Histórias da censura
Muitos escritores portugueses sentiram na pele a repressão do Estado Novo e viram os seus livros proibidos ou riscados pelo lápis azul da censura. Mário Soares, que na época escrevia nos jornais com pseudónimo, apercebeu-se, porém, de que alguns dos censores eram bastante burros e conseguia dar-lhes a volta com uns truques estilísticos, poupando alguns dos seus artigos a cortes ou à simples proibição de serem publicados. Mas, pelos vistos, não foi só em Portugal que a censura teve agentes que não conseguiam ir mais longe do que a sua fraca inteligência. Juan Marsé esteve recentemente em Portugal para lançar Caligrafia dos Sonhos, a que voltarei quando a leitura estiver feita, e a uma pergunta do público sobre os incómodos da censura na Espanha franquista, respondeu com uma maravilhosa revelação. Tinha escrito um romance que era claramente contra o regime e decidira publicá-lo no México, consciente de que, se o fizesse no seu país, arranjaria seguramente problemas com a Polícia política. Porém, os seus receios acabaram por parecer-lhe injustificados quando os censores o chamaram mais tarde e, curiosamente, aquilo que tinham para lhe apontar era o facto de abusar das palavras «mamas» e «coxas»...
Os agentes da censura e da polícia tinham, é certo, as suas limitações.
ResponderEliminarMas hás que reconhecer que, em matéria de literatura, levavam a coisa à letra.
Uma pessoa vinda de Paris chegou à fronteira trazendo na bagagem um livro de Racine.
O polícia apreendeu o livro.
Justificação: – «Lenines, Estalines e Racines, não entra cá nenhum!»
Saudações.
Joaquim Jordão, Amarante
Ainda me estou a rir com isso!
EliminarEu também:)
Eliminarsim, parece que os senhores do lápis azul tinham mesmo algumas limitações.
ResponderEliminarmas quem era obrigado a dar-lhes "baille" todos os dias eram os jornalistas, que optavam por usar as figuras de estilo disponíveis, e claro, muita ironia, que continua a ser uma "arma" de todos os dias...
lia-se muito pelas "entrelinhas"...
Sim, os jornalistas, mas também os poetas.
EliminarJá lá dizia o Egito Gonçalves:
(…)
As palavras embrulham-se na língua.
As mais puras transformam-se, violáceas,
roxas de silêncio. De que servem
asfixiadas em saliva, prisioneiras?
(…)
Dizia, depois, o O’Neill:
(…)
Mais que a letra, é o espírito que no livro procuro,
mesmo que seja só o levante da carne
duns pobres queridos que transformavam tudo
- missa, missal, flor - em mensagens e secreto alarde!
(…)
Está a ver? As palavras asfixiadas, prisioneiras, as mais puras, eram nos poemas, nos livros, transformadas em mensagens de secreto alarde.
Mais do que a letra, era o espírito que nos livros procurávamos.
sem qualquer dúvida, Joaquim.
Eliminarmas os poetas tinham mais liberdade criativa porque eram considerados "maluquinhos" e outras coisas bem piores...
Talvez uma das funções mais extraordinárias da poesia seja a sua capacidade de abrir as janelas àquilo que Dante chamou de Commedia, formulando em versos as inquietações mais agudas que atingem o ser humano. Essa formulação pertubadora se constrói fragmentando aquele conjunto de eventos ao qual damos o nome de vida: alegria, amor, dor, desassossego, tristeza e desilução. O poeta desmonta o mundo.
EliminarPalavras relacionadas com sexo, ou atividades sexuais, sempre foram muito mais censuradas do que as que incitam à violência, ou ao racismo, por exemplo. É um mal mundial, uma mentalidade que ainda hoje impera, a um certo nível.
ResponderEliminarÉ sobre a censura o mais curto poema que conheço. De Fernando Sylvan (1917-1993) in "Tempo Teimoso", 1974, pág. 30. Chama-se:
ResponderEliminarPoema Horrível
- Posso falar?
- Não!
O poema é de Abril de 1974 - certamente de Fevereiro ou Março...
EliminarCorrecção: o poema é de 1974 - certamente de Fevereiro ou Março, quando muito meados de Abril...
EliminarHistórias da censura. A princípio pelo tema a abordagem anuncia que a censura é um fio invisivel no tempo, e que acompanha-nos desde da remota construcção do alicerce deste fenômeno que chama-se "humano" da então: acalentada e bem quista humanidade.
ResponderEliminarinvisível*
EliminarAliás, ontem na oportuninade de rever uma entrevista do imortal escritor José Saramago, fora veemente em firmar-se da importância e do respeito ao "não" e chamou atenção como ponto referencial. Reservo a compreender que das circunstâncias o nóbel atribui da flexível e permanente instigação e de que vos portugueses, mais íntimos destes particulares em desenrolar da censura hão de saber da atribuição.
ResponderEliminarBoa tarde,
ResponderEliminarFelizmente tive a oportunidade de conversar com ele. É uma pessoa interessante e gostei muito do livro.
A Maria do Rosário autoriza-me que coloque aqui o link para a entrevista?
Abraço
Mário
OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO
ResponderEliminarChega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos
edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Carlos Drummond de Andrade
" La mente, che ha ricevuto dal senso un tenue inizio di ricordo, continua poi all'infinito ricordando tutto ciò che è da ricordare. Avendo perciò i nostri sensi, che per cosí dire stanno all'entrata della mente, ricevuto l'inizio di ogni cosa e avendolo trasmesso alla mente, queste parimenti riceve tale inizio e procede oltre investendo tutto ciò che segue. Comme avviene, allorché si urta anche leggermente la parte interiore di un'asta lunga e sottile, che il movimento si trasmetta per tutta la lunghezza fino alla cima... cosí alla nostra mente basta solo un tenue inizio perché ricordi tutta quanta cosa".
ResponderEliminarOs Lápis Azuis, pelos vistos, ainda continuam vivos. 38 anos depois!!! Não deixo de achar isto estranho. Quando chegarmos ao meio século , ainda haveremos de ter essa memória. Caramba!
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