Erros com graça

Quem, como eu, passa a vida a ler originais encontra erros recorrentemente (alguns até ajudam a identificar a geração do respectivo autor) e, além disso, anacronismos e asneiras de criar bicho; quem revê traduções tem também histórias deliciosas para contar (uma vez descobri a expressão «sacudir as mãos» por «shake hands», calculem). No entanto, ninguém encontrou de certeza tanta matéria risível colectável como os professores que ensinaram ao longo de anos (um deles coligiu em tempos, de resto, uma História de Portugal em Disparates, que foi best-seller). Um destes dias, uma amiga francesa professora reencaminhou-me uma mensagem de uma colega que era de ir às lágrimas; mas, porque alguns dos disparates não têm graça senão em francês, deixo aqui apenas uma amostra para se divertirem – tudo respostas de alunos: «A um homem que tem várias mulheres, chama-se polígono.» «Quando alguém tem prisão de ventre, deve pôr um supositório de nitroglicerina.» «O tecido celular é o que os prisioneiros fabricam nas próprias celas.» «O osso do ombro denomina-se canícula.» «Quando uma mulher deixa de ter a menstruação entra na mesopotâmia.» «O álcool é mau para a circulação: os bêbados causam acidentes frequentemente.» «Na Idade Média, a mortalidade infantil era muito elevada, excepto entre os velhos.» «A fome era um problema para quem não tinha de comer [na mesma época].» «O nome de Joana d’Arc vem do arco com que ela atirava mais depressa do que a própria sombra [Confusão com Lucky Luke?].» «O cavalo-vapor é a força de um cavalo que arrasta ao longo de um quilómetro um litro de água a ferver.» «Esta figura geométrica chama-se trapézio porque nela se pode suspender qualquer pessoa.» «Quando um rapaz está apaixonado pela mãe, sofre de complexo adiposo.» Houve ainda um aluno que declarou que o «jeune homme» se encontra nos cromossomas. Era o «genoma», entenda-se... 

Comentários

  1. E o oposto:
    Dizia Alexandre O'Neill para Baptista Bastos:-Bebo normalmente. Às refeições e fora das refeições. E acrescentava: entre uma refeição e a outra, penso na próxima.

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  2. Tendo crescido numa casa de professores, assisti a muitos erros engraçados. Mas não tomei nota e, assim de repente, lembro-me de dois interessantes:
    - um aluno, ao inscrever-se num Externato, na listagem das disciplinas que queria frequentar, escreveu: "Bisual" (e o pessoal da secretaria que decifrasse).
    - uma aluna, escreveu, num ponto que o meu pai corrigiu, a palavra: "toli-se".
    Haveria mais, muito mais...

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  3. Que maravilha! No outro dia na urgência também houve uma menina que me disse que sentia os dedos "dementes"... (Descobriu uma nova doença, o Alzheimer da cabeça dos dedos...)

    (um) beijo de mulata

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  4. Escrita criativa (?) no preenchimento de um formulário escolar:

    Profissão do pai: tac-sista .

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  5. Uma sugestão: no primeiro dia últil de cada mês, TODOS, incluindo naturalmente a Maria do Rosário, deveríamos comentar o LIVRO QUE ANDAMOS A LER (uma vez por mês); a Maria do Rosário no na frente e os amigos deste blogue nos comentários!
    Apenas uma sugestão, obviamente!

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    1. Bela sugestão! Espero que a autora do blogue não leve a mal dar tanto poder aos seus leitores...

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    2. Mas é o que faço quase sempre: comentar o que li ou ando a ler. Pode tornar-se delicado, pois por vezes o que ando a ler são originais que não chego a publicar e sobre esses prefiro não falar, pois não fazem parte das minhas Horas Extraordinárias. Também escrevo os posts com antecedência e nunca sei se no primeiro dia útil acerto com uma crítica a um livro, mas, se me lembrar, fá-lo-ei. Sintam-se à vontade, porém, para o fazerem se eu falhar.

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    3. Mas fica a sugestão: o primeiro post sobre O QUE ANDO A LER poderia ser já no próximo dia 2 de Junho; claro que a Maria do Rosário até o poderá postar com antecedência, se o fizer, por exemplo, amanhã (para o dia 2/6) postará o que actualmente anda a ler, claro estou a falar nas suas leituras de ócio (que também as terá, certamente ) e não as profissionais. Sei que a Maria do Rosário não me leva a mal esta minha ousadia.

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  6. Erros com graça

    Jamais entendi por qual motivo afirma-se que Canaã, de Graça Aranha, publicado em 1902, é um romance nacionalista — e, conseqüentemente, teria sido uma das obras que anteciparam as idéias da Semana de 22. A bem da verdade, se há exaltação dos valores nacionais nesse livro, estão descritos às avessas — ou foram encontrados por algum crítico fantasioso.
    por Rodrigo Gurgel

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  7. António Luiz Pacheco15 de maio de 2012 às 06:47

    Uma coisa é certa... são erros cheiros de lógica!
    E até são verdades, se formos a ver... ahahah !

    As pessoas que respondem assim, muitas vezes não são burros nem estúpidos, antes pelo contrário! Não sabem... apenas.
    Mas que criam situações hilariantes é um facto!

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    1. Realmente - boa tarde, António Luiz Pacheco - é comum ver-se a confusão entre ignorante e estúpido ou "burro". Não há confusão possível!
      Ignorância não é estupidez! É ignorância.

      Saudações duma antiga vitrina de pastelaria

      Bolo Rei Seco e Esfarelado

      (Como vê, ando sem graça nenhuma. Desiludido com tanta coisa! A lembrar-me ainda do "post" de ontem sobre a loucura. Passei por uma cena dessas, recentemente (não eu, felizmente!). Quando me apercebi do que se passava com a outra pessoa, já era tarde demais. Inesquecível! Tem-me feito muito mal, mesmo! Eles andam aí!! )

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    2. Por vezes não é bem ignorância…

      Em Lagos (…) um grupo de jovens saltitava à volta da estátua exclamando: “Que fixe!”. Uma inglesa, enquanto preparava a máquina fotográfica, perguntava ao marido: “Who is she?”.
      (…) sentei-me numa esplanada que está ali mesmo, de modo a ver D. Sebastião enquanto tomava um café. Resolvido a esclarecer a minha dúvida, meti conversa com a mesa do lado, onde estavam dois homens que me pareciam habitantes da cidade. Sem qualquer introdução, fiz a pergunta de chofre a um deles: “Desculpe, por que é que a estátua de D. Sebastião está aqui?”. O homem, apanhado de surpresa, baixou o jornal e ficou a olhar para mim com a boca aberta. Depois inclinou-se para o outro e sussurrou-lhe baixinho, com as costas da mão a tapar a boca: “Está a perguntar por que é que a estátua do D. Sebastião está aqui...”. O outro mostrou-se também surpreendido. Olhava alternadamente para mim, para o amigo e para a estátua. Da minha mesa, durante aqueles longos instantes, eu permanecia com as mãos abertas e acenando com a cabeça a confirmar que sim, que a pergunta em suspenso era mesmo aquela. Finalmente, coçando a cabeça e ajeitando um sorriso, o homem parecia querer desculpar-se de me ter julgado maluco, e balbuciou: “Bem, aquilo foi um Presidente da Câmara que tivemos aí, antes do 25 de Abril, que colocou ali a estátua...”, e olhava insistentemente para o amigo implorando a sua confirmação. O outro acenava que sim. Eu insistia: “Mas porquê aqui?...” e ele interrompia-me para sublinhar: “Antes do 25 de Abril, hein?!, antes do 25 de Abril!” “Mas porquê? O rei nasceu aqui?” “Olhe, isso por acaso não sei. Ó pá, tu sabes alguma coisa disso?” O amigo também não sabia, mas pareceu de súbito dar valor ao assunto, e olhava em redor, como que a procurar alguém que o pudesse ajudar. Eles agora estavam atrapalhados, como se tivessem sido apanhados em flagrante numa falta grave e, assim como quem quer arranjar uma justificação no momento, começaram a falar atabalhoadamente os dois ao mesmo tempo: “Foi antes do 25 de Abril”, insistia um. “Quiseram tirá-la dali e pôr lá uma do Salazar”, sobrepunha o outro. Mas aos poucos caíam em si e rendiam-se à humilhação: “Ó pá, a gente tem aqui isto, devíamos saber por que é que isto aqui está”. Eu lancei uma pequena acha para a fogueira: “Já procurei nas tabacarias e lojas de souvenirs, e nem sequer se encontra um postal ilustrado com a fotografia da estátua”. O outro, mais expedito, definiu logo as responsabilidades: “A Câmara, pá, a Câmara é que devia pôr ali qualquer coisa que explicasse por que é que aquilo ali está”. E o amigo, pegando na deixa, virava-se para mim e frisava, com convicção e subtileza: “Isto não é bem ignorância, sabe? É falta de informação.”
      (…)

      Já agora, que vem a calhar nestes dias:
      (…)
      Vós que trazeis por dentro
      de cada gesto
      uma cansada humilhação
      deixai falar na vossa voz a voz do vento
      cantai em tom de grito e de protesto
      matai dentro de vós el-rei Sebastião.
      (…)
      Com gratidão a João Cutileiro e a Manuel Alegre, saúda-vos o
      Joaquim Jordão

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  8. Vasilha-me só com depósito!

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  9. MRP:

    Mais grave foi um tradutor de um livro americano ter traduzido o título de um subcapítulo que falava dos preciosos tesouros gregos da Antiguidade Clássica, «Old Golden» era o título, por «Velhotes Dourados».
    Hilariante, não é?
    Mas foi verdade.
    Valeu o revisor, que transformou aquele título absurdo em «Antiguidades Douradas» (no sentido de nobres, preciosas).

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  10. Eu li “A história de Portugal em disparates”. Hilariante. Mas concordo com o António Luís Pacheco: “As pessoas que respondem assim, muitas vezes não são burros nem estúpidos, antes pelo contrário! Não sabem... apenas”.

    No que respeita aos posts da Dra. Maria Rosário, acho-os deliciosos, embora por vezes possa discordar de algum conteúdo. E mesmo aqueles que não falam diretamente de livros são importantes.

    No entanto, achei bastante piada ao termo, e fiquei curioso com uma frase deste post : “asneiras de criar bicho”. Faço esta pergunta sem maldade e sem ironia. O que são “asneiras de criar bicho”? As que são desprovidas de contexto? São mesmo asneiras no sentido literal da palavra ou é uma força de expressão?

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  11. Se a ideia de ASEVERINO "O LIVRO QUE ANDAMOS A LER" já tivesse sido posta em prática, teria de falar do Mia Couto, já que ando a ler "A confissão da Leõa" e foi com grande alegria que o vejo mencionado neste post. Este autor já merecia!! (não concorda ana b.?). E o episódio aqui retratado tem graça porque se eu não soubesse que ele era homem, diria que era mulher, não só pelo seu nome, mas pela "sensibilidade feminina" que revela. Há uma frase que me tocou sobremaneira no seu livro que diz mais ou menos o seguinte (não tenho o livro comigo) - Ela nunca soube o que era "querer" como ia "preferir"??- só escreve assim quem conhece bem a "alma feminina"...(digo eu). Mas enfim, é bem provável que a literatura não tenha sexo e estes escritores sejam simplesmente sensíveis, e por isso, geniais.
    Isabel

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  12. Das muitas coisas que me têm feito rir e/ou desesperar nos testes dos meus alunos ao longo dos tempos escolho como a melhor (talvez por ser tão desenquadrada) a seguinte:
    Pergunta: Refere o acontecimento que despoletou a primeira guerra mundial.
    Resposta do aluno: A morte do Luky Luke
    Possível explicação: alguém, questionado, em surdina, ter respondido "A morte do arquiduque" (Francisco Fernando).
    Já não sei o nome do rapaz que assim se desenvencilhou num teste de História de 9º ano, mas penso que não irei nunca esquecer a resposta.

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