O real ao serviço da escrita

Li algures que, nos últimos dez anos, os livros de ensaio escritos em português e publicados em Portugal foram significativamente menos do que nas décadas precedentes. Não falo de não-ficção em geral, uma vez que se multiplicaram biografias de reis, rainhas e estadistas e não faltaram também os livros de dietas, cozinha e psicologia; falo, sim, de obras de pensamento estruturado, normalmente de índole política e filosófica, que aparecem cada vez menos nos nossos escaparates. Num destes fins-de-semana, porém, uma breve notícia no suplemento «Actual» do Expresso referia que em Espanha a situação, que era semelhante, está a inverter-se com o movimento contestatário 15-M, que já deu origem, com a sua acção, a mais de duas dezenas de obras «filhas» deste grupo, algumas das quais questionam o direito à desobediência civil e propõem alternativas à actual política social espanhola. Talvez o nosso espírito demasiado brando obste a um movimento deste tipo (somos, apesar de tudo, mais «come e cala» do que os espanhóis), mas não me admiraria muito se, com a austeridade vigente e o agravamento das condições de vida, não começassem a surgir de repente ensaios portugueses que nos ajudem a pensar o momento e apresentem alternativas às medidas da Troika.

Comentários

  1. Logo após a invasão do Iraque e quando se tornaram público os interesses da Fundação Calouste Gulbenkian na naquele país, pensei que a falta de verbas afectaria certamente alguns sectores culturais em Portugal. De facto, assim foi. trabalhos de investigação e um conjunto de publicações, no meu entender , de muita importância no panorama nacional, deixaram de receber apoio à edição. Claro que comercialmente as editoras não apostarão em publicações que nem 100 exemplares venderão. Era aquela instituição que viabilizava muito do melhor que se publicou. Quando dirigia uma determinada biblioteca tive o privilégio de carregar de lá coisas fantásticas, a título de oferta para gáudio dos utentes. Se ao menos se aprendesse a lição, mas, infelizmente, julgo que já anda para aí muita gentinha a engendrar uma nova invasão, desta vez, à Síria. Já sabemos que no Iraque, afinal, não haviam as tais armas e na Síria, alguém, com uma réstia de lucidez, acredita que o Ocidente lá quer ir em defesa dos direitos humanos? Pois, então que comecem por Israel, socorrendo os Palestinianos .

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  2. Uma dúvida me assalta: No estado depauperado em que estamos, acima de tudo quem está fragilizado e/mas ainda tem alguma força anímica e física para lutar por uma mudança, quem editará esse tipo de obras? Mesmo que editadas, de certeza que em pequena escala, a quem chegarão?
    A escola está drogada, é bom não esquecer, pelo crescimento, pela competitividade, por tudo o que, afinal, acaba com a qualidade de vida.
    Digo eu...

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  3. Li o título e pensei: "(Miguel) Real ao serviço da escrita". Faria todo o sentido. Assim como faz como está.

    Acho que em Portugal se escreve pouco ensaio porque as editoras não podem investir nos ensaios: a população é muito menor do que em Espanha, lê menos e prefere esquecer a vida na ficção e filmes de Hollywood. Felizmente, a boa ficção é ficção-ensaio, apanhando alguns leitores desprevenidos e obrigando-os a pensar.

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  4. É nestas alturas que me lembro do Tom Wolfe, do Gay Talese e, of course, do Hemingway e do Mailer.

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  5. Bom dia a todos.

    Classificaria, importante. Este delicado post entre tantos como o fora, cada qual da hora extraordinária por MRP abordado, não exime outros da compreensão eixo "pensamento"; gosto de alavancada estructura dorsal, até então: proposta, advertida, exemplificada e de maneira consciente a estimada inteligência humana que em ponderável alcance, vislumbra a competência não tardia em real; a espinha dorsal o "ensaio" que norteia a estabilidade, a fluidez e o contexto do pensamento transfere hegemónia enquanto: estudo, pesquisa e conceito elaborando e justificando, soma para a causa "conhecimento" e que não só experimental; a medida em que o lastro seja propulsão do mesmo, comum ao género a serviço da escrita.

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  6. António Luiz Pacheco30 de maio de 2012 às 04:43

    Também me assalta a idéia de que se publica pouco ensaio, por razões financeiras!
    O Ensaio, se for escrito por uma cara conhecida da comunicação, as Editoras publicarão mas sobretudo serão publicitados! Desde que seja do Prof. Marcelo ou da Carla Matadinho !

    Agora se for de um ilustre pensador, um historiador local, um académico ou investigador social, mas que o grande público não conheça... se calhar não o publicam nem publicitam.
    Há sempre as pequenas edições das Câmaras, das Universidades, Academias, até clubes ou associações... e publicam-se muitas coisas! Que nem por isso chegam às prateleiras das livrarias, mas se acham nas Câmaras, na Imprensa Nacional, etc. Têm de ser procurados... alguns já os comprei directamente ao autor!

    Coisas interessantíssimas, claro, mas só para quem se interesse, lapalissianamente dizendo!
    Que normalmente são pouco divulgadas!

    Por exemplo: "Os Canto" de Mª Filomena Mónica, é interessantíssimo mas para um público restricto , no qual me incluo e não por snobismo. Pertence a que género? Ensaio histórico, talvez?
    Ajudem-me lá... e foi sucesso de vendas? Não creio, a despeito da notoriedade da autora.

    Portugal - o medo de existir? Quem comprou ou leu? É ensaio puro não é? Mas vale a pena...

    "Nos caminhos de África", "A aventura dos godos", "Os lusitanos", "Memórias de um povo",
    "Fui lá visitar pastores", "O sentimento de si", Bitcho bravo", "Portugal que futuro", " José do Telhado" (a tradição I e o processo II) ," Ao encontro de Espinosa", "Ética na sociedade plural", "Paiva Couceiro - um herói português",
    "Henrique Galvão", "Mouzinho de Albuquerque",
    "Viriato", "Homens espadas e tomates", "Os últimos guerreiros do império", "Memórias de Angola", "A costa dos tesouros", "Portugal militar", "Portugal - o sabor da Terra", "O porquê de Barrancos", "Senhores do Sol e do vento",
    "Lugares mágicos de Portugal", são outros títulos de autores portugueses que me lembro assim de uma assentada e à primeira, dentro do género que posso entender como "ensaio" nas suas diversas vertentes, e que li nos últimos anos! Mas se for dar uma volta às estantes encontro muitos mais...

    Portanto haver, há! Agora editá-los...

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    1. Portugal - o Medo de Existir esteve nos Top de vendas durante várias semanas.

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    2. Oh Maria do Rosário, "O MEDO DE EXISTIR" é um estudo a estudar, não lhe parece? é que, na altura da sua publicação, defraudou um pouco as minhas (grandes) expectativas, ou se calhar porque, na altura, ainda não teria "cabedal" para tal estudo, o que admito muito sinceramente, se calhar agora poderei ter um pouco mais, quiçá...

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    3. quiçá - não me digam que esta palavra não é fina...

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    4. António Luiz Pacheco31 de maio de 2012 às 07:09

      Finíssima!!!! Helás! Ahahah!

      Um grande abraço!

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  7. "Talvez o nosso espírito demasiado brando obste a um movimento deste tipo" -

    Diálogo do(com) imaginário: ensaio filosófico.

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    1. António Luiz Pacheco30 de maio de 2012 às 05:37

      Discordo do tal "espírito brando"... no fundo não somos assim tão brandos!
      É um mito criado pelo Estado Novo, diria eu, que com a PIDE tentaram aniquilar ou castrar o espírito do povo que se revoltava e fazia revoluções, que conquistou e empreendeu, recuperou independência e até esganou e colonizou e manteve com sucesso uma guerra a 10 000 km de casa, a gente mais pobre e atrasada da Europa de então! A ponto de ser case-study (é para chatear o nosso A.Severino
      ... eheheh !) para a CIA e o exército americano!

      Olhando ao nosso passado e história, até recentes, tenho alguma dificuldade em aceitar essa dos brandos costumes.
      Não nos acordem... diria eu...

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    2. Interessante, mas a privar-se de mira:(somos, apesar de tudo, mais «come e cala» do que os espanhóis); quer pólvora, a tem.

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  8. O Miguel Real tem sido dos únicos escritores e grande intelectual a fazê-lo. Pertinente, incisivo, fascinante, ele é o único em Portugal. Se estivéssemos noutro país os editores já teriam percebido isso há muito. Já estaria traduzido. Mas aqui é tudo muito pequenino. E os editores também.
    Gustavo

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  9. A propósito de "espíritos brandos", dei por mim a pensar que, no grego clássico, havia um sinal diacrítico, o espírito, que podia ser brando ou áspero e, neste último caso, marcava a pronúncia forte, aspirada, da letra inicial a que se antepunha. E que o H inicial - em português sempre mudo - é, em muitos casos, um longínquo sucedâneo desse antiquíssimo espírito áspero grego.
    Há certamente razões para este emudecimento...

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  10. Se fôssemos "come e cala" já não existiríamos há muito, quando, afinal, somos dos mais antigos. Além disso, se fôssemos "come e cala" como se compreenderia tanto ruído?

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    1. Olá, Paulo boa tarde.

      Mas, para Epicteto:
      “É impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe”.

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  11. Não tenho a ideia que em Portugal se publiquem poucos ensaios. A nível histórico e ideológico encontro bastantes nas livrarias. Onde eu encontro escassez é no ensaio de investigação (científico). Mas isso é conversa que dá pano para mangas.

    Não sei até que ponto é que uma maior publicação de ensaios sociais/políticos/ideológicos/históricos, nos beneficiaria enquanto nação. Penso que Portugal está cheio de pensadores, o que na realidade falta é executantes.

    Apenas a título de exemplo: Estava-me a lembrar de um livro fabuloso do Miguel Real e que não é um ensaio: “o último minuto na vida de S”. Quantos ensaios não se escreveram acerca desta temática! O facto é que somos um país onde um primeiro-ministro foi assassinado, muito se escreveu, muito se pensou, muito se falou, e nada se conseguiu fazer durante anos e anos e anos. Assustador.

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  12. A MRP poe as biografias de reis, rainhas e estadistas ao lado dos livros de dietas e cozinha, penso que (espero que) apenas a título de exemplo. É verdade que tem havido uma explosao de obras desse tipo, mas penso porque vieram tarde. Elas eram mais do que necessárias. Em 2000, o Prof. Freitas do Amaral publicou uma biografia de D. Afonso Henriques porque lhe fazia impressao que, num país com quase 900 anos de História, ainda nao houvesse uma única biografia do seu fundador! Aliás, quase nao havia biografias dos seus reis! Ele deu o tiro de partida e, felizmente, surgiram as outras, cheias de qualidade, nomeadamente, a da coleccao da Temas e Debates. Estes livros revolucionaram a maneira de ver e explicar a História de Portugal, coisa que, inexplicavelmente, ainda nao chegou às escolas. O ensino da nossa História está desatualizado, bolorento, cheio de tiques salazaristas, o que é lamentável. Até parece que se tem medo de ensinar a verdade às criancas e jovens...

    Quanto aos livros de psicologia, se forem livros bons, escritos por profissionais (como os de Eduardo Sá), sao igualmente muito necessários. Já dizia o Sócrates (o grego, claro): "Conhece-te a ti mesmo." O conhecimento dos outros comeca em nós.

    P.S. Desculpem o teclado sem caracteres portugueses; ando em viagem.

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    1. Se permite a escritora Cristina Torrão, concordo com: a "título de exemplo", e acrescentaria a "título de analogia" inibindo o determinismo de confronto e assimilando características de igualdade (colaborativas).

      Do: "conhece-te a ti mesmo" por extensivo ao dever e ao devir.

      "ensaios portugueses que nos ajudem a pensar o momento e apresentem alternativas às medidas da Troika".

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    2. Exemplos de não-ficção e sem juízos de valor.

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  13. Gosto muito do seu blogue. É talvez o mais simples e bem estruturado da minha lista. Os seus artigos são muito bons. Felicitações.

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  14. Falta O ensaio, Aquele ensaio. Se quiserem eu escrevo-vos O ensaio, chama-se "Deus pariu o mundo, mas a mim foi a minha mãe". Versa sobre a consciencialização do conceito de espécie intemporal e como só pode ser atingida através de uma ruptura com o conceito tradicional de educação. E depois? E depois que o edite eu, já que ensaios só de gente velha e famosa, o que é em certa medida um oximoro engalanado... pois serão aqueles que tiveram uma vida inteira para agir (tempo e mediatismo), a exortar os jovens a uma mudança de paradigma? E não terá um ensaio à séria peso excessivo para os telhados de vidro da grande maioria da editoras? Eu já disse isto uma vez e repito, que acabem as livrarias, que fechem as editoras, que se encham de mofo as lombadas dos livros e aí sim, aí havemos de escrever os verdadeiros ensaios, nas costas de facturas por pagar.

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  15. Os ensaios têm, contextualizados, a particularidade de nos fazer investigar, talvez posteriormente, a vida do ensaísta, afinal de contas, a humanidade, exige total consistência nos dizeres (!). Então descobrimos que Montaigne diminuía as mulheres, que Rousseau foi mau para o filho bastardo, que Aristóteles acreditava que camisas sujas com trigo geravam ratos do campo, que Euripides era um parvalhão e por aí a fora. Schopenhauer, Pascal, Marco Aurélio, Spinoza e mais um molho de brócolos, todos geniais, todos humanos. Não se exija a irrepreensibilidade e encontraremos ensaístas onde nada mais víamos do que gente banal.

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  16. Existem escritores, muitos e alguns de certo bons. Eu própria escrevo e tento publicar, já enviei para apreciação em várias editoras. Dizem que o material é bom mas não é a conjuntura politica, só se pagar a edição, devo tentar concorrer a um prémio,... mas não publicam! porquê? não sou conhecida, não trabalho na TV, ou ando pelas revistas cor de rosa, não tenho um nome sonante mas sou apenas mais uma que escreve e gostaria de publicar. Se for a pessoa interessada em descobrir novos escritores apesar de não tão novos em idade, contacte-me.

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  17. A colecção de ensaios publicados pela Fundação Manuel Santos (a preços muito acessíveis) parecem ser um bom motor de divulgação do género.

    PLFF

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  18. António Luiz Pacheco2 de junho de 2012 às 15:55

    Já comprei e desatei a ler sem parar!!!!
    Falo do tal ensaio sobre o romance protuguês contemporâneo. É do mais interessante e suponho que inédito nos últimos anos...
    Vale mesmo a pena ler, e enriquecer a nossa prosápia de conhecimento literário com uma vasta análise de autores e obras, até dos que parecem à partida não terem interesse! Os light e tudo!!!

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