A química da literatura

Prometi voltar a falar de Primo Levi e da sua «autobiografia», que traduzi no final dos anos 80 e agora volta a estar disponível para os leitores portugueses. Intitula-se O Sistema Periódico e é uma obra-prima do escritor italiano que esteve num campo de concentração nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial (era judeu) e se suicidou mais tarde, deixando-nos, porém, livros magníficos e inesquecíveis. Um deles é, de resto, este maravilhoso conjunto de memórias da sua vida como químico (e quanta literatura há nesta profissão), que foi considerado o melhor livro de ciência de sempre pela Royal Institution of Great Britain em 2006. Nele, a vida de Levi é-nos contada através de episódios cronológicos, cada um dos quais associado a um dos elementos da Tabela Periódica. E assim assistiremos à relação de Levi com a química desde a infância no Piemonte ou no laboratório do liceu, até ao estratagema que encontrou para sobreviver em Auschwitz ou a sua experiência nas minas ou na indústria de resinas. Mas, se assim à partida pode parecer prosaico, o facto é que é tudo menos isso: mais poético, aliás, do que muito romance que anda por aí. E para Levi o amor não está de forma alguma isento de química, pelo que assistiremos igualmente à sua vida amorosa a par da profissional (e bem assim à sua vida literária, pois fazem parte do livro dois contos que escreveu na juventude e não tinham sido publicados antes de este livro ter sido dado à estampa). Um primor de inteligência, humor e autocrítica a não perder.

Comentários

  1. como tem acontecido outras vezes, fiquei com vontade de ler.

    obrigado Rosário.

    ResponderEliminar
  2. Obrigada por mais esta preciosa sugestão.
    Não o perderei, seguramente!

    ResponderEliminar
  3. Primo Levi interessa-me muito. Sobre a sua vida, li "Primo Levy - Tragedy of an Optimist" de Myriam Anissimov.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Oh Maria Almira - e na língua original (italiano)? não me diga que não leu nada? indesculpável... é que não leu o mais mediático e talvez o mais completo? se tiver dificuldades em adquiri-lo também está traduzido em Português e muito fácil comprá-lo agora na Feira do Livro (mas também há em Inglês)...mas se calhar não lê traduções (em português-em inglês são mais finas), como muita gente finesse cá do nosso burgo...faz bem Maria Almira, não seja parôla. .

      Eliminar
    2. Dizer que se leu um livro não significa que não se tenha lido outros. Este que referi, encontrei-o, há anos, num saldo, baratíssimo.

      Eliminar
    3. Sr. Severino on fire!

      Eliminar
    4. Oh Amigo Courinha, por favor, não me trates por Senhor, nem sabes como me sinto "amagado"

      Um abraço e boas escritas!

      do Alentejano para Português - AMAGADO/AGACHADO=diminuído, apoucado, reduzido ao ínfimo

      Eliminar
  4. Cláudia S. Tomazi9 de maio de 2012 às 04:09

    A química da literatura, muito bem. Diria a ser considerado "o melhor livro de sempre" deveras uma leitura extraordinária!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Exagero é do "melhor livro de sempre", sempre ganhou do irrepreensível neurasténico!

      Eliminar
    2. Exagero é seu comentário. Clarifique!

      Eliminar
    3. :D A Claudia Tomazi a dizer "clarifique" é como um bebé num restaurante a pedir pouco barulho! Beijinhos para o Brasil!

      Eliminar
    4. Oh Claudia (lindo nome) saberás tu o que significa chamar a um homem incompetente (em Portugal)?

      Eliminar
    5. Um homem acorda da sesta e constata que por duas horas passou por incompetente, o homem resolve responder furiosamente, acalma-se enquanto ouve:

      "Jack Soul Brasileiro do tempero
      Do batuque, do truque, do picadeiro e do pandeiro
      E do repique, do pique do funk rock
      Do toque da platinela
      Do samba na passarela
      Dessa alma brasileira
      Despencando na ladeira
      Na zoeira da banguela"

      Agora o homem perdoa, encolhe os ombros e pensa "pfff incompetente..."

      Eliminar
    6. Vamos por partes:

      sei o que significa chamar um aspirante a escritor de incompetente.

      Pois é assim gira que vale a tal porra ou óvulo?! Afinal tractam, quem tracta.


      Embora a um homem de procedência portuguesa a lavra não caiba a palavra incompetência em qualquer gênero, número ou grau.

      Eliminar
    7. Diria: "a química da Literatura"
      Os ossos do ofício nem deveria ser-lhe sacrifício.

      Emperrar o sistema não é ajuste nem inteligência. A cordialidade em resgatar gentilezas forja a capacidade humana do discernir pela digninade. Considerando da escrita, ancestral expressão.

      "Silêncio" bebé a bordo.

      Eliminar
    8. Quando vier a Portugal, marimbe para os pastéis de nata e para o bacalhau à Zé do Pipo, concentre-se antes na cartilha de João de Deus e na Gramática da Abelhinha, dois tesouros nacionais.

      Eliminar
  5. Acredito que o "Sistema Periódico" é um grande livro (não o li embora tenha lido outras obras deste grande escritor). Mas nunca poderia ser o melhor livro de ciência de sempre, isso não faz sentido nenhum, simplesmente porque não é um livro de ciência...

    Passe o exagero, que todos os prémios são exagero, o prémio atribuído pela Royal Institution of Great Britain foi para o 'Best Science Book Ever'. Basta olhar para a shortlist (http://en.wikipedia.org/wiki/Best_science_book_ever) para ver que não foram avaliados livros de ciência mas, quando muito, livros sobre ciência.

    Ou seja, o "Sistema Periódico" foi considerado, para dizê-lo melhor, o "Melhor Livro Sobre Ciência"

    ResponderEliminar
  6. Parei na frase que refere que Primo Levi esteve num campo de concentração e se suicidou depois. Grande ironia... se bem que deve ser bem difícil sobreviver com as recordações.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Vespinha,

      Primo Levi, já avançado na idade, foi encontrado morto por ter caído de três andares, no vão das escadas do prédio onde vivia. Não se pode garantir que se tenha suicidado (de facto, os seus familiares até garantem que não, embora todos os biógrafos afirmem que sim...).

      De qualquer modo, o suicídio teria justificação: na sua obra perpassa um sentimento a que poucas pessoas aludem quando se fala de sobreviventes de dramas como o holocausto: um sentimento de culpa por ter sobrevivido ao terror sob o qual tantos outros morreram.

      Eliminar
    2. Obrigada, Nuno, pelo esclarecimento. É de facto uma perspetiva interessante a do sentimento de culpa. E, de certo modo, compreendo-o, por aquilo que muitos dos sobreviventes terão de ter feito para conseguirem chegar ao fim.

      Eliminar
    3. Concordo com Nuno Serrano:

      "Regressávamos mais ricos ou mais pobres, mais fortes ou mais vazios? Não sabíamos: mas sabíamos que nos patamares das nossas casas, para o bem ou para o mal, nos esperava uma prova, e aguardávamo-la com temor".

      Excerto de "A trégua" Primo Levi

      Eliminar
    4. Cara Vespinha, aproveite a Feira do Livro e compre o tríptico formado pelos "Se isto é um homem" que relata a sua permanência em Auschwitz, "A Trégua", que descreve a longa viagem de regresso à sua terra natal, após a libertação do campo de concentração e o "Os que sucumbem e os que se salvam". Este último, escrito já pouco tempo antes de morrer, faz uma brilhante e lúcida análise de todo aquele horror, procurando explicaçãoes para a sua existência e para a chamada "zona cinzenta" que o viabilizaram. Ainda há dias vi-os na Feira do Livro. Acredite que, após a sua leitura,não será jamais a mesma pessoa. É impossivel ficar-se igual.

      Eliminar
    5. Obrigada, Ana, amanhã vou voltar à feira e acho que vou mesmo comprar.

      Eliminar
  7. António Luiz Pacheco9 de maio de 2012 às 08:05

    Mas isto agora vocês deram em brigar????
    Agora é por causa do primo Lévi... atão e se fosse por causa do pesado? Havia de ser bonito...
    É extraordinario

    ResponderEliminar
  8. The Survivor


    Once more he sees his companions' faces
    Livid in the first faint light,
    Gray with cement dust,
    Nebulous in the mist,
    Tinged with death in their uneasy sleep.
    At night, under the heavy burden
    Of their dreams, their jaws move,
    Chewing a non-existant turnip.
    «Stand back, leave me alone, submerged people,
    Go away. I haven't dispossessed anyone,
    Haven't usurped anyone's bread.
    No one died in my place. No one.
    Go back into your mist.
    It's not my fault if I live and breathe,
    Eat, drink, sleep and put on clothes.»

    Primo Levi

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. E pensava eu que a Maria Almira era Portuguesa?
      Mas tem nome de mulher portuguesa e da zona saloia.

      Eliminar
    2. Cidadã do mundo (sobretudo o literário).

      Eliminar
    3. António Luiz Pacheco9 de maio de 2012 às 11:21

      «Stand back , leave me alone , submerged people ,

      Eliminar
    4. António Luiz Pacheco9 de maio de 2012 às 11:25

      Sobre o ultimo paragrafo do texto e que no meu post nao consigo reproduzir / ignorem no por favor...
      Creio que e disto que se falava... o tal sentimento de culpa, de ter sobrevivido... Consigo compreender o drama pessoal e a carga que o devia apoquentar.

      Julgo que há coisas que se não traduzem, por uma questão de respeito. Esta pode ser uma delas, mas são opiniões .

      Eliminar
    5. Gostei da sua resposta:)

      Eliminar
  9. Destaco a frase que mais gostei do post de MRP:

    "E para Levi o amor não está de forma alguma isento de química"

    ResponderEliminar
  10. Pois isto é assim, mais ou menos: convida-nos a dona da casa, anfitriã de esmerada educação, pessoa de fino trato, para que a visitemos no seu cantinho (palavra saloia mas gosto dela) e de repente, sem mais nem menos, começa a zaragata. Feio. A dona da casa, na sua habitual elegância, finge que não percebe e alheia-se. Não tarda nada, veda-nos a entrada e manda-nos fazer rixas lá para as bandas das docas ou para o raio que nos parta. Terá razão. Aproveito para pedir-lhe, Senhora Extraordinária, que me desculpe por ter iniciado o motim e, de certa forma, ter posto lenha na fogueira, na questão de há dois "posts" sobre a tal viúva que muitos poucos conhecem. Depois disso, confesso-lhe, sem pejo, que depositei mais algumas achas em fogueiras que, mansamente, crepitavam.
    E queria pedir-lhe o obséquio, apesar de haver uma crise violenta no mercado de trabalho, de me conseguir um emprego na sua Editora. Não fujo ao trabalho e, sendo honesto, qualquer um me serve. Faxina, cozinha, copa ... enfim qualquer um destes me assentaria perfeitamente.
    Sabe, Senhora Extraordinária, ouvi dizer que não é nada difícil , tendo um empurrãozinho, chegarmos a escritores e depois ao Nobel.
    Cumprimento-a, com apreço, a apresento-lhe o meu sincero pedido de desculpa. Espero que seja este aceite.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pedido de desculpas aceite. Isso do emprego é que é pior... Se garantir o meu, já me dou por satisfeita.

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório