A casa dos loucos
Ficamos sempre incrédulos quando alguém que anda ao nosso lado há anos, ou nos habituámos a ver na televisão com um comportamento absolutamente «normal», acaba por revelar-se capaz de certos actos que cremos pertenceram apenas a gente doida ou psiquicamente muito perturbada. Foi assim que seguramente se sentiu a maioria de nós quando Carlos Cruz foi acusado de pedofilia, por exemplo; e, seja ele condenado ou não, a verdade é que haverá sempre gente que acreditará na sua inocência e jurará a pés juntos que foi vítima de uma maquinação. Pois aquilo em que creio ao fim de mais de cinquenta anos de vida – em que vi tantas pessoas serem, afinal, aquilo que não esperava (não necessariamente criminosas, entenda-se) – é que a linha que separa a loucura da sanidade é mesmo ténue, podendo quebrar-se a qualquer momento e desvendar um lado obscuro e estranho em alguém que parecia aos nossos olhos inofensivo e transparente. Assim, os hospitais psiquiátricos não estarão cheios de loucos ferozes, como no nosso imaginário infantil e adolescente, mas de muita gente que, provavelmente, pareceria completamente sã se andasse na rua ao nosso lado. A este título, António Lobo Antunes – escritor e psiquiatra – disse, de resto, um dia destes uma coisa muito curiosa, referindo-se ao que tinha sentido depois de acabar o curso de Medicina e ao entrar pela primeira vez num hospital psiquiátrico: «Uma mistura entre um filme de Fellini e a casa da minha avó!»
Bom dia
ResponderEliminarApenas uma pequena correcção. Carlos Cruz já foi condenado, excepto pelos factos relativos à casa de Elvas, que voltarão a ser julgados. Mas já foi condenado por outros crimes. Não deixa de ser curioso como muita gente fala como se o tribunal não tivesse ainda proferido uma decisão (independentemente de cada um acreditar na sua culpabilidade ou não, ou de um eventual recurso e respectivo desfecho).
Cumprimentos
APOIADO !
EliminarLuis Gomes, não pode concluir que MRP não sabia que CC já tinha sido condenado. MRP pode estar a referir-se à qualidade de ser condenado e não ao ato de ser condenado. Leia outra vez o texto.
EliminarAgora, a MRP vai desmentir categoricamente, mas não fica qualquer dúvida, pela arquitetura do texto, de que ela acha que CC é louco e por isso culpado.
O ser humano é uma mescla de ‘coisas’: somos adultos sem deixarmos de ser crianças; somos mulheres ou homens, com facetas do outro sexo; somos normais abrigando (numa certa invisibilidade) a loucura. De vez em quando, os lados mais ténues vêm ao de cima e, no que à loucura diz respeito, as alturas de crise são propiciadoras de comportamentos pouco razoáveis ou mesmo insanos. As injustiças sociais podem ser a mola para um pacato cidadão puxar de uma arma e dar com ela na cabeça de alguém. É louco ou está a reagir sob pressão de uma mão invisível que o esgana, e assim se defende? Não sei, mas vejo tanta miséria (de vida e de atitudes) que tendo a desculpar certas loucuras… mas só algumas… a outras dava-lhes o remédio do meu sábio avô: barco sem fundo no alto mar!
ResponderEliminarTodos os anos Portugal se transforma num manicómio, completamente atulhado de atrasados mentais, repito atrasados mentais: acontece todos os anos no final do Campeonato Nacional de Futebol (agora Liga); este ano vimo-los no Porto; há dois anos em Lisboa...o de menor grau de sanidade mental até é o emplastro (inquilino vitalício), aquele tonto que se põe atrás do locutor, o filho do Pinto da Costa (assim grita ele)...aquele a quem dizem que o Herman pagou os dentes... não sei se a troco de...
ResponderEliminarE quando lhes colocam o microfone à frente...
Possivelmente voltarão a sair à rua no próximo domingo, ganhe o meu clube ou o dos estudantes (estes de batina),,,oiçam-nos e pensem/reflitam...
Eheh !... está cheio de severina razão. Ganhe no próximo domingo o meu clube, como espero, ou o dos leões-lagartos , oiço e penso / reflito: não saio à rua porque já lá vou estar.
EliminarMas atenção eu lagarto me confesso já estive metido na turba (de corpo inteiro), contudo não deixo de reconhecer que é um fenómeno para reflectir.
EliminarForam muito poucas, mas já algumas vezes senti que estava quase a atravessar essa linha, e tive de me resguardar e respirar fundo para voltar para trás.
ResponderEliminarAs pessoas têm certamente o seu lado negro... e eu ainda acho isso fascinante! É o que as separa de uma máquina, programável. Deus me livre de alguma vez a humanidade atingir esse beatífico estado de fábrica alemã!
ResponderEliminarSeria o fim de sermos humanos, pensantes, sensíveis , imprevisíveis mas com a alma que nos faz oscilar.
Os escritores - lá vou eu falar do que sinto e sem respeitar a minha condição de inculto - creio que são entre a classe humana dos artistas, aqueles que mais ostentam, exibem e são dados a essa loucura, ou às tais transformações, e isso se reflecte não só nas acções do dia-a-dia mas na sua escrita.
E, Deus nos livre de sermos alguma vez avaliados por um ser perfeito e de virtude absoluta...
Votos de um bom dia, cá do campo!
E quem saberá dizer-nos, psiquiatra ou não, onde se encontra essa linha limítrofe entre a sanidade mental e a loucura? Pois quem a diz conhecer também nos traz a dúvida se estará aquém ou além dela. E, por favor, não se confunda insanidade mental com maus instintos e malvadez. A loucura "boa" por vezes agrada-me. Da sanidade mental "má" é de se fugir dela a sete pés, ou mais ...
ResponderEliminarBom dia João Silva
ResponderEliminarA condenação em tribunal a que me refiro, é uma questão factual. Já se verificou, e não se trata de uma questão de qualificação do conceito ou liberdade semântica.
E no texto para o qual correctamente me remeteu, repare que a autora escreve "seja condenado ou não". A observação que faz faria mais sentido se a palavra utilizada fosse culpado.
Cumprimentos
Quando, usados e inúteis, nos lançam à terra, somos um saco de loucuras bem guardadas e quase sempre oprimidas. Das que em vida se libertaram ninguém soube e já ninguém saberá. E, digam-me amigos, não foram esses pecados calados os mais interessantes que, se contados, seriam, esses sim, a grande aprendizagem dos que chegam? O tesouro de cada ser humano está naquilo que por milhares de razões diferentes nunca se contam. Tem a ver com as mais ignóbeis palavras de um dicionário, onde vergonha, cobardia, traição, são apenas algumas delas. Por vezes, ainda em vida, esse saco rompe-se. E comentamos, sentenciamos, porque, enquanto o fazemos, vamos apertando mais o nó do nosso invólucro que até ao fim desejamos oculto. Mas é aí que surge o encanto da literatura. Sem pudor, escarrapachamos em letras inventadas ou não o que os outros quiseram guardar. Ou o que próprio autor esconde sem, assim, ter de admitir que a loucura era sua.
ResponderEliminarnunca a vida nos colocou tanto à mercê da "loucura", já que caminha a "velocidades" completamente loucas, para as quais o nosso corpo e alma não estão preparados.
ResponderEliminarem relação às "zonas obscuras" de cada um de nós, há mais janelas e portas abertas á nossa volta, menos gente "enjaulada" em casa... ou seja, muito mais possibilidades de tratamento...
"Porque a alma humana é um abismo."
ResponderEliminarÁlvaro de Campos
Diria que loucura é quase um conteúdo.
ResponderEliminarÉ muito triste fazer confusão entre a loucura e a fraqueza humana, entre, de modos por expressar-se ou não, contraponto a cuplicidade sordida dos desafectos existenciais. A loucura em si não refrea o subjetivo da acção, "ninguém consegue esconder o que não é". Enquanto do homem sã (dito sã) ocorre, justificar o que não desperta em fingir-se louco.
Na casa dos loucos, com relação a Fellini:
A verdade é uma loucura que poucos suportam.
http://www.youtube.com/watch?v=eUvalj-ia28
ResponderEliminar«Uma mistura entre um filme de Fellini e a casa da minha avó!».
ResponderEliminarAté quarta, em casa da minha avó, para mais momentos de loucura sempre saudável!
No meu imaginário "os jantares em casa da avó" remetem-me sempre para uma mesa comprida onde à sua volta se senta uma família siciliana, onde todos se atropelam na fala, nos gritos e nas correrias. E há um conforto feliz que nasce dessa cumplicidade nem sempre explícita, simplesmente porque sentimos que também ali, é o nosso lugar.
ResponderEliminarHoje lembrei-me dessa "minha costela siciliana", desejando que os jantares em casa da avó se prolonguem por muitos e bons anos.
Isabel
É isso! Na família onde me incorporei, as refeições mais festivas ultrapassam as 20 pessoas em várias mesas justapostas, jovens numa ponta, depois os cotas e a seguir os velhos, fora as alcovas (agora, ovos) com bebés chorões poisadas aqui e ali no que sobra da sala, e outros já mais crescidos a atropelarem-se em correrias. É uma incrível balbúrdia que não dispenso. "Siciliana", como bem disse.
EliminarCom relação ao pedófilo: o indivíduo é, ou não. Não há meio termo porque a natureza masculina ou feminina de exercer e lidar com formas de poder, reconhece na inocência, no indefeso do atentado em corromper o quê lhe seduz, compreende do libertar-se pelo domínio e em exercer o domínio. No entanto, é infeliz o que não domina-se, e feliz quem desconhece por dominar o outro.
ResponderEliminarÉ simplesmente vulgar e incompetente a sociedade que comporta do abuso. A tirania é por resolver da rasura; a loucura por mais insana ou não, nem comunga com tirania. As crianças e adolescentes, também homens e mulhers que indefesos, devem ser prioridade e preservados de qualquer forma de investida de descontrole.
mulheres*
EliminarAvós que já não tenho, a não ser a forte lembrança de cada uma delas, tão distintas uma da outra, nas suas formas de ser e de estar. Mas ambas com aquele traço comum chamado "vovosice". Uma delas visitava anualmente, em sua cidadezinha entre deserto e mar, lugar tão misterioso como um armário em que ela guardava verdadeiros tesouros. Para ela apenas coisas banais, para mim preciosidades. Uma verdadeira loucura. Uma loucura tão deliciosa que até hoje não apaguei ...
ResponderEliminar«Uma mistura entre um filme de Fellini e a casa da minha avó!»
ResponderEliminarEu acho que António Lobo Antunes quis dizer que, se observarmos a nossa família de uma maneira objetiva (ou da maneira mais objetiva possível, o que é extremamente difícil, porque família significa, de imediato, sentimentos e emoções), mas, dizia eu, se o conseguíssemos fazer, dar-nos-íamos conta de comportamentos muito peculiares...
Coitadinho do homem que sujeita a carreira, o título, o nome de família, a tradição dos valores em que amealha sua gente servil, etc, etc, etc... mil vezes, coitado. A que nem valha a pena.
ResponderEliminarÉ mais fácil do que parece entrar numa situação psiquiátrica de risco e custa-me saber que ainda existem muitas pessoas não aceitam estas doenças. A verdade é que tal como o coração avaria, o cérebro também fica cansado. Aliás, acho que a nossa cabeça tem cada vez mais razões para querer umas férias.
ResponderEliminarÉ urgente uma mudança de mentalidade! Várias pessoas me dizem que estas doenças são ridículas e que as pessoas só as ganham porque querem. Acham que alguém escolhe ser louco?
Enfim, no fundo todos nós temos um pouco de loucura. O importante é continuarmos a amar os outros e a nós mesmos.
Diz a Loucura:
ResponderEliminar“Afinal de contas, nenhuma sociedade, nenhuma união grata e durável poderia existir na vida sem a minha intervenção: o povo não suportaria por muito tempo o príncipe, nem o patrão o servo, nem a patroa a criada, nem o professor o aluno, nem o amigo o amigo, nem o marido a mulher, nem o hospedeiro o hóspede, nem o senhorio o inquilino, etc., se não se enganassem reciprocamente, não se adulassem, não fossem prudentemente cúmplices, temperando tudo com um grãozinho de loucura”.
Elogio da Loucura
Erasmo