Música para cavalos
Confesso que, da primeira vez que ouvi o nome de Sandro William Junqueira, pensei tratar-se de um escritor brasileiro. O nome tinha um eco tropical, o que nem é estranho, agora que sei que este autor ainda jovem nasceu em África, mais propriamente na Rodésia. Não é que não goste de literatura brasileira, que fique claro, mas gosto de dar primazia aos novos romances portugueses e a verdade é que a geografia do parto não impediu Sandro William Junqueira de ser um escritor português. Tenho, pois, pena de não lhe ter prestado a devida atenção quando saiu o seu romance de estreia, intitulado O Caderno do Algoz, tendo-me estreado agora com o seu segundo, Um Piano para Cavalos Altos, publicado há poucos meses pela Caminho. Devo, desde já, avisar que não se trata de leitura para estômagos fracos, pois parte do encanto deste romance é justamente um lado violento e cru que é raro na literatura nacional. A história decorre numa cidade sem nome (a Cidade) onde há um muro que divide, grosso modo, os que vivem bem dos que passam mal. E, do lado pior, como se não bastasse, há ainda zonas definidas por cores – azul, amarela, castanha – com níveis de vida bastante diferentes. Existem também prisioneiros políticos, tortura, segredos, conspirações e revoltas; e, entre as personagens, todas identificadas por funções e/ou características (o Militar Coxo, o Ministro Calvo, a Ruiva, a Criada, o Operário, o Médico Loiro...), tece-se uma teia que é ao mesmo tempo pessoal e pública e que dá lugar a cenas muito dramáticas (o autor tem ligações ao teatro, e isso vê-se), caricatas, pesadas e até levemente nojentas (como aquela em que a Ruiva trata da candidíase introduzindo iogurte na vagina). Porém, apesar da violência que perpassa todo o romance, existe nele um lirismo devastador – achando eu que alguns dos pequenos capítulos, mesmo fora do contexto, funcionariam muito bem como poemas ou micro-narrativas poéticas para ler ou ouvir isoladamente. Por vezes, admito, senti-me um pouco incomodada, mas a sensação de que estava a ler um parente moderno de 1984, de George Orwell, e o desejo de saber o desfecho arrastou-me sem dar por isso até à derradeira página. E valeu a pena.
Engraçado... Estou a ler um romance de outro autor recente (ia dizer também da Leya, mas creio que já não será, pois este livro foi publicado por uma editora para mim completamente desconhecida e que acho que nem tem os seus livros à venda em livrarias; só online...). E este romance também aborda a diferença na vida entre habitantes, não dentro da mesma cidade, mas de duas cidades contíguas. Talvez seja o Zeitgeist...
ResponderEliminarO autor em causa, que não me canso de referir porque é dos que, para mim, melhor escreve em Portugal, chama-se Luís Caminha e já no seu primeiro livro ("Um Pinguim na Garagem", publicado pela Caminho) focava pela primeira vez no nosso país o tema da clonagem e das repercussões psicológicas que ela pode ter no indivíduo-clone; neste segundo livro ("A Decadência dos Olfactos", da Lua de Marfim) também aborda, pela primeira vez, que eu saiba, os 'problemas' do envelhecimento e da reforma e de como uma cidade, Albanta, evitou esses problemas.
O que posso dizer é que se em ambos os livros encontrei uma escrita bastante depurada, poética e original, neste também encontro uma narrativa ainda mais poderosa e visual. Só tenho pena que um texto assim venha a passar praticamente despercebido, tanto pela ausência de crítica como desconfio, pela, ausência de distribuição.
Como é pouco provável que os meus afazeres nas próximas duas semanas me impeçam de ler, talvez no dia 1 siga a proposta de um dos nossos Extraordinários, que a Maria do Rosário aceitou, e fale deste livro que estou quase a acabar.
Caro Nuno Serrano,
EliminarSou amiga do Luís Caminha desde que ele nasceu (o que quer dizer que sou bem mais velha do que ele e que ajudei a cuidar dele em menino) mas julgo-me uma pessoa imparcial e fico muito contente por saber que ele tem alguns leitores que o apreciam como eu.
Vejo-o escrever, principalmente poesia, desde os 8 anos e sempre teve uma escrita muito original e não influenciada por correntes (ele é mesmo contra todos os 'ismos' da literatura).
Li em 2008 o manuscrito deste seu segundo livro, e acho que é ainda melhor que o primeiro (que ele escreveu no píncípio deste século, embora só tenha sido publicado em 2009). É verdade que a actual editora é pequena e não lhe vai dar visibilidade, mas ele é uma pessoa muito reservada e creio que até prefere assim. Quando lhe perguntei o que se tinha passado com a Caminho, não me quis responder, disse-me só que não sabia o que se tinha passado mas que os editores têm o direito de investirem em quem quiserem.
Mas eu já li muita, muita coisa e sei que o tempo vai mostrar que a editora se enganou. Talvez até depois de ele morrer, mas não tenho dúvidas disso.
Também gostei muito do "Pinguim na Garagem".
EliminarDesconhecia o lançamento desse segundo livro. A ler, seguramente.
Gostei, uma boa causa!
ResponderEliminar"Música para cavalos"
Desculpem; justificando da causa.
EliminarConcordo com a MRP: quem avisa, amigo é.
Este título tem-me atraído, sem saber nada da obra nem do autor. Agora a vontade de ler o livro cresceu... Mais um para a próxima encomenda.
ResponderEliminarGosto muito dos autores novos publicados pela Caminho: Luís Caminha, Sandro W. Junqueira, Patrícia Portela, etc. Já li o último do Junqueira e gostei muito (se bem que também lide mal com as partes mais 'nojentas'). Aprecio muito a escrita da Patrícia, também, e da Joana Bértholo. Do Luís Caminha, há muito que andava à procura de mais, depois de ter lido 'Um Pinguim na Garagem', que foi, simplesmente, a melhor coisa que li em 2009. O ano passado fui ao stand da Leya/Caminho na Feira do Livro e disseram-me que estava para sair, mesmo muito brevemente, o segundo romance!!! Não fazia ideia que tinha saído agora, e noutra editora... Obrigado pela informação! E para já, grande título: "A Decadência dos Olfactos"
ResponderEliminarComprei o "Um piano..." do SWJ há poucos dias, na Feira do Livro. Vou lê-lo em breve. Tenho tido excelentes referências do livro e do seu autor.
ResponderEliminarPor coincidência, Um Piano para Cavalos Altos é o romance que estou a ler. Depois do choque inicial, estou na fase da anestesia. Espero levar mais uns choques até ao final do romance. Caso contrário, terei de me contentar com a preciosidade de algumas peças soltas.
ResponderEliminarBarrius
Obrigado pela sugestão... e pela forma viva como me motiva para ler o novo livro do Sandro. Já está na minha agenda de leitura. Aliás, queria aproveitar para dar os parabéns pelo blog, que tenho acompanhado pelo prazer de descobrir novas escritas a provar que pode haver muita crise em Portugal mas não é com certeza na literatura Portuguesa.
ResponderEliminarSobre o Luís Caminha, que foi agora referido nos comentários, fico também muito contente com o novo livro. A versão em papel vai ser lançada no dia 9 de Junho, no Auditório do Campo Grande. Vou estar lá com toda a certeza; pode ser que este acréscimo de qualidade lusa motive os nossos jogadores, para o Portugal-Alemanha que vai acontecer umas horas depois do lançamento do livro :)!
Ainda sobre o A Decadência dos Olfatos, do Luís Caminha, também tenho pena de que o mesmo não seja publicado por uma editora que lhe dê mais visibilidade. É pena a Caminho ter deixado de publicar o Caminha...
Fiquei muito curiosa com este autor quando li um conto dele no jornal universitário "A Cabra". Não sabia que tinha mais coisas escritas e já comprei o "Um Pinguim na Garagem".
EliminarSoube há pouco no blog dele que o lançamento do "A Decadência dos Olfactos" vai ser no próximo 9 de Junho e lá estarei sem falta, para conhecer o autor e para reencontrar um escritor que adoro e que vai apresentar o livro: o Miguel Real.
Também irei. E pelos mesmos motivos:)
EliminarE já li o "Um pinguim na garagem". Excelente, sem dúvida!