Autógrafos com pernas
Há muita gente que gosta de ter a assinatura do autor no seu exemplar do livro e espera, se for preciso, tempos infindos numa fila para o conseguir. Basta ir à Feira do Livro de Lisboa e observar a multidão que se reúne para um autógrafo do consagrado António Lobo Antunes ou do mais jovem José Luís Peixoto, que consegue a proeza de assinar por vezes duzentos livros numa tarde. Houve, porém, um autor que era avesso a tal prática. Chamava-se Miguel Torga e simplesmente recusava escrever dedicatórias nos seus livros. Contaram-me durante as últimas Correntes d’Escritas que, um dia, Mário Soares lhe levou um livro para autografar e Torga lhe terá dito que não assinava livros para ninguém, pelo que não abriria a excepção. Anos mais tarde, contudo, o mesmo Mário Soares terá encontrado por acaso num alfarrabista uma primeira edição de uma das obras do escritor-médico autografada para a jornalista e escritora Maria Archer. Comprou-a e, assim que pôde, confrontou Torga com aquela realidade. Ao que este lhe terá dito que as pernas de Maria Archer não se podiam comparar com as suas...
Fabulosa resposta! Tirando os autógrafos de autores que conheço no pessoal da informalidade e as "signed copies" que se vendem aos molhos nas livrarias anglófonas e que nem reparamos quando compramos, os únicos "autógrafos" que aprecio são os dos donos anteriores dos meus livros. Imagino, pelas caligrafias, como seriam aqueles leitores que me precederam ou que guardaram aqueles livros para mim. Disso gosto muito...
ResponderEliminarSim, também gosto e tenho alguns, antigos e herdados, com caligrafias muito bem desenhadas. Ah!, e agora tenho também a do Courinha, que prometeu e cumpriu, e a quem agradeço.
EliminarTambém gosto de marcas de livros. Tenho algumas bem curiosas.
O que eu me ri com esta história. É bem verdade, quem autografa, se tiver algum jeito, tem logo ali uma oportunidade de ouro para marcar pontos consideráveis com o ser pretendido!
ResponderEliminarFoi uma óptima resposta !!! :) Muito bom!
EliminarJá lhe gradeci em privado. Faço-o agora publicamente. Obrigada pelo livro... e pelo autógrafo.
EliminarEspero sinceramente que goste
EliminarVou aproveitar a interrupção da Páscoa para o ler... gosto de pegar e não largar e, em tempo de aulas, isso é mais difícil, sobretudo na reta final de um período, e sendo diretora de turma. Vou lendo mais jornais, revistas... e blogues.
EliminarAssim que o ler mando-lhe um mail com a minha opinião sincera.
Bem, eu vou destoar porque não gostei da resposta, acho-a machista.
ResponderEliminarA próxima vez que quiser um autógrafo de um escritor vou de mini-saia. Não sei é como hei-de fazer com uma escritora...
O ato de autografar no primeiro momento é constrangedor, parace do ar triunfante e vaidoso. Eis, que uma pessoa com o seu suor, paga para lê-lo, e quantos esquecem-se deste compromisso, pelo esforço alheio. No entanto, fora o livro, o suporte de registro pessoal, que entra porta adentro e compreende a intimidade do autor, seus pensamentos, anseios e verdades ou, não... Praticamente o leitor vendo-o nu, veste-se; assimila e delicia-se, aprendendo e fortificando-se por experienciar a natureza do outro, pelos sentidos de outro, que alçou vôo na intrépida existência visionária, do crer, ao que possível seja a imaginação ao mundo. Fora justo, a conssessão do autógrafo pela sedução e, que fraqueza. Se ao menos bondade! Ah, mas muitos dirão, Torga pode. E diria, que não somente Torga, mas, todos podem, afinal também podemos ecolher o número do sapato, não é.
ResponderEliminarescolher ou, encolher* é de vossa, ordem.
EliminarBoas tardes a todos!
ResponderEliminarIsto vai... sou grande admirador de Torga, acho que já aqui o disse antes, acho efectivamente a sua resposta tanto machista quanto engraçada... e suponho que o seu fim tenha sido calar um espertalhão! A referência às canelas da Archer terá sido mera retórica - aliás existem nessa família Senhoras bem bonitas e grandes caçadores!
Sabem que entre nós "homens" quando em certos ambientes soltamos o nosso machismo mais primário mas julgo que inofensivo, há o costume de dar essa resposta: "As pernas dela são melhores que as tuas!".
Fica desvendado o segredo! Mas desconfio que as senhoras farão outro tanto... e ainda bem!
Se me permitem a brincadeira, ó Cristina, olhe que terá de analisar cuidadosamente o escritor que vai abordar... porque neste meio da escrita onde julgo haver grande liberalização, se por um lado ainda a acusam de assédio ou de ser uma oferecida, por outro é capaz de haver escritoras a avaliar-lhe os atributos como escritores a renegá-los... Ahahah!
Já agora, sei que gostou da minha dedicatória!
E fica desde já o pedido de assinatura seu, para quando calhe... pois eu sou dos que gostam de o ter! Porquê? Sei lá eu... e não me tira o sono!
E tenho a mania de numerar, datar e assinar os meus livros!
Bom, já tenho ali o Tóninho com o tractor a trabalhar, tenho de ir. Até logo...
Não nego que alguns escritores renegassem os meus "atributos". Mas que muitos homens ficam logo entusiasmados perante uma mini-saia, mesmo que a senhora em questão nem seja o seu tipo, isso ficam.
EliminarQuanto ao assédio... Enfim, isso dava pano para mangas.
Torga é um vulto da Literatura Portuguesa. E o seu fim terá sido "calar um espertalhão". Mas Torga era um homem do século passado. E provou-o, com essa frase!
Quanto à minha assinatura, talvez um dia se proporcione, sim. Já agora, estou a chegar ao fim do primeiro volume da Largueza, qualquer dia envio-lhe um mail.
Pois é! Há várias histórias com Miguel Torga...
ResponderEliminarBolo rei seco e esfarelado
«A mulher! Não me canso de a exaltar. O que o homem é a seu lado! Um Adão inocente, um Édipo perplexo, um Otelo cego. Flor emblemática da Criação, perfumada de futilidade, só ela sabe pecar sem remorsos, procriar sem vanglória, entender sem lógica. E sofrer paradigmaticamente, já que foi sempre a Antígona heróica da grande tragédia da vida. Dona do mundo e depositária do futuro, nunca o quis parecer, sequer. Gentilmente, deixou essa presunção ao pobre companheiro que, depois de tantos milénios de convívio, continua a revolucionar os tempos sem perceber que é ela o cordão umbilical da História».
ResponderEliminarCoimbra, 12 de Outubro de 1978 - Diário XIII.
Esta nota não me parece de todo redigida por alguém que transitasse em limos machistas. Torga, escreveu no seu diário que, apesar de toda a prosa por si lavrada ser o reflexo íntimo e transparente do seu carácter, havia muita gente que o julgava conhecer adivinhando-o. Ora, parece-me demasiado arriscada a presunção de catalogar de machista um conto que, certamente, tem muitos pontos acrescentados.
A frase desiludiu-me, só isso. E já os jograis da Idade Média exultavam a mulher, dizendo que valia a pena morrer de amor por ela. E toda a gente sabe que a época medieval era muito machista!
EliminarGostei da resposta do Torga. Genial!
ResponderEliminarConcordo com Ant . Luís Pacheco. Não creio que tivesse sido dita com intuito machista ou de desvalorização da destinatária. Acho que foi, simplesmente, uma resposta assertiva, bem humorada, com intenção de o por no lugar. Mas, mesmo que seja verdade, e ele tenha autografado o livro por se sentir atraido pelas pernas da M. Archer , está no seu pleno direito:) Pela minha parte afianço que jamais recusaria, fosse o que fosse, ao Daniel Day Lewis . Eheheheheh ...
Quanto aos livros autografados, aprecio a assinatura do autor mas apenas dou verdadeiro valor, aos que me são mesmo dedicados; eles têm que ter uma história por trás. Por exemplo, adorei a dedicatória do Courinha porque resultou de um encontro fortuito num blogue e, ainda por cima, ele referiu-se a um episódio ocorrido aqui. Ou seja, daqui a alguns anos, sempre que pegar no livro e ler a dedicatória, recordar-me-ei deste espaço e desta ligaçãoque, embora virtual, é prazeirosa. Felizmente, tenho mais uns quantos deste género. Poucos, é certo. Mas muito importantes para mim. Um deles é de um escritor que eu adoro, o Valter Hugo Mãe, que teve a enorme gentileza e generosidade de me oferecer o seu último livro, antes do seu lançamento, quando ainda nem nas livrarias estava. E fê-lo, num encontro casual, sem me conhecer de parte nenhuma, quando eu o interpelei, na rua, para lhe dizer o quanto eu admirava a sua obra. Fê-lo apenas porque percebeu que a minha admiração por ele é enorme e genuina, e porque tem um coração do tamanho do mundo! Guardo-o com enorme carinho. Claro que essa dedicatória é-me muito importante.
E tenho outras, de outros autores, com histórias, também, importantes e interessantes. E que me são muito queridas, também. São essas as que eu prezo, mesmo. Assinaturas impessoais, aprecio, mas não corro atrás.
HaHaHa, Torga sem escrúpulos...
ResponderEliminarFoi uma boa resposta, eu diria igual, mesmo ao... Mário Soares!
De resto, não acho que seja machista. Foi uma brincadeira, uma daquelas respostas que calam quem a ouve. Depois disso, Soares terá engolido a seco e sorriu possivelmente...
Aproveito para promover a Casa-Museu Miguel Torga, em Coimbra.
http://www.cm-coimbra.pt/cmmtorga/
Boas...
ResponderEliminarSobre respostas, sempre ouvi contar cá em casa, uma passada com o poeta Afonso Lopes Vieira, que foi amigo de meu avô Abreu.
Este tinha sido visitado na sua casa de S.Pedro de Moel por uns pais ricaços que querendo projectar o seu rebento tido com um brilhante futuro nas letras, arranjaram forma de se fazerem convidar para um sarau literário de Verão... para ele fosse posto à avaliação do celebrado vate.
O jovem de improviso inspirado rasgou para uma janela:
"Olhai o céu, cheio de estrelas...
Meu Deus como são belas! Meu Deus com são belas..."
O poeta terá comentado, baixo, para quem estava perto:
"Lamento dos pais o triste fruto...
Meu Deus como ele é bruto!"
Resposta brilhante.
ResponderEliminarO abuso de confrontar o Escritor Miguel Torga valeu por uma lição de vida que creio, o cidadão Mário Soares, não ter compreendido na sua profundidade.
A presunção do acto é digna do idiota que é, mesmo que toda a gente (ou quase toda) lhe preste uma reverência que está longe de merecer.
Obrigado à Escritora Maria do Rosário Pedreira por este espaço fantástico.
Maria Lessa
Homessa, Maria Lessa ! Todos sabemos que o Torga era torto e saiu-se daquela maneira para não aturar o Mário Soares. Só isso. Falar de machismo - mais acima - é igualmente ridículo.
EliminarÉ por se achar tanta piada a tiradas deste género que não saímos da cepa torta.
EliminarBrilhante! :)
ResponderEliminaruma resposta á medida da lata do Soares. :)
ResponderEliminarPost bem divertido
ResponderEliminarCom olhos de esperança a lua vigía-nos.
ResponderEliminarBoa noite, estimado Portugal!