Idiossincrasias
Todos nós temos manias – é verdade –, uns mais do que outros; mas, se estas nos afectam apenas a nós próprios, que ninguém nos venha criticar por causa delas. (O pior é quando não é assim.) Os escritores não fogem à regra e, por vezes, desenvolvem idiossincrasias que se vão tornando doentias ao longo da carreira. Enquanto decorria, na última Feira do Livro de Lisboa, uma daquelas longas tardes de autógrafos, com as mesas completamente cheias de autores de todos os géneros e idades, estava eu a acompanhar quatro escritores quando fui abordada por uma das colaboradoras da LeYa num tom ciciante. Vinha averiguar se eu, por acaso, tinha uma esferográfica (e nem valia a pena perguntar, porque ando sempre munida de duas ou três, já para evitar que um leitor apareça e os autores não tenham como autografar-lhe o livro). Mas, desta feita, havia uma especificação: a esferográfica tinha de escrever a preto. O autor em causa usa sempre esta cor, e a caneta que tinha levado, quiçá à conta de muitas e longas dedicatórias, dera as últimas. Porém, nem naquela emergência ele aceitava escrever a azul e tinha sido categórico: se ninguém lhe arranjasse uma caneta preta, ir-se-ia embora e não daria mais autógrafos, mesmo que diante da sua mesa engrossasse a fila de pessoas em busca de uma assinatura. Pareceu-me um bocado exagerado pôr tal condição para continuar ali. Talvez estivesse farto e quisesse apenas arranjar pretexto para ir para casa. A sorte foi que, entre as várias canetas que eu trazia na carteira, uma era, de facto, preta. Não ma devolveram até hoje, mas isso até é o menos. Pior teria sido deixar tantos leitores à míngua...
Parece-me evidente que o autor menos maniento da feira do livro era o Padre Borga! Viva o Padre Borga!
ResponderEliminarQuando comecei a trabalhar (tinha dezassete anos), no meu primeiro emprego disseram-me logo, pode escrever com todas as cores, preto, azul, vermelho, na cor que entender, menos a verde, cor que na empresa apenas o nosso Administrador (alemão), pode utilizar.
ResponderEliminarSão manias de puto mimado, de quem teve sorte na vida e pensa que a teve porque é muito especial.
ResponderEliminarOlhe que ele já não é assim tão puto...
EliminarE, no entanto, é...
EliminarTouché!
EliminarEntão, comecem por condenar a todos como putos...pois o dia que trouxerem um e-book para autógrafos e uma caneta digital, que nem seja surpresa. Aliás, sorte que de quem, vivo estiver, para ver, até.
EliminarAutor pouco imaginativo. Molhava o dedo no queimado do cérebro e escrevia a carvão. Haja paciência...
ResponderEliminarJá vi uma cena parecida numa série americana (Homeland), em que uma investigadora pede desesperadamente uma caneta verde para tomar notas importantes que lhe estavam a vir à cabeça. E só podia ser verde. Era doente bipolar tipo II.
ResponderEliminarÀ parte as idiossincrasia, há autores capazes de proporcionar momentos únicos, partilhando ou dando-nos a ler algo do seu labor e do seu saber. Foi isso de que beneficiei, através de "O Teu Rosto Será O Último", João Ricardo Pedro. Saí de manhã, num dia sem grandes compromissos, adquiri o livro na Pretexto , Viseu. Viajei páginas fora, no final, quedei-me a contemplar a capa, deliciado com a qualidade da narrativa e pensei: valeu a pena, é um trabalho útil, foi um bom contributo para o leitor e para a sociedade em geral, não me importaria de ter sido eu a produzir isto, claro, se o engenho não me faltasse: parabéns ao autor e a todos que tornaram possível a edição.
ResponderEliminarLogo que acabar a confissão de leoa , o livro que menciona será o próximo que vou ler, e perante este testemunho, já estou entusiasmadíssima. Obrigada,
EliminarIsabel
Além do acima dito por Urgais, JRP é pessoa simpática e acessível, com um ar entre o admirado e o divertido com as atenções que sobre si incidem. Aproveitando o convite formulado pelo próprio, na sequência duma pergunta que eu tinha feito aqui, falei com ele brevemente na Feira - a confusão era grande no local - e, imaginem!, com a nossa patrona, igualmente simpática. Depois, ainda tive direito a um email com a cópia do quadro que me atormentava.
EliminarPaulo, o quadro sempre é o Triunfo da Morte? Mas esse não está em Viena. E em que canto se esconde a figura feminina de muletas e toucado azul? Bem que a Maria do Rosário me disse que fosse à feira falar com o JRP ...
EliminarIvone, ver em http :/ en.wikipedia.org wiki The_Fight_Between_Carnival_and_Lent . A figura acaba por saltar à vista mas não é líquido que seja uma mulher. Eu andava mais inclinado para o Jogos de Crianças, mas não encontrava a figura. Também, diga-se, se o Bruegel fosse atual acabaria a pintar os saldos selvagens do pingo Doce ou cena equivalente. Agora, a preocupação mudou-se-me para o nome da aldeia da Gardunha onde a ação começa, e que teria nome de mamífero. Tenho uma forte suspeita.
EliminarPois, não é líquido que seja uma mulher.
EliminarAs minhas fontes dizem que a aldeia é Orca.
Sim, também penso que seja Orca, apesar de lá perto haver uma Zebras.
Eliminardeixaram-ma curioso.
EliminarZebras é a aldeia onde o meu pai nasceu, quase ao lado da Orca, onde vive uma das minhas tias...
Muito bom, mesmo. Muito bom o livro do João Ricardo Pedro. Parabens.
Eliminargrande azar, a Rosário ter a esferográfica preta...
ResponderEliminarele furioso por ter de ficar a cansar os dedos, assim que pode, deitou-a fora. :)
E se esse autor enfiasse a esferográfica preta pelo...?
ResponderEliminarBem, quase que estou tentado a dizer que ele não assinou autógrafos, mas sim, auto...clismos. (olha, e disse mesmo)
Viva a paralipse.
EliminarA sorte foi que...
ResponderEliminar"Prevenção" é lembrar com antecedência, é planejar, raciocinar e projectar a coerência.
Do suporte a mulher previnida, equivalha a duas.
Da prevenção: reserva de inteligência.
Tanta gente, tanta coisa que se sabia e se fazia em tanta gente. O tempo ainda não é nosso, ainda assim, ainda assim rebelde, doou um belo dia a tanta gente, a tanta gente que gostava de livros. O ruído das páginas ondulantes cheirava-se na memória de outras feiras, tantas feiras, onde os gostos eram outros porque outros eram aqueles mesmos. Os pequenos, uns verdadeiramente diminutos, outros reduzidos por defeito de carácter, noção ou coração, procuravam os grandes. Olhavam para cima, para as gaivotas, sem saberem que os tinham no colo, aos grandes, entenda-se. Os grandes, entronados pelo que a todos pertence, aguardavam sentados, alguns distantes outros distantes dos que se distanciavam, aguardavam pelos pequenos que pingavam a conta gotas. Pingou o João que sorriu, a Maria que ruborizou, a D. Amélia que desfaleceu por dentro como só o sabem fazer as velhas mais compostas. A esfera rolava e rolou e rolou e rolou e parou, não de rolar, não de dar ao pequeno a parte do grande que sempre lhe pertencera, mas de pôr o preto naquilo que branco era e branco sempre seria, não sem o preto, mas sem os pequenos. "Acabou-se! Voltem amanhã!". E eles voltariam, voltariam porque são bons, não todos, mas o todo. Quem sabe, um dia, quando for preciso, tenha o grande que se tornar pequeno, defronte de um médico que não encontra o seu bisturi favorito...
ResponderEliminarHá pessoas curiosas... Ou, como muito bem disse, talvez o senhor estivesse farto de ali estar! De qualquer das maneiras, passei por aqui para lhe dizer que cresci com os seus livros do "Detective Maravilhas", e que estes me proporcionaram excelentes momentos de leitura. Sempre adorei ler, e os seus livros eram dos meus preferidos. Obrigada! Um grande beijinho.
ResponderEliminarApetece-me dizer: ai life!! Mas a verdade é que todos temos manias (belo eufemismo esse das idiossincrasias).
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