José despede-se

Um septuagenário incorrigível descobre que tem Alzheimer e recusa-se a deixar este mundo sem primeiro fazer as pazes com um velho amigo que em jovem lhe roubou a namorada (e não só). Uma dentista, cansada da incomunicabilidade doméstica, recorre a um chat e encontra nele uma alma gémea que, afinal, conhece melhor do que pensava. Uma criança usa o computador que o avô lhe ofereceu para desabafar sobre uma crise familiar, na qual abundam segredos que se prendem com a Guerra Civil de Espanha, os grupos terroristas do País Basco e as convulsões em que a Europa mergulhou e transformaram o pai em mais um desempregado entre milhares. Estes são os três narradores de A Despedida de José Alemparte, segundo romance de Paulo Bandeira Faria, escritor português que reside na Galiza e se estreou com um livro sobre as feridas da Guerra Colonial e da descolonização intitulado As Sete Estradinhas de Catete, muito aplaudido pela crítica. Com um talento inegável para falar do duro e do difícil com humor e boa-disposição, este novo livro é uma reflexão muito bem apanhada sobre os dramas das sociedades contemporâneas e as mazelas que certos acontecimentos políticos deixam em famílias inteiras ao longo de décadas, sobretudo quando o silêncio substitui as conversas e gera equívocos insanáveis. Mas nada é insanável para José Alemparte, que não há-de partir desta vida sem pôr tudo em pratos limpos (tirando-os, muito provavelmente, da máquina de lavar loiça, com a qual imagina uma cena bastante arrojada que inclui uma senhora a quem recusou casamento). Obviamente, recomenda-se.


 


 


Comentários

  1. Que grande coincidência! Comecei a ler este livro ontem! Descobri-o no fantástico e agradabilíssimo almoço da Ler que se realizou no sábado passado. No final, e como já é hábito, houve um sorteio de livros entre os participantes. A mim coube-me o Cosmopolis do De Lillo . Já de saída, disseram-nos que podíamos levar mais, porque tinham sobrado alguns. Abarbatei-me logo com este pois já tinha ouvido muito boas referências. E estou a adorar! Foi uma belíssima descoberta.

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  2. está bem.

    aceito a recomendação. :)

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  3. A capa demostra a feição da proposta literária: A despedida de José Alemparte, pode significar em ter o delicado e dedicado compromisso da compreensão por assimilar o que seja a trajectória, enquanto ciclo; por vezes, o espaçamento indevido em elaborar da afinidade, a dita cumplicidade humana e que norteia o mundo masculino; a validar dos sentidos é necessário da vivência, cumprir-se em experiência de valores que estão para o certificado de tolerância em compartilhar dignidade. Talvez o escritor possa vir de encontro a orientar, amenizar e clarear do olhar ao assunto, circunstâncias de recusa e enfrentamento do Alzheimer. Da Galiza, esta voz que realça a literatura apontado a fronteira onde já não somos.

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  4. Em complemento da "fronteira onde já não somos"
    tentando alcaçar uma das possíveis idéias do autor Paulo Bandeira Faria, trago a apreciação um trecho do Vilém Flusser, filósofo judeu nascido em Praga que morou também no Brasil, na Itália, na França:

    “Estrangeiro (e estranho) é quem afirma seu próprio ser no mundo que o cerca. Assim, dá sentido ao mundo, e de certa maneira o domina. Mas o domina tragicamente: não se integra. O cedro é estrangeiro no meu parque. Eu sou estrangeiro na França. O homem é estrangeiro no mundo.”

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    Respostas
    1. João J. A. Madeira21 de maio de 2012 às 06:32

      A Cláudia é estrangeira no meu mundo. E, por sê-lo, provoca em mim uma procura incessante de tentar conhecê-la, provocando assim uma eventual reciprocidade. Quando aparo um cedro afirmado estrangeiro no meu jardim, não vejo como o moldo. Tenho de me afastar e olhá-lo na distância porque só assim o entendo melhor. Se ele me visse (não vê?) saberia que a tesoura na minha mão apenas o torna mais belo. Isto para dizer que no distanciamento pode estar o paradoxo do entrosamento. A integração pela distância. Domínio penso ser outra coisa.

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  5. Muito obrigado pela sugestão. Não conhecia e vou espreitar.

    Perdoe-me o aparte, MRP, mas tenho de deixar aqui uma palavra para o grande Dalton Trevisan. Prémio Camões! Diria eu: já não era sem tempo. Para mim, já o ganhou quem bem menos o merecesse.

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  6. Aguarda-se a continuação de boas edições na Teorema.
    È preciso não deixar apagar a chama desta grande editora.

    Leytor De Serviço

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