O contrário do idílio
Conheço muitas pessoas que se fartam da cidade e sonham refugiar-se depois da reforma (se a tiverem) numa aldeia quieta e perdida entre pedregulhos. Mas quem leu O Rebate, o mais recente livro de J. Rentes de Carvalho publicado em Portugal pela Quetzal, saberá que a vida na aldeia pode ser o contrário desse idílio. No local onde decorre a acção do romance, abundam, efectivamente, coisas tremendas: desde logo a pobreza que toca a todos, cheios de dívidas que nunca conseguirão pagar – e de vinho para se esquecerem delas; mas também a inveja em relação aos que voltam de França forrados à custa de um sogro que lhes pôs a filha mais ou menos à disposição para a guardar de uma vida que tudo indicava vir a ser demasiado licenciosa. Quando Abel Valadares põe o pé na sua aldeia natal casado com uma francesa para as festas de Agosto, a pagar copos a toda a gente e a perdoar as maldades dos rapazolas que logo lhe partem o vidro do carro, nem sabe o que o espera; porque ali ninguém perdoa o êxito de ninguém, a força bruta sabe dar murros, tiros e apalpões à má-fila quando calha – e uma francesa que mostra as coxas e fuma... já se sabe. Difícil por vezes descobrir quem diz o quê nos longos diálogos que atravessam esta história transmontana e crua (mas, como são quase todos da mesma cepa, se calhar nem importa assim muito), O Rebate fica a repicar dentro de nós por muito tempo depois de termos lido a última página. E desmotiva um pouco esses sonhos com aldeias...
o "Rebate" ainda está fresquinho, comprei-o ao fim do dia de sábado na Feira, com a sorte de ainda encontrar o autor nas redondezas e puder trocar algumas palavras e ficar com o respectivo autógrafo (não fugiu com a chuva e ainda bem).
ResponderEliminara exemplo de "A Amante Holandesa", deverá ser um belo romance, pois Rentes de Carvalho caracteriza muito bem os mistérios e enigmas do nosso interior. dessa vontade tão grande de uma boa parte das pessoas em viverem a vida dos outros.
isso também explica o sucesso das telenovelas...
foquei a minha atenção do livro e não liguei ao "campo".
ResponderEliminarpenso que uma coisa não tem a ver com outra. aliás pudemos sempre passar como "estrangeiros" nas aldeias.
eu sempre gostei dessa parte "misteriosa". lembro-me de passar nas ruas da aldeia onde viviam os meus avós maternos e da tentativa das pessoas me colocarem numa família. achava giro e curioso, não falarem directamente para mim, mas falarem alto, para eu as ouvir, até chegarem à conclusão que era neto de ou filho de...
ainda hoje gosto de ser "estrangeiro" quando passo uns dias numa das muitas aldeias da Beira. pouco mais digo que o obrigatório bom dia e boa tarde, eu sei e eles sabem que não sou um deles.
para mim, é bom, porque gosto muito de ser "turista" de estar de passagem...
Gostei Luis, de suas idéias a respeito de aldeia e de pessoas. Por vezes, parece que gente... é sempre gente... no qualquer sítio, ou em maré de ocasião.
EliminarAinda não li nenhum dos romances de Rentes de Carvalho mas sigo o seu blogue. Não tem papas na língua e admiro-o por isso. Há tempos fartei-me de rir com a parte final de um pequeno texto em que diz precisamente o que eu também penso de uma célebre figura da nossa praça:
ResponderEliminarhttp://tempocontado.blogspot.pt/2012/04/quartos-de-hotel-4.html
J. Rentes de Carvalho é um homem muito interessante. Contar histórias faz parte do seu ADN.
EliminarFelizmente, deram-me a oportunidade de conversar com ele.
Aprendi muito com o homem e com o escritor naquela hora/hora e meia.
Vou ter alguns problemas a editar a entrevista, pois, de vez em quando, ele utiliza vernáculos que não são publicáveis.
Contou-me histórias sobre os seus livros, sobre a sua infância, sobre a Holanda, sobre...sobre...
Apeteceu-me trazê-lo para casa. :D
"O Rebate" é um romance muito bom. Confesso que não é o livro de que mais gosto da sua autoria, mas vale o tempo e o dinheiro. Há muito cinema em "O Rebate"
Disse-lhe que eu já tinha todos os seus livros publicados pela Quetzal, mas que ainda não tivera oportunidade de ler todos. Aconselhou-me a ler, em primeiro lugar, "Ernestina".
E aconselhou-me outro autor: Dalton Trevisan.
Quem ler "Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia" consegue perceber a mestria do autor.
Poderão ler a entrevista no Diário Digital, na próxima semana. (perdoe-me a publicidade).
Este escritor tem muito valor. Na minha opinião é parte de um trio a não perder:
Gonçalo M. Tavares, Pedro Rosa Mendes, "Mestre" J. Rentes de Carvalho.Escrevi sobre "Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia". Se a Maria do Rosário Pedreira autorizar, eu escrevo aqui o link. Foi para a Pnet Literatura.
Abraço para todos
Mário
Claro que autorizo!
EliminarRufino esqueceste-te de mim!
EliminarCom o Rentes de Carvalho é a linguagem nua e crua. Mas nem em todas as aldeias as gentes serão assim, pelo menos no Sul do Pais. Mas um grande escritor.
EliminarGonçalo M. Tavares - um escritor desconcertante (é a única palavra com que o consigo caracterizar).
Pedro Rosa Mendes - Iniciei a BAÍA DOS TIGRES, mas desisti à página 70 e tal...não gostei...
Deixa ver, ASeverino.
EliminarGonçalo M. Tavares está fazendo percurso bem interessante no Brasil, e cativando muitos leitores, bem haja!
É pena, ASeverino ... Acho o Pedro um dos melhores escritores portugueses. Os meus estudos são sobre um livro dele.
EliminarMas a Literatura é rica por isto mesmo: presta-se a diferentes sensibilidades, gostos e posturas.
Pelo que vejo, não deixa de ter bom gosto. :D
Cláudia leia "MATTEO PERDEU O EMPREGO", e repito, Gonçalo M. Tavares é um escritor desconcertante, no sentido positivo, obviamente!
EliminarCaro Mário Rufino
EliminarNão duvido que o Pedro Rosa Mendes seja mesmo um grande escritor, mas Mário quantas vezes não iniciámos um livro e à página 50 ainda não entrámos dentro dele e a mim aconteceu-me isso com A BAÍA DOS TIGRES...por exemplo, a primeira vez que "peguei" no MEMORIAL DO CONVENTO larguei-o à página 50 e poucos e no entanto da segunda vez foi todo num dia e considero-o a obra máxima do Saramago, o maior escritor português depois de Camões sendo MEMORIAL DO CONVENTO a mais bela história de "amor" que li até hoje.
Certo.. e o melhor é largar a leitura. Há muitos livros para ler e pouco tempo para o fazer. Além disso, insistir tem um efeito contraproducente.
EliminarTalvez um dia mais tarde... :D
Tem de haver uma conjugação entre o nosso estado de espírito e o livro. Uma harmonia...
Curioso... aconteceu-me o mesmo com o Memorial do Convento. É um grande romance, mas foi dos livros em que mais me custou entrar. E adoro Saramago. Talvez seja o autor que mais li...
Grande Abraço
Mário
Da oportunidade seguirei vosso conselho, e aprovitando o ensejo, tenho observado em leitura que há uma característica de superfície, no ler e que para o leitor assimilar a mensagem em língua portugesa, que em si a obra descreve, é necessário a cadência da língua oral, o que chama a atenção é que deve-se, ler com atenção na fala portuguesa; então, neste contexto penso que para o universo de leitores mundo afora, e o que pode ocorrer é que, muitos bons escritores portugueses penalizados por ainda não terem rompido em prosa contínua, o que soma factores em deslanchar a carreira se é que me faço entender, e não é intenção de ofensa, mas tenho estudado a performance da escrita. Com relação a sugestão agradeço novamente e certamente da leitura, obrigada ASeverino!
EliminarAinda não li nenhum livro de Rentes de Carvalho, mas, como já aqui disse, sigo o seu blogue e gosto da sua maneira de pôr o dedo na ferida.
ResponderEliminarAs nossas aldeias têm aspectos bons, mas estão bem longe de serem paraísos. Lembro-me de muitas coisas que vivi, eu própria, ou a que assisti, na aldeia transmontana, onde o meu pai nasceu. Lembro-me, por exemplo, de um primo do meu pai, que casou em Angola com uma preta e cujos filhos eram, naturalmente, mulatos. Tanto a mãe, como os filhos, mal se atreviam a sair de casa, quando estavam na dita aldeia. A certa altura, deixaram de lá ir. E, quando o casal se divorciou, os comentários das pessoas dessa aldeia eram incomportáveis, diziam coisas do género: o casamento estava destinado ao fracasso, gente dessa está bem é na sua palhota...
ResponderEliminarA decepção em relação à vida nas aldeias para que a MRP nos alerta só se compreende à luz de uma visão estritamente citadina, idílica.
Mas há muitas outras visões, de acordo com as proveniências, as vivências e as idiossincrasias de cada um de nós.
Eu que sou da aldeia mas que de lá saí praticamente de forma definitiva aos 18 anos, só regressando em férias, e que tive uma dada vivência em que valorizo determinados aspectos mas não desprezo outros (conheço-os bem), nunca construí uma visão idílica desse mundo.
Penso que construí uma imagem da vida nas aldeias multifacetada, mais próxima da realidade do que as visões de quem vai de fora e espera encontrar o que lá não há.
Afinal, aquela gente, a sua cultura, usos e costumes são parte do que somos como povo e sociedade.
Se nas cidades há aspectos de que não gostamos, o regresso às origens das cidades (costuma dizer-se, por exemplo, que Lisboa é uma colecção de aldeias, tais as origens de grande parte dos seus habitantes, talvez o mesmo se diga do Porto) irá descobrir a fonte de alguns males daquelas.
Isto anda tudo ligado.
Saibamos valorizar o que de bom podemos fruir em cada lugar e deixemo-nos de ilusões construídas retoricamente nas nossas cabeças.
Este comentário, Manuel especificamente da oportunidade de sair e retornar.
EliminarDe multifacetada: evolução!
Essa conversa das aldeias é muito engraçada. As aldeias são tão únicas quanto as cidades, não vejo a mais valia em termos de detalhes deliciosos e particularidades a explorar. Talvez seja o óbvio aspecto de viverem mais pessoas na cidade, existir maior desconhecimento e como tal maior fascínio. Para alguém da cidade, ver um velho gabar-se de que em 20 anos de casamento só bateu uma vez na mulher, é, de certa forma, pitoresco ad absurdum, para alguém que lá vive é só bastante estúpido. I.E. os rituais de um rapazinho imberbe em volta dos seus jogos de computador podem ser tão interessantes quanto os gritos parvos da pastora, depende apenas do receptor.
ResponderEliminarPara mim, e já o disse, a grande maravilha do homem está na sua diversidade, o que a nem todos é dado entender.
ResponderEliminarO homem (perdão a humanidade... para não ferir a sensibilidade da Cristina, eheheh!) é o lugar onde vive.
Não há melhor nem pior, há diferença, e a cada lugar pertencem os que lá se sentem bem.
Sou um aldeão, nasci e criei-me num ambiente de aldeia, mesmo quando depois vivi e fiz o liceu em Oeiras que era na época de 60 uma vila, não um subúrbio, onde o professor de matemática vivia na casa em frente da minha! Depois fui estudar para Évora, fui para África, voltei, casei e vivi um período em Cascais, trabalhei em Lisboa, estudei numa universidade em Lisboa e noutra nos EUA... mas fui sempre aldeão, e fatalmente aqui voltei, onde vivo já há 20 anos e criei o meu filho, que todavia não se sentiu bem e retornou a Cascais! Vou tendo estadias em África, mas fora dos grandes centros, lá pelas pescarias remotas e no mato, também por opção minha, uma mais-valia profissional.
Aqui na aldeia, é onde estou bem, é a minha gente... quando hoje vou a Carcavelos e Parede visitar as minhas irmãs, a Cascais ao meu filho, ou ter com amigos a Paço d'Arcos, parece-me a mim que estou no estrangeiro, aquela é outra gente e outro país! Estranho...
Quando cá vêm sinto-os igualmente estranhos, não estão à vontade para viver como se vive aqui e como somos felizes os que cá estamos.
Também eu já não me sentiria bem lá naquele outro Mundo...
E ainda bem, pois isso nos distribui e permite a cada qual ser feliz à sua maneira, assim o queira entender e gozar.
A aldeia, como a cidade, são Mundos que não vale a pena comparar ou criticar... são assim por tantas razões que leva uma vida inteira entendê-lo! Nem a aldeia é limitada e limitativa, nem a cidade libertadora e cómoda. Nem uma é pura nem a outra corrupta, isso são os mitos criados de ambos os lados, pela desconfiança ou pela procura daquilo que em nenhum lado alcançam e afinal prova do desconhecimento!
Quanto ao livro de que falam, tentarei lê-lo.
Saudações do campo!
O António Luiz refere o interessante aspecto da situação inversa. Quem não conhece as cidades, também as idealiza: toda a gente vive bem, em boas casas, é muito culta, tem oportunidades sem fim, etc.
EliminarSim Cristina... são os eldorados, os mitos e a tal busca do Éden!
EliminarQuando há gente que tenta regressar ao campo, não ao real mas ao que imaginam, ou quando há gente que ruma à cidade na busca daquilo que lá não vai tão pouco encontrar!
Surge um conjunto de pessoas frustradas e tristes, de fantasmas sem identidade porque já não são nada, nem camponeses nem urbanos.
É a triste condição humana. Existe na urbanidade, na ruralidade. Existe na mediocridade (que essa está em todo o lado), existe na grandiosidade, que é mais rara.
ResponderEliminarQuem sonha com as aldeias idílicas das duas, uma: ou é fraco observador da humanidade ou rudimentarmente ignorante. Onde há gente, há tudo do pior e tudo do melhor.
Os bichos somos nós.
Bolo Rei Seco e Esfarelado
Responda por si...
EliminarAlém do mais, humanidade ainda tem graça.
...Assim sendo e com a devida autorização, fica o texto sobre a excelência de "Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia".
ResponderEliminarhttp :/ oplanetalivro.blogspot.pt /2011/09/os-lindos-bracos-da-julia-da-farmacia.html
Abraços
M
Comprei esse livro, ontem.:) E numa livraria...(alegrem-se livreiros!:)
ResponderEliminarSerá o próximo a ler. Estou a acabar o Rabo de Lagartixas do Juan Marsé que alguém, aqui, me indicou. E em boa hora o fez que o livro é delicioso!
Quanto à vida e gentes do campo, concordo com o Extraordinário Bolo Rei: em todo o lado há bom e mau.
Falta esclarecer que a primeira edição de O Rebate remonta à década de 70, se a memória não me falha. Aspeto importante para compreendermos melhor o universo rural nele retratado.
ResponderEliminarBarrius
É verdade, e estive para referir a data da primeira edição no post. Mas, como há leitores que só gostam de novidades e o livro é excelente em todos os tempos, acabei por achar que não valia a pena dizer nada, pois, assim que se começa a ler, percebe-se que a história não se passa hoje.
EliminarNão sei se as coisas serão ainda tanto assim, mesmo se observadas de um ponto de vista citadino e lisboeta, que é afinal também o meu. A minha vivência intermitente de Beira Alta, que comparo agora com os arredores aldeões conimbricenses da minha meninice (fins de anos 50) dizem-me que muita coisa mudou, e que mudou enormemente. Gosto de os ouvir dizer agora bai ber ao gugâle !".
ResponderEliminarQuase tão bom quanto a brasileira a dizer: Drabu Dabru Dabru... pontu pontu! Oh Paulo, na segunda edição devia pôr "Frederico tens a mania que és o marquês de estarrêja e só não és de carabás porque o Paulo Olivêra na dêxa"! :D
EliminarLeio diariamente os textos "on line" de Rentes de Carvalho e gosto muito. Descobri, há alguns anos, este Senhor Escritor por mero acaso, navegando sem rumo pela Net. Ainda bem. Não que isto lhes interesse mas digo-vos que destesto listas. Os melhores isto, os melhores aquilo, os menos bons e por aí vai. Citam nomes e incluem nessas malfadadas listas o nome do Sr. Rentes. Pois bem, há grandes escritores. Os que podem ser melhores para mim, podem não ser melhores para A, B ou C. Vai do gosto de cada um. Porém, a vantagem que este Senhor tem em relação aos demais - ainda jovens - é muito mais experiência de vida, muitas vivências, muitas viagens, muitas permanências em distintos países. Assim e com o talento que tem para as letras tudo o que ele nos traz é de qualidade. Tanto narra a preceito um facto acontecido - ou por ele criado - numa grande cidade como um outro, acontecido para além das fragas e dos montes. Dois seus Montes. Um homem que é de aldeia e é citadino. Um grande escritor, sim senhor. Os meus respeitos a quem assim escreve.
ResponderEliminarPerdão, "dos seus Montes".
EliminarQuanto à vida e gentes do campo ainda há que ter em conta que os olhares sobre o campo de quem não está no campo são incompletos e deformados. Ainda não li o livro. Conheço vários escritores que escrevem ''de fora'' e são todos ou muitos cáusticos, pouco tolerantes, ou demasiado idílicos , parece desconhecerem o que cá se passa, ou idealizam de tal maneira a vida cá, que é um tormento ter discussões com eles sobre este tema. Sei do falo, pois até em familiares meus que estão ausentes vejo atitudes e análises absolutamente à rebours da realidade.
ResponderEliminarLuisa Barbosa