. São três diários, Um Falcão no Punho, Finita e Inquérito às Quatro Confidências (a que se juntou um tomo de entrevistas), ponto de partida que funciona quase como um manual de instrução para uma leitura que exige tanto fôlego quanto aquele que Llansol usou para escrever. O fôlego de uma vida que gerou “o próximo grande mito literário da literatura portuguesa”, a seguir a Fernando Pessoa, conforme vaticinou o pensador Eduardo Lourenço a propósito de uma exposição sobre a escritora realizada em 2011 em Lisboa. "

    Pois é! Tal a minha ignorância de traça dos livros, que desconhecia por completo esta autora, e o culto que lhe está associado, a ponto de haver uma casa e um grupo de estudos que lhe são dedicados... mas é por isso que também venho diáriamente a este blog, onde se aprende e é informado.

    Saudações um bocadinho menos ignaras cá da Cidade Morena!

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    1. Até há bem pouco tempo, também eu desconhecia que a senhora tivesse obra escrita para além da sua actividade de tradução. Ainda não li nada excepto uma tradução de poesia. E não fiquei fã. Mas conheço quem muito a aprecie e ande mesmo com um ataque de amor severo, se assim se pode chamar o deslumbramento com a sua escrita e a febre de ler mais livros da autora. Hei-de experimentar. Curiosidade, já criou.
      E parabéns a Aldina Duarte e a todos que de alguma forma participam neste trabalho. Só pode ter sido uma sessão rara, de guardar.

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  3. Altamente preciosa presença feminina se a faz história; amar fado com doçura, eu amo! Claro, esta voz à cruzar oceanos (gostaria imenso) com realismo e harmonia, melodia e sensibilidade se lhe defende o estilo Aldina Duarte, com letras da Rosário... Meus amores, holofote e conversa traduz-se sabor inconfundível. Que dupla, yeah!



    Cláudia da Silva Tomazi

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  4. Os elogios que MRP faz a Aldina Duarte são muitos e inteiramente merecidos. A sua contribuição para o fado tem sido enorme não só na valorização das letras como também na tentativa para o modernizar. Devia concluir a sua participação nesse magnífico labor descobrindo uma voz para os cantar, que não a sua. Falta à voz de Aldina Duarte qualidade e capacidade expressiva e o resultado final ressente-se disso.

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    1. Por acaso, não concordo consigo. Se o fado fosse só voz, Marceneiro não teria sido ninguém e é considerado por todos os do ofício tão grande como Amália, mesmo ao nível da interpretação. (E se há coisa de que a Aldina não carece é expressividade.)

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    2. Concordo!
      Para o fado o mais importante não é a voz - é o sentimento, a forma de cantar.
      Antonieta

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    3. Não concordo nada!

      A Aldina canta e escreve o que sente... E só ela pode cantar como sente.

      E se não tem uma das melhores vozes, tem uma voz que sente o fado como ele deve ser sentido...

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  5. Desculpe, Rosário, fugir à temática do fado, mas não resisto a contar aqui que acabei de receber o livro "Entrevistas da Paris Review 3", da Tinta da China.
    Nem sei por onde começar pois são 12 entrevistas de alguns dos meus escritores favoritos: Alice Munro, Julian Barnes, Susan Sontag, Lydia Davis, Ekena Ferrante, Steinbeck, Knausgård, Steiner - enfim um livro imperdível.
    Extraordinário fds para todos!
    Antonieta

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  6. Inteiramente de acordo. Marceneiro tinha uma fraca voz mas utilizava-a de forma extraordinária resultando daí um enormíssimo intérprete de fado. Punha lá o sentimento todo.
    Para tornar esta tese mais clara recorro a uma voz quase monocórdica mas que considero ser também um grande fadista, António Santos.
    Mais próximo de nós invoco Carlos da Carmo cuja voz também não espanta mas que dispõe de recursos interpretativos, nuances, que lhe permitem ser também um excelente intérprete de fado.
    Não consigo aplicar estes "conceitos" a Aldina Duarte. Melhor se tivesse ficado calado pois assim os imensos méritos que possui e que salientei parecem desvanecer-se.

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    1. Prometa-me que nunca fica calado. Todos temos direito à nossa opinião.

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